O regresso da bolha

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Sete milhões de americanos pararam de pagar o empréstimo do carro: não conseguem, não têm dinheiro que chegue. Onde é que já vimos isso? Ah, sim: ano de 2007, a chamada “crise do subprime“, o começo do pesadelo económico quer trouxe o imenso colapso das economias americanas, depois das ocidentais. Algo do qual ainda não recuperamos.

E a razão pela qual não recuperamos fica evidente: a finança especulativa não foi “desarmada”, não foi proibida de realizar as suas acções devastadoras, entre as quais há o empréstimo irresponsável. O Capitalismo (mais uma vez: aquela coisa que continuamos a chamar “Capitalismo” mas que já não é) não foi colocado sob o controle da única entidade que poderia trava-lo: o Estado. Razão? Simples: a Finanças comprou o Estado.

Resumos dos episódios anteriores: a crise subprimes

Lembramos: tudo começa com bancos que procuram pessoas de baixo rendimento, tipicamente a mão negra com dois filhos e um trabalho no supermercado por 300 Dólares semanais. Os bancos fazem assinar o empréstimo para casa (ou para o carro, como agora) e pronto: o banco tem um “activo”. a renda: tipicamente, a mãe negra com dois filhos e um posto de despacho de supermercados de 300 Dólares por semana. Clientes como estes são devedores “subprimes“, ou seja, de baixa qualidade: isso significa que provavelmente não serão capazes de pagar o empréstimo. Muitos já têm histórico de insolvências e falências. Mas então por que os bancos procuram clientes como estes? Não entendem que assumem um risco, o risco de insolvência? Bem, não, os bancos não correm o risco: encontraram uma maneira de entregar o risco a outra pessoa, obviamente inconsciente. O truque é chamado de securitization: um produto, novo na altura, da Finança criativa.

A receita é esta:

  1. pegar nestes contractos subprimes;
  2. mistura-los com alguns contractos “bons” (mas sem exagerar, só para dar um cheirinho);
  3. criar uma espécie de massa uniforme, estende-la e corta-la em fatias, como um salame;
  4. vender as fatias, cada uma das quais pode ser apresentada como “títulos que produzem um bom interesse porque são cobertos por hipotecas”.

Se o cliente desconfiar, as fatias podem ser chamadas de MBS (Mortgage-baked Securities) ou CDS (Credit Default Swap), que faz sempre um figurão porque o cliente raramente entende do que estamos a falar. E ainda bem: porque partimos do pressuposto que a mãe solteira continuará a honrar a dívida e os juros, mês após mês.

Activos como estes podem também ser vendidos a grandes fundos que precisam obter um fluxo contínuo de juros para pagar, por exemplo, pensões ou seguros: fundos de pensão e fundos de seguro. Cujos gerentes (note-se: especialistas de renome) compraram caixas fechadas com grandes quantidades de fatias, assumindo as dívidas de milhares de mães negras ou de trabalhadores temporários mexicanos que compraram o carro por empréstimo. Gerentes estúpidos? Não. Eles sabiam, mas durante um tempo todo o esquema estava a funcionar e por uma razão óbvia: já que milhões de mães negras compraram uma casa, o sector imobiliário teve um boom até os preços dos imóveis dispararam.

Tão bom que a mãe negra viu a sua pequena casa aumentar em valor: tinha uma hipoteca de 100.000 Dólares e agora a casa valia 300.000 Dólares. Fantástico. E o dia em que a mãe disse que já não podia pagar a dívida, foi contactada pelo funcionário do banco que disse: “Não se preocupe! Acendemos uma segunda hipoteca da casa, que entretanto aumentou de valor! Nós lhe emprestaremos mais dinheiro! Quando o valor da casa aumentar novamente, e vai aumentar: não vê o boom?, pode pagar a nova dívida. Sem problemas. Você está a ficar rica!”.

Obviamente, os preços dos imóveis começaram a entrar em colapso, entre 2006 e 2007. E a mãe ficou com dois filhos e duas hipotecas que garantiam a pequena casa dela por 300 mil Dólares quando agora valia 200 mil e em breve teria chegado aos 100 mil… Milhões de mães negras, trabalhadores mexicanos, desgraçados que todas as raças não tinham condições para pagar. As casas foram encerradas e colocadas no mercado: o resultado foi que os preços caíram ainda mais. Outros devedores abandonaram as suas casas, outros escolheram mataram-se dentro delas. Uma tragédia contada apenas em parte por alguns filmes crus.

Mas, como vimos, estes “activos” já não estavam nos bancos: tinham sido comprados por fundos. Fundos de reformas, por exemplo. Fundos que faliram. Então começaram a faltar as reformas para dezenas de milhões de idosos.

Mas fundos de pensão e grandes bancos são “grandes demais para fracassar”. O Estado tem que intervir. Trata-se de injectar triliões de Dólares no sistema. Curioso: o sistema da Finança Criativa não partilha os lucros, mas quando começam os problemas eis que logo lembra-se do Estado. O Estado “tem” que intervir, o Estado não pode deixar falir os Too Big To Fail, “demasiado grandes para fracassar”.

Este, em resumo, o estranho boom que ainda vemos acontecer: o boom do preço das acções, dos acionistas que se tornam bilionários por terem inventado empresas que não produzem nada (Amazon, Google, Facebook). Doutro lado da rua ainda há mães negras com dois filhos e 300 Dólares por semana, milhões de sem-abrigo e desempregados, trabalhadores precários que morrem de opiáceos. Porque os bilhões criados pelo Estado não foram até aí, não atravessaram a rua: ficaram só dum lado. Não alimentaram a economia real, mas apenas a enorme bolha dos bilionários.

O Estado impotente

Nesse ponto, o Estado poderia (e sobretudo deveria) ter forçado a Finança a adoptar medidas, uma espécie de código deontológico ou algo que proibisse de vender a outros produtos ínfimos como aqueles feitos assinar à mãe com 300 Dólares por semana. Distinguir, no bancos, a actividade de depósito daquela de especulação. Roosevelt tinha conseguido fazê-lo na década de 1930, com a lei Glass Steagall, superando uma resistência muitas vezes esmagadora da especulação apoiada pela doutrina do mercado.

Mas agora, o financiamento especulativo tornou-se grande demais e rico demais para estabelecer limites. E dado que nenhum homem realmente poderoso pagou pelos seus crimes porque:

  1. um banqueiro que endivida milhões de pessoas que não podem pagar é, no mínimo, um irresponsável
  2. em 2007-2008 foram deixados fechar os bancos menos importantes, prontamente adquiridos pelos tubarões

…estabeleceu-se um clima de irresponsabilidade entre os banqueiros, as oligarquias e até entre os mesmos cidadãos, incapazes de expressar um juízo moral sobre os governantes, dado que os cidadãos também vivem deitadas numa cama onde a moral é um fardo que alegremente deixaram para trás.

Se nos Estados Unidos isso fica evidente o estranho boom dos milhões que voltam a comprar carros a crédito sem poderem paga-los, na Europa é ainda pior: aqui é o Banco Central, nas mãos da Goldman Sachs, que impôs austeridade, salários baixos e desemprego “para pagar as dívidas públicas demasiado elevadas”. Todas as medidas só em benefício dos credores e em detrimento da própria economia real, porque os credores devem ser pagos, ora essa. E se os credores forem os mesmos que gerem o Banco Central e disponibilizam dinheiro aos Estados? Perfeito, é a quadratura do círculo, difícil imaginar uma situação melhor.

BBB!

Depois chega o BIS, Bank for International Settlements. Que não é um verdadeiro banco, ou seja: é um banco mas não é, é uma organização internacional responsável pela supervisão bancária. E já a definição de “supervisão bancária” indica que não é uma coisa séria. Mas lança o alarme: muitas obrigações das empresas privadas ocidentais têm a classificação BBB, ou seja, baixinho: antes da crise de 2008, na Europa havia apenas 34% de BBB, nos EUA 48%. Hoje, 60% são BBB nos dois lados do Atlântico.

Tantos BBB não devem ser surpreendentes, após 10 anos de recessão; seria surpreendente, pelo contrário, que as empresas privadas estivessem na zona de investimento seguro, como as finanças as querem. A economia real nunca saiu da tempestade. Mas, evidentemente, o BIS deve acreditar na irresponsável narrativa em vigor: aquela do “saímos da crise”, as bolsas de valores sobem, as bolhas incham… vivemos numa espécie de nirvana.

O ponto é que todos esses títulos BBB inflacionam as carteiras dos fundos de investimento e dos fundos de pensão. Mais uma vez. Diz o BIS:

O que diz o BIS? Diz: se as condições da economia global se deteriorarem, esses títulos BBB cairiam no nível “lixo”; e, nessa altura, os fundos e um bom número de operadores institucionais seriam obrigados a livrar-se daqueles títulos podres, inundando o mercado, activando a desastrosa cascata de colapso nos preços dos títulos (muita oferta e pouca demanda) e arrastando as empresas que não conseguem pagar. O que é exactamente o que aconteceu na crise dos subprimes.

É isso que vai acontecer nos próximos tempos? Não sabemos, mas pouco importa (por assim dizer). O que conta é observar os sinais deveras importantes: nunca saímos da crise, o “Capitalismo” actual é irresponsável, os Estados são incapazes de impor a construção de regras para o mundo das Finanças. E estas continuam nos mesmos erros. “Erros”? Bom, dado que afinal são os outros a pagarem (e “os outros” somos nós), é difícil falar de verdadeiros “erros”, não acham?

 

Ipse dixit.

Fontes: CBS News,

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