Armas: a Nova Guerra Fria

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Dmitry Orlov é um engenheiro russo-americano e um escritor sobre temas relacionados com o declínio económico, ecológico e político dos Estados Unidos, algo que ele define como “crise permanente”. Orlov acredita que o colapso será o inevitável resultado de enormes orçamentos militares, deficits do governo, um sistema político sem respostas e um declínio na produção de petróleo. Nascido em Leninegrado (agora São Petersburgo), Orlov mudou-se para os Estados Unidos com a idade de 12 anos, tornando-se engenheiro de Computação e especialista em Linguística Aplicada.

Orlov é uma cabezinha pensante e, para nossa sorte, escrevente também. Publica regularmente no blog Club Orlov que está disponível em inglês e francês e que aconselho seguir: vale a pena espreitar o que publica. A seguir excertos do seu último artigo que trata da retirada dos Estados Unidos do Tratado INF, aquele que regulava os mísseis de médio alcance.

Em 1º de Março de 2018, o mundo tinha ouvido falar dos novos sistemas de armas da Rússia baseados, dizia-se, em novos princípios da física. Ao falar à Assembleia Federal, Putin explicou como tinham chegado à conclusão: em 2002, os Estados Unidos tinham-se retirado do Tratado de Mísseis Anti-balísticos. Na altura, os russos haviam declarado que seriam forçados a reagir e, basicamente, a resposta dos americanos foi “façam o que quiser”.

E assim fizeram, desenvolveram armas que nenhum sistema anti-míssil pode parar. Destas novas armas russas, uma já está em serviço operacional (Kinzhal), outra está pronta para produção em massa (Avangard) e muitas estão a ser testadas (Poseidon, Burevestnik, Peresvet, Sarmat). As suas características, em resumo, são as seguintes:

• Kinzhal: um míssil de cruzeiro hipersónico aerotransportado, que voa até Mach 10 (12.348 km/h) e pode destruir alvos terrestres e marítimos.

• Avangard: um sistema para o transporte de uma carga útil hipersónica manobrável para mísseis balísticos intercontinentais, que voa a mais de Mach 20 (24.696 km/h). Tem um alcance de 1190 km e pode carregar uma carga nuclear de até 300 quilotons.

• Poseidon: um torpedo autónomo movido a energia nuclear, com alcance ilimitado, que pode chegar a uma profundidade de 900 metros e a uma velocidade de 180 km/h.

• Burevestnik: um míssil de cruzeiro movido a energia nuclear, que voa a cerca de 430 km/h e pode permanecer em voo durante 24 horas, com alcance de 9600 km.

• Peresvet: um complexo de laser móvel que pode cegar drones e satélites, colocando os sistemas de reconhecimento aéreo e espacial fora de ação.

• Sarmat: um novo míssil intercontinental pesado capaz de seguir trajetórias sub-orbitais arbitrárias (por exemplo, acima do Polo Sul) e atingir alvos aleatoriamente escolhidos em qualquer lugar do planeta. Como não segue uma trajetória balística previsível, é impossível intercetá-lo.

A primeira reação ocidental a esse anúncio foi um estranho silêncio. Alguns tentaram convencer qualquer um que quisesse dar crédito à notícia de que era apenas um bluff e animação por computador, e que esses sistemas de armas não existiam. (A animação da apresentação oficial era de baixa qualidade, provavelmente porque os militares russos, com a sua típica mentalidade, não podiam imaginar que um gráfico fluido e cativante, como aquele em que os americanos desperdiçam o seu dinheiro, tornaria a Rússia mais segura). Mas, no final, os novos sistemas de armas foram mostrados e a inteligência dos EUA confirmou a sua existência.

A seguir, Orlov acusa o Ocidente de ter preparado deliberadas provocações como resposta perante a apresentação das novas armas russas. Tese bastante esquisita, diga-se. Segundo Orlov, o abate do voo MH17 da Malaysian Airlines nos céus da Ucrânia ou o caso do suposto envenenamento com Novichok de Sergei Skripal e sua filha estão relacionado com os novos dispositivos de Moscovo. Vamos em frente.

Digam o que quiser sobre a resposta russa à saída dos EUA do tratado INF, mas ela foi adequada. Foi tornada necessária por dois factos bem conhecidos. Primeiro, sabe-se que os Estados Unidos lançaram bombas nucleares em outros Países (Hiroshima, Nagasaki). Fizeram isso não por legítima defesa, mas apenas para fazer a Rússia entender que qualquer resistência teria sido inútil (algo estúpido, se é que alguma vez houve necessidade). Em segundo lugar, sabe-se que os Estados Unidos haviam planeado, mais de uma vez, a destruição da URSS por meio de um ataque nuclear surpresa. Esses planos não puderam ser completados, primeiro pela falta de armas nucleares, depois pelo desenvolvimento de armas atómicas soviéticas, finalmente devido ao desdobramento dos ICBM [misseis balísticos intercontinentais, ndt] soviéticos.

A “Guerra nas Estrelas” de Ronald Reagan foi uma tentativa de desenvolver um sistema que teria que derrubar um número suficiente de ICBM soviéticos para possibilitar um primeiro ataque nuclear à União Soviética. O projecto tinha terminado quando Reagan e Gorbachev assinaram o Tratado de Mísseis Anti-balísticos em Dezembro de 1987. Mas depois, quando Bush Jr. retirou-se do Tratado ABM em 2002, a corrida tinha recomeçado. No ano passado, Putin anunciou a vitória da Rússia: os americanos agora podem estar absolutamente certos de que, se atacarem a Rússia, o resultado será a sua aniquilação completa e garantida, e os russos podem ter certeza de que os Estados Unidos nunca ousarão um ataque.

Mas isso foi apenas o prelúdio. A verdadeira vitória ocorreu em 2 de Fevereiro de 2019. Este dia será lembrado como o dia em que a Federação Russa derrotou definitivamente os Estados Unidos na batalha pela Eurásia, de Lisboa a Vladivostok e de Murmansk a Mumbai.

Então, o que os americanos queriam e o que eles conseguiam? Eles queriam renegociar o Tratado INF, revisar alguns termos e estendê-lo para que também incluísse a China. Ao anunciar que os Estados Unidos estavam a suspender o Tratado INF, Trump declarou: “Espero que possamos reunir todos num grande salão e fazer um novo tratado que seria muito melhor …” Para “todos” provavelmente Trump quis dizer: Estados Unidos, China e Rússia.

Por que a súbita necessidade de incluir a China? Porque a China tem todo um arsenal de armas de médio alcance, com um raio de 500 a 5500 km (aquelas banidas pelo Tratado INF) que ameaçam as bases militares americanas em toda a região: Coreia do Sul, Japão e Guam. O Tratado INF impediu que os Estados Unidos desenvolvessem contramedidas para serem implantadas nessas bases e contra a China.

Talvez tenha sido a tentativa de Trump, como verdadeiro magnata imobiliário de New York, colocar em prática a “arte de fazer negócios” entre as superpotências nucleares, ou talvez porque a arrogância imperial destruiu a mente de quase todos os representantes do governo dos Estados Unidos, mas o plano para a renegociação do Tratado INF é uma estupidez que vai além do imaginável:

1. Acusar a Rússia, sem qualquer prova, de violar o Tratado INF. Ignorar os esforços da Rússia para provar a falsidade da acusação.

2. Anunciar a retirada do Tratado INF.

3. Esperar um pouco e anunciar que o Tratado INF é importante e essencial. Perdoar, num tom de condescendência, a Rússia e declarar-se disponível para assinar um novo tratado, mas pedir que também inclua a China.

4. Esperar, enquanto a Rússia convence a China a participar.

5. Assinar o novo tratado no “grande e lindo salão” de Trump.

Então, como foi realmente? A Rússia anunciou imediatamente a sua intenção de sair do Tratado INF. Putin ordenou que o Ministro das Relações Exteriores, Lavrov, se abstenha de todas as negociações com os americanos sobre o assunto. A seguir ordenou que o Ministro da Defesa, Shoigu, construísse plataformas terrestres para os novos sistemas de mísseis aéreos e navais, sem aumentar o orçamento da Defesa. Putin acrescentou que esses novos sistemas baseados em terra serão implantados apenas em resposta à implantação de armas de médio alcance produzidas pelos Estados Unidos. Ah, e a China anunciou que não está interessada nessas negociações. Agora Trump pode ter o seu “grande e bonito salão” todo para si mesmo.

Como é que algo assim aconteceu? Por causa do Tratado INF, a Rússia teve um enorme buraco no seu arsenal durante bastante tempo, em particular na faixa dos 500-5500 quilómetros de alcance. Tinha os X-101/102s e mais tarde desenvolveu o míssil de cruzeiro Kalibr, mas tinha poucos aviões e poucos navios, suficientes para a defesa, mas não suficientes para garantir a destruição completa de toda a Nato. Quanto à segurança nacional da Rússia, dada a atitude cada vez mais guerreira dos Estados Unidos, a Nato precisava saber que, no caso de um conflito militar com a Rússia, teria sido completamente aniquilada e que nenhum sistema de defesa aérea poderia jamais ajudá-la para evitar tal destino.

Se você olhar para um mapa, descobrirá que possuir armas com um alcance de 500 a 5500 km resolve este problema de uma maneira excelente. Desenhe um círculo com um raio de 5500 km em torno do enclave russo de Kaliningrado; notará que isso inclui todos os Países da Nato, do Norte da África e do Oriente Médio. O Tratado INF não era necessariamente um bom negócio para a Rússia, mesmo quando tinha sido assinado pela primeira vez (lembre-se que, Gorbachev, o peticionário, era um traidor), mas tornou-se um negócio muito negativo na época em que a Nato começou a expandir-se para o leste. Mas a Rússia não poderia sair sem causar problemas e precisava de tempo para recuperar e rearmar-se.

Já em 2004, Putin anunciava que “a Rússia precisa dar um passo adiante para ter uma nova geração de armas e de tecnologia.” Na época, os americanos ignoraram, achando que a Rússia estava prestes a entrar em colapso a qualquer momento e que eles poderiam fazer uso do petróleo, do gás, do combustível nuclear russo e outras matérias-primas estrategicamente importantes para sempre, mesmo após a extinção dos próprios russos. Pensavam que, mesmo que a Rússia tentasse resistir, bastaria subornar algum traidor (como Gorbachev ou Yeltsin) e tudo ficaria bem.

Vamos avançar rapidamente de 15 anos e o que temos? A Rússia reconstruiu-se e rearmou-se. As suas indústrias exportadoras mantêm a balança comercial em superavit, mesmo sem as exportações de petróleo e gás. Actualmente, está a construir três importantes oleodutos de exportação: para a Alemanha, Turquia e China. Está a aumentar sua capacidade de produção nuclear e está na frente na indústria nuclear global. Os Estados Unidos não conseguiriam manter as luzes acesas sem as importações de combustível nuclear russo. Os Estados Unidos não têm novos sistemas de armas para combater o rearmamento da Rússia. Claro, falam sobre o desenvolvimento de alguns sistemas, mas tudo o que fizeram até agora são intermináveis buracos dispendiosos ​​e muitas apresentações em PowerPoint. Já não têm a cabeça para fazer o trabalho, ou tempo ou dinheiro.

Algumas das ordens de Putin acerca do retiro do Tratado INF referiam-se à construção de mísseis terrestres hipersónicos de médio alcance. Esta é uma nova reviravolta: não só será impossível interceptá-los, como também reduzirão o tempo de sobrevivência da Nato, se esta alguma vez atacar a Rússia, de minutos para segundos. O novo torpedo nuclear Poseidon também foi mencionado: mesmo que um ataque contra a Rússia fosse bem sucedido, seria uma vitória de Pirro, dado que as ondas de 30 metros de altura desencadeadas pelo tsunami provocado pela explosão varreria as duas costas dos Estados Unidos por centenas de quilómetros até o interior, transformando todo o País numa terra árida e radioactiva.

Não só os Estados Unidos perderam a sua capacidade de atacar, como já não estão a ameaçar. O seu principal meio de projecção global da força é a marinha, e o Poseidon transformou-a numa inútil pilha de sucata. Levaria apenas um punhado de Poseidon a seguir silenciosamente os vários grupos de batalha com os porta-aviões dos EUA para limpar o valor estratégico da marinha, independentemente de onde fosse implantada no mundo.

Sem o travão do Tratado INF, a Rússia poderá neutralizar completamente a já obsoleta e inútil Nato e poderá incorporar toda a Europa na sua esfera de segurança. Os políticos europeus são bastante maleáveis ​​e logo vão aprender o facto de que as boas relações com a Rússia e a China têm vantagens, enquanto qualquer forma de dependência dos Estados Unidos, com o passar do tempo, torna-se uma enorme responsabilidade. Muitos deles já entendem em qual direcção o vento sopra.

Não será uma decisão difícil para os líderes europeus. Por um lado, há a perspectiva de uma solução pacífica e próspera da Grande Eurásia, de Lisboa a Vladivostok e de Murmansk até Mumbai, segura sob o guarda-chuva nuclear da Rússia e conectada à China através da Rota da Seda.

Por outro lado, há uma obscura ex-colónia, perdida nos confins da América do Norte, embutida de uma fé inabalável da sua própria excepcionalidade, que se torna cada vez mais fraca, mais conflituosa e mais caótica, mas ainda perigosa, especialmente para ela mesma, e governado por um tolo pomposo que não entende a diferença entre um tratado de armas nucleares e um acordo imobiliário. Deve ser, silenciosa e pacificamente, relegada à periferia da civilização e depois às margens da história.

Trump deveria fechar toda a sua equipa governante no seu “grande e bonito salão” e evitar fazer algo ainda mais tragicamente estúpido, enquanto mentes astutas calmamente negociam os termos de uma honrosa capitulação. A única estratégia de saída aceitável para os Estados Unidos é liberar pacificamente e silenciosamente as bases que ocupa em todo o mundo, retirar-se no seu âmbito geográfico e não se intrometer nos assuntos da Grande Eurásia.

Sem dúvida optimista Orlov, convencido de que o colapso dos Estados Unidos será breve e indolor. Não será nada disso: os EUA continuarão a ocupar a cena mundial durante bastante tempo ainda. E pior: quando alguém habituado a usar as maneiras fortes fica encurralado, não tem problemas em recorrer aos meios extremos para segurar a sua supremacia.

Pouco importa se a Rússia tem em seu poder armas que parecem ter saído dum livro de ficção: os efeitos descritos por Orlov serão balançados pelos efeitos das armas americanas e dos seus aliados, provavelmente não tão avançadas tecnologicamente mas mesmo assim capazes de deixar um legado de destruição global. Os EUA têm um arsenal de 6.450 mísseis nucleares, aos quais temos que acrescentar os 215 do Reino Unido e os 200 de israel. Em todo o mundo há mais de 14.000 armas nucleares, boa parte das quais seriam utilizadas em caso de conflicto entre as superpotências. Não é o caso de fazer as contas acerca de quem seria o último a sobreviver porque a ideia de que alguém conseguiria sobreviver é já por si bastante fraca.

A saída do Tratado INF por parte dos EUA foi uma idiotice. Não admira, pois Trump e os seus conselheiros podem ser definidos de muitas formas mas não como um clube de génios. A resposta de Putin é lógica apenas num contexto de nova Guerra Fria, na qual de facto estamos hoje. A velha Guerra Fria, aquela “original”, conseguiu estabelecer uma nova ordem mundial após a Segunda Guerra Mundial, um equilíbrio que durou 50 anos. Mas foi um equilíbrio muito caro, com custos particularmente elevados e não apenas em termos económicos: houve inúmeras guerras por procuração ao redor do planeta, houve o sistemático sacrifício de direitos em nome do tal equilíbrio. Não terá chegado a altura de pensar em algo um pouco diferente?

 

Ipse dixit.

Fonte: Club Orlov

One Reply to “Armas: a Nova Guerra Fria”

  1. Eu tinha ficado tão feliz com esse Orlov…e tchhh…vem o Max com um balde de água fria na cabeça, e me faz voltar para a realidade! E a realidade é feia e escura. Pensar outra coisa!?
    1. Os povos arrancam governantes espúrios da governança e reinventam formas de administração tuteladas pelos povos. Sou voluntária para fazer o que for necessário.
    2. O deus bíblico existe, e leva os bons para o paraíso e os maus para o inferno. Não me ofereço porque não acredito nesta asneira.
    3. As pessoas descobrem que podem ser solidárias no infortúnio, e começam a ajudar-se mutuamente. Na falta de outra possibilidade, estou já fazendo isso.
    4. Os governantes mais sóbrios e as diplomacias inteligentes invertem o jogo do armamento e impõem sanções draconianas para quem rejeita o desarmamento total do planeta. Só em sonho!
    5. Acontece de uma vez por todas o que sempre é uma ameaça, mas nunca acontece: os humanos desaparecem, e o planeta tem uma chance melhor. É provável, mas demorará mais do que a minha paciência.
    6. Civilizações mais avançadas tentam se misturar com os humanos para melhorar a qualidade do DNA nosso. Se acontece, não está dando certo.
    7.As populações se convencem optar por um sistema de vida sem acumulação (as armas e as guerras fazem parte essencial do sistema de acumulação de poder e dinheiro). Outro sonho!
    9. Alguns mais inteligentes e competentemente lúcidos acabam com aquele 1%, que manipula tudo em favor da sua acumulação de dinheiro e poder, ou seja, o ódio é canalizado para o lugar onde ele deve estar. Doce ilusão!
    Chega! Os comentaristas e o Max devem ter alternativas mais inteligentes…

Obrigado por participar na discussão!

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