As regras do jogo, os árbitros e os adeptos

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Imaginem um jogo de futebol no qual todos os jogadores seguem as regras. Bonito, não é? É só vantagens: menos tempo perdido por causa das faltas, menos infortúnios, mais tempo de jogo efectivo. Agora imaginem o mesmo jogo no qual alguns atletas decidem não seguir as regras, fazer batota: por exemplo recorrer às faltas sistemáticas contra os adversários, jogar a bola com a mão. Isso já é muito menos bonito. É aqui que entra em cena o árbitro, alguém que controla o correcto andamento do jogo e, eventualmente, sanciona as irregularidades.

Imaginem o mesmo jogo de futebol sem árbitro: um caos. A figura do árbitro pode ser irritante, mas é necessária: representa uma garantia, para os jogadores, as equipas e para o público também. É por isso que cada jogo tem regras e alguém que as faz respeitar.

A Democracia? É exactamente a mesma coisa. Até temos o arbitro, com os seus cartões amarelos (uma multa) ou até vermelhos, com a prisão. A Democracia tem regras e nós pedimos ao árbitro (o Estado, que afinal somos sempre nós) que faça respeitar as regras democráticas. Muito simples.

Mas o que acontece quando o árbitro não faz o seu dever? Quando o árbitro é o primeiro a não respeitar as regras do jogo? E quando o mesmo público (sempre nós) nem repara que as regras já não são seguidas? Ou repara mas na maior parte dos casos não fala porque demasiado ocupado a torcer por uma das equipas em campo? Acontece que a Democracia deixa de existir,tornanod-se outra coisa. Esta “outra coisa” é a nossa actual situação.

O jogo na democrática Europa

Ficamos a saber que as negociações para a Brexit do Reino Unido não são conduzidas por Michel Barnier, o comissário delegado com esta função, mas directamente por Martin Selmayr, já descrito como o mais potente burocrata do mundo, braço destro de Vodka Juncker e cuja nomeação é irregular. Alguém apresentou queixa? Ninguém. Também porque ninguém sabe disso, dada a completa falta de interesse.

E assim, de irregularidade em irregularidade, eis Guy Verhofstadt, o “democrático” antigo Primeiro Ministro da Bélgica, que grita aos ingleses “Vocês vão pagar o preço!”; isso enquanto outro que tem a “democracia” no DNA, o alemão Elmar Brok, assobia: “O mercado europeu é 14 vezes maior que o britânico. As empresas vão sair. Todos aqueles que produzem para o mercado europeu vão deixar a Inglaterra. Vai ser feio para vocês. Mau para nós, mas pior para vocês!”.

Tudo muito bonito, segundo o melhor estilo desta “Europa dos povos”. Doutro lado, não tinha sido o mesmo chefe, Conhaque Juncker, a dizer “Punir os desertores!” após o referendo do Brexit? Os lacaios limitam-se a adequar-se. A punição deve ser exemplar: o Reino Unido deve sofrer, mesmo que isso signifique fazer outros sofrerem também. Uma maravilha. Tornar o Brexit desnecessariamente feroz e brutal, prejudicial, desencorajar os outros: este é o clima paroxístico que rege a nossa feliz eurocracia. Um paroxismo alimentado com ódio, mas também com medo: porque o “sistema” do Euro mostra o seu fracasso e tem medo de perder as suas posições e a sua razão de ser. E Maio, com as suas eleições, aproxima-se…

Pois, a Zona NEUro. Um sucesso. Nos vinte anos desde a criação da moeda única, a Itália cresceu apenas 9 pontos percentuais; até a Alemanha revisou as suas previsões de crescimento, de 1.8 para 1.0% este ano. Vice-versa, nos últimos vinte anos, o Reino Unido, excluído dos fantásticos benefícios do NEuro, cresceu 44 pontos percentuais. Ups…

O jogo na romântica França

Em França, o simpático Macron enviou dois promotores e três policiais à sede do diário Mediapart para obter a gravação original das conversas entre Benalla e o seu amigo Vincent Crase, alegando que a publicação violava a “vida privada de Benalla”, mas com o motivo real de encontrar as fontes que passaram as gravações para o jornal. Gravações simpáticas, diga-se.

Alexandre Benalla, o favorito de Macron, está a conversar com Vincent Crase, um ex-gendarme do Elysee. É o dia 26 de Julho, ambos estão sob investigação e não devem ser vistos. Em vez disso, falam: sobre o dinheiro que têm lá, na sede do partido. Note-se que Crase recebeu uma transferência de 240 mil Euros de um oligarca russo muçulmano, Iskander Makhmudov, para um serviço de proteção de ricos. Crase, apenas demitido, fundou uma empresa de segurança, a Mars, na qual figura em secreto também Benalla. Que, mentindo, negara tudo na audiência do Senado.

Benalla não está preocupado, pelo contrário, está contente pelo facto de ter duas comissões de inquérito contra ele.

Crase – Eles estão prestes a procurar em En Marche [grupo político francês]

Benalla – Outra vez?

Crase – Eu tenho as minhas coisas dentro. Tentaria ir hoje à noite, mas o problema é que há policiais à frente.

Benalla – Antes vamos tirar o dinheiro da caixa e sair da merda, ir para Marrocos ou Senegal para divertir-nos.

Crase – Isso faz-te rir?

Benalla – Ele [Macron] ri. Ele morre de riso. Nervosamente, mas isso o faz rir. Não o assusta demais. Se amanhã houver uma crise, o que queres que aconteça? Coisas loucas, o Chefe [Macron] envia-me uma mensagem ontem à noite e diz: “Tu os comes todos com só uma mordida, tu és mais forte do que eles, é por isso que eu te quis perto de mim”.

Crase – Então o Chefe nos apoia?

Benalla – Bom, faz mais do que nos apoiar, é como um louco.

Crase – Quem te apoia, concretamente?

Benalla – O Presidente, Madame [a esposa de Macron], Ismael [Ismael Emelien, outro braço direito de Macron, antigamente no grupo de Dominique Strauss-Kahn no FMI] que me assessora no media e na empresa.

Macron quer agora saber quem foi que transmitiu esta conversa. A resposta? Foi a polícia, talvez os militares. Alguém farto do clima de ilegalidade.

Entretanto, Alain Gibelin, comissário de polícia, altamente condecorado, trinta anos na polícia, ficou internado de urgência. Gibelin tinha o comando da polícia em Paris no dia 1 de Maio, quando Benalla (com Crase) espancou violentamente um estudante que estava a manifestar; Gibelin tinha testemunhado que Benalla “não tinha autorização da prefeitura” quando, com o capacete de um policial, espancou o estudante. Testemunho que mais tarde o comissário tentou mitigar, depois que, por ordem do Presidente, foi nomeado oficial e Cavaleiro da Ordem Nacional do Mérito. Depois disso, o novo cavaleiro ficou hospitalizado em tratamento intensivo por razões ignotas: fala-se duma tentativa de suicídio, mas então por qual razão o secretismo? A suspeita é que alguém tentou suicida-lo.

E o jogo na Venezuela?

Milhares e milhares de páginas internet gritam escandalizadas contra a ilegalidade de Guaidó ter-se proclamado Presidente do País. Justo assim, Juan Guaidó não é Presidente de nada. Mas por qual razão não ser honestos, nem que seja um pouco? Lembramos: Maduro perdeu as eleições de 6 de Dezembro de 2015. A oposição conseguiu 7.726.066 votos e 112 dos 167 deputados na Assembleia Nacional, contra 5.622.844 votos e 55 deputados do bloco madurista. Não eram eleições presidenciais mas sim parlamentares: Maduro ganhou as presidenciais, foi eleito e é portanto o único legítimo Presidente da Venezuela. Todavia…

Todavia a actual Assembleia Nacional nunca conseguiu funcionar. A razão? O grupo de Maduro utilizou a maioria que ainda tinha (e que teve até o início de Janeiro de 2016) para nomear todos os membros do Supremo Tribunal de Justiça (TSJ), em violação da Constituição que exige que os juízes do TSJ sejam nomeados pela Assembleia Nacional com uma maioria de dois terços. Desde então, todas as leis votadas pela Assembleia foram declaradas inconstitucionais pelo TSJ; o mesmo tribunal retirou progressivamente todos os poderes da Assembleia, do poder de decidir sobre o orçamento até os salários dos parlamentares. Finalmente, o TSJ recusou o referendo que a oposição tentou lançar para votar a demissão antecipada de Maduro, de acordo com a Constituição; e adiaram as eleições administrativas que deveriam ter sido realizadas em Dezembro de 2016.

Depois há o criminoso papel dos Estados Unidos, o maçon Guaidó e a tralha toda. Tudo verdadeiro, tudo sacrossanto. Mas evitamos santificar quem santo não é: de facto, a Corte Suprema assumiu todas as funções da Assembleia; de facto a Venezuela é governada por uma junta madurista disfarçada de ordem judicial. Porque os golpes já não são feitos com os militares, são feitos com os juízes. Alguém tem dúvida acerca disso?

 

Ipse dixit.

Fontes: Le Figaro, Vigi

4 Replies to “As regras do jogo, os árbitros e os adeptos”

  1. A democracia é uma ideia muito bonita…se a governança fosse no mínimo legalista, se os governantes não fossem corruptos, caso se importassem com o povo que dizem representar, sem obediências esdrúxulas a inferência exterior e dos poderosos em geral, se o povo fosse esclarecido e igualmente democrata. Num mundo onde tudo se compra e vende a democracia representativa é letra morta, um jogo inescrupuloso com cartas marcadas. Que fazer se as organizações de base já não funcionam, também compradas? (falo do que sei daqui). Milícias populares e organizadas de baixo conseguem se defender, mas virtualizou-se tudo. Então as pessoas combatem com palavras…não serve. Hoje sinceramente, minha opção é individual: solidarizar-se com as vítimas mais atingidas, não com palavras, mas de fato, abrindo mão de um pouco que tenha para ajudar o outro em todos os sentidos possíveis.

  2. A Democracia Representativa, tem uma organização em forma de pirâmide, e que tem a população como base. A população elege os seus representantes através de um esquema de votos, conferindo-lhes assim o poder de a representar. Dá-lhe portanto legitimidade através do voto. Os representantes eleitos, arrogam-se desta forma, no direito de fazer aquilo que entenderem no período da sua legislatura, porque se sentem legitimados para tal. É um cheque em branco.
    É um sistema viciado, que se deveria chamar de Governo Representativo e não Democracia Representativa.
    A Democracia Representativa, é uma pirâmide invertida, com a população no topo, e os escolhidos para levar a cabo a legislatura, na base. É o contrário daquilo que estamos habituados.

    Krowler

    1. Completamente de acordo, eu e um familiar já falamos sobre isso inúmeras vezes e a opinião dele é que deve ficar como está, acha que com alguma razão: exemplifica e bem que a maioria não tem capacidade para isso ex: brexit, ou meter no poder hitlers e outros que tais, nisso a história dá-lhe razão. Com a qual respondo a traição do syriza (Grécia), com o povo grego na situação que estava e altamente politizado, para que fizeram a pergunta se iam obedecer ao ultimato do tal de fmi-eurorupo( o povo disse não, estamos convosco venha o que vier), ao ceder ao ultimato do eurogrupo (só não foi de 8 dias) só ficou demonstrado que o interesse de uns não se coaduna com o de outros, mas isso a exemplos até demais.
      Segundo alguns, as pessoas são demasiado estúpidas(e de facto por vezes parecem) para tomar decisões importantes, depende do local grau de educação/instrução(elucidados/as) não nessáriamente instrução académica, daí também aparecem tolos com canudo(e com a cabeça feita: é assim porque tem de ser assim, foi assim que aprendi), é acima de tudo saber o que está em jogo os prós e contras.
      E aí sim pesar bem o que está em jogo e decidir, senão decidem por nós(bem ou mal).
      Na verdade acho que nem é questionado por duas razões: maioria não quer saber(vem de infância), o sistema actual não funciona bem com participação popular instruída e esclarecida.

      nuno

Obrigado por participar na discussão!

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