O assassinato do Prefeito de Gdansk

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…pelo que, após alguns dias super-atarefados, retomamos o discurso e vamos falar do assassinato do Prefeito de Gdansk, Pawel Adamowicz, morto por mão dum assassino solitário de 27 anos: aparentemente um criminoso comum, apenas saído de prisão e com uma história de tratamentos para esquizofrenia.

A coisa mais urgente é juntar-se ao luto do site sionista Moked:

As condolências dos judeus polacos
“Adamowicz, um amigo, um Mensch”

E são pêsames sinceros, pois o que aconteceu foi um assassinato, algo que nunca deveria acontecer. O judaísmo polaco escolheu confiar a sua mensagem de condolências a uma nota conjunta. Diz o rabino-chefe da Polónia, Michael Schudrich:

A morte do Prefeito Paweł Adamowicz é outro sinal duma trágica alerta: as diferenças na nossa sociedade, políticas ou ideológicas, podem, em casos extremos, levar a actos de violência física. Falamos para todos aqueles que têm funções políticas, sociais e religiosas na Polónia: não permitimos que as palavras geradas pelo ódio sejam livres. Temos de mudar a linguagem do debate público. Não podemos nos tornar uma sociedade que aceita a violência.

E já aqui tocam umas campainhas de alarme: proibir palavras? Mudar linguagem? O que está em jogo aqui? A referência é para uma controvérsia mediática na qual o horrível facto do sangue poder ser encaixado.

A empresa televisiva TVN SA, controlada pela norte-americana Discovery Inc. de David Zavlav (anteriormente um advogado duma prestigiada firma em New York, depois em carreira na emissora NBC e finalmente, segundo Vanity Fair, “Mogul de Hollywood e Titã de Wall Street”), começou a investigar indivíduos de extrema direita da Polónia, com operadores infiltrados em vários grupos. Um “furo” que incluiu alguns neonazistas que comemoravam Hitler numa floresta e que tem atraído a atenção da ABW (Agencja Bezpieczeństwa Wewnętrznego, os serviços secretos polacos). A ABW acusou o repórter, Wakowsky, de “propagar o fascismo” e foi levado a julgamento. O promotor disse que “é muito cedo” para culpar o operador, mas ao mesmo tempo ordenou que o promotor de Katowice investigasse “o verdadeiro papel da TVN no evento”. Na verdade, a ABW, e o Ministro do Interior, Joachim Brudzinski, acreditam, tendo como base o testemunho de um dos alegados neo-nazistas, que o documentário foi encenado pelos jornalistas como provocação anti-governamental.

O resultado foi uma intensa campanha mediática internacional nos EUA e em israel, que acusam o governo polaco de intimidar os jornalistas porque estes descobrem os nazistas aninhados na Polónia.

Em boa verdade, a emissora TVN do simpático Zavlav é muito activa em pintar o governo polaco como fascista e protetor de fascistas, ao mesmo tempo que enfatiza as iniciativas da oposição “democrática” contra o governo. Activa de tal forma que já tinha sido multada pelo garante dos media por causa dos tons extremos das reportagens. Multa que, diga-se, em seguida tinha sido anulada após os protestos do governo americano.

E aqui entra em cena o Embaixador norte-americano na Polónia, Georgette Mosbacher, figura extremamente interessante porque de diplomacia nada entende mas sabe tudo acerca de perfumes: de facto é uma empresária do ramo da cosmética (Revlon, Avon, La Prairie). Forte deste ímpar conhecimento, a simpática Georgette escreveu uma carta ao Primeiro Ministro polaco, com papel carimbado da Embaixada e com o nome do destinatário errado, exigindo que o governo local corrigisse o tratamento infligido a uma estação de televisão “independente de propriedade americana” (a simpática Georgette nem deve ter-se apercebido da involuntária ironia ao aproximar entre eles os termos “independente” e “americana”). Além disso, Georgette convocou alguns parlamentares polacos a portas fechadas, ensinando-lhes que não devem interferir com a liberdade dos media, sobretudo daqueles americanos e hebraicos (os tais “independentes”).

Os deputados do partido no poder têm respondido com as palavras da jurista Krystyna Pawlowicz: “Exijo [de Mosbacher] respeito ao Estado, à Nação polaca e às suas autoridades democraticamente eleitas”. E o semanário Sieci perguntou na capa: “Quem nos manda aqui, senhor Trump?”

O problema de fundo é que o relacionamento da Polónia com israel não é dos melhores. Em Fevereiro, o ministro israelita da educação, Naftali Bennett, disse:

O povo polaco teve um papel comprovado no assassinato de judeus durante o Holocausto

O que é exactamente o que os guias turísticos israelitas dizem aos visitantes de Auschwitz. A seguir, o Congresso dos EUA tem preparado um projecto de lei que indica a co-responsabilidade da Polónia na matança dos judeus quando o País estava sob a ocupação alemã. Já por si este facto é soberanamente ridículo, pois a Polónia antes da ocupação não tinha medidas contra a comunidade hebraica, estas foram introduzidas pelos nazistas: os ocupados são responsáveis pelas acções dos ocupantes? Mas é claro que estamos perante duma desculpa: o projecto de lei americano é um prelúdio para pedidos de compensação de Washington em nome das vítimas judias e possíveis sanções em caso de recusa do pagamento. Paralelamente, o governo polaco promulgou uma lei que torna punível como crime afirmar que “a Nação polaca” ou “o Estado polaco” participaram nos crimes nazistas durante a ocupação alemã.

A ideia sionista-americana é portanto punir um governo que teima em não dobrar-se perante a política do bloco ocidental, utilizando o eterno álibi do Holocausto e do antissemitismo como uma nova (“nova” por assim dizer) frente de ataque. Daí a necessidade de “mudar a linguagem do debate público”, de não permitir “que as palavras geradas pelo ódio sejam livres “, como prescreve o judaísmo polaco. O assassinato de Adamowicz oferece uma magnífica oportunidade para impor a censura e perseguir “o extremismo fascista, homofóbico, filo-Putin” na Europa e ao mesmo tempo actuar com uma repressão contra os partidos políticos e governos “soberanistas” (um debate ao rubro este em alguns Países do Velho Continente).

E não se trata de ameaças vazias. A Câmara dos EUA aprovou este mês, com carácter de urgência, uma lei (assinada tanto pelos Republicanos quanto pelo Democratas) que obriga o Presidente Trump a nomear “o enviado pelo anti-semitismo”: um verdadeiro embaixador que “aconselha e coordena os esforços do governo dos EUA para monitorizar e combater o anti-semitismo e o incitamento antissemita em Países estrangeiros”. A reter aqui dois pontos: o carácter de urgência (o nazismo está a transbordar!) e o facto dos EUA criar uma lei para legitimar a ingerência nas políticas de Países estrangeiros. E na verdade essa figura diplomática existia já, precisamente desde 2004: tinha sido aprovada pelo Congresso durante a Administração Obama após pedido do ministro da Diáspora de israel, Nathan Sharanski (aquele que também conseguiu impor uma nova definição de “anti-semitismo”, que agora inclui qualquer crítica contra israel). Actualmente o cargo encontrava-se vacante, mas a decisão do Congresso obriga Trump a designar alguém.

São maus momentos para o governo polaco e para todos os que criticam israel, todos sujeitos aos relatos enviados ao Embaixador pelo anti-semitismo. A campanha “temos que mudar a linguagem pública” já começou.

Uma consideração final sobre o assassino de Adamowicz, tal Stefan W.: apenas esfaqueado o Prefeito, Stefan pegou o microfone e não elogiou Hitler nem proclamou a sua fé nazista. Pelo contrário, gritou que tinha sido preso e torturado por causa do Platforma Obywatelska (PO): esta é a Plataforma Cívica, o principal partido político democrata-cristão da Polónia, cujo actual líder é Grzegorz Schetyna. O sentido destas afirmações precisa ser descoberto: qual “tortura”? Dado que Stefan W. não foi (ainda) morto, talvez possa explicar aos agentes polacos o segredo deste “assassino solitário”.

De certo há que o PO, o partido do Prefeito Adamowicz (e de Donald Tusk, presidente do Conselho Europeu), está em sérios apuros do ponto de vista eleitoral: o martírio de um político pró-Europa, pro-imigrantes e pró-LGBTQ é uma autêntica bênção para a Plataforma, especialmente quando alimenta a lenda do ressurgente nazismo polaco. Pensar mal é pecado, mas muitas vezes bate certo…

 

Ipse dixit.

Fontes: no texto

2 Replies to “O assassinato do Prefeito de Gdansk”

  1. Para as elites anglo sionistas não importa se fascismo, nazismo, democracia ou o que seja, se falar a verdade sobre Israel é anti semita e deve ser combatido e criminalizado a qualquer custo. Como se valem do “braço forte” das políticas e estrutura militar dos EUA, além de comprarem congressistas e juízes norte americanos, democratas e republicanos, é fácil serem poderosos ao ponto de influenciarem políticas, discursos e comportamentos na maior parte do ocidente. Mas o declínio do império yanquee implica também o declínio de israel, o isolamento de ambos e a reversibilidade de sua dominação pelo mundo.( o Brazil de hoje perderá o seu maior objeto de adoração, que lástima ! ) Custe o que custar e leve o tempo que levar eles cairão. O único império que tenho lembrança de ter durado mais de 2000 anos é no ocidente o da igreja católica. E até ela já não tem tantas ovelhas como dantes.

Obrigado por participar na discussão!

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