Poluição Parte II: os aviões

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Em cima da mesa do COP24 faltam itens: são estes alguns dos principais responsáveis pela poluição do ar. Como é possível? Não é esta a máxima reunião para combater as substâncias poluentes? Não, não é. Deveria ser, mas infelizmente não é. COP24 é uma reunião de ministros e especialistas que têm um objectivo: exercer pressões políticas e favorecer as empresas da energia “limpa”, tudo na óptica da cruzada contra o terrível carbono. A poluição, aquela verdadeira, é factor secundário.

Quer fique claro: temos que esperar que o COP24 consiga alcançar os seus objectivos porque pouco é melhor do que nada e todos precisamos que algo seja feito. Mas é importante entender que, na melhor das hipóteses, esta reunião conseguirá resultados amplamente insuficientes. Assuntos como poluição das águas, sonora, electromagnética ou agrícola não são os protagonistas da agenda: não acaso, todos os órgãos de informação realçam a luta contra o bicho-papão do Aquecimento Global. É curioso que, mesmo que o tema central seja o Global Warming, os resultados do COP24 serão sempre insuficientes.

A calculadora

O escritor Jack Miles, vencedor também dum Prémio Pulitzer) em 2015 usou uma simples calculadora para determinar a pegada de carbono que estava a criar enquanto participava numa viagem ao Marrocos. Com base nos cálculos, os voos de regresso dele e da sua esposa estavam a gerar 7.6 toneladas de dióxido de carbono. Para entender a importância desses dados, é suficiente fazer uma comparação: os dois costumam gerar uma pegada de carbono anual de cerca de 14.9 toneladas através das actividades normais como o uso de eletricidade, os transportes terrestres e a criação de lixo.

Em outras palavras, uma única viagem de avião estava  a aumentar a pegada de carbono de Miles para o ano em mais de 50%. Ou para utilizar as palavras do escritor:

Os danos que fizemos numa viagem internacional neutralizaram definitivamente todo o bem que fizemos durante o ano como recicladores, eco-consumidores e contribuintes financeiros de organizações ambientais.

Exageros? Nem por isso: simples realidade.

No passado Verão muitos jornais deram ampla cobertura à notícia divulgada por Flightradar24, o site civil de rastreamento de voos, segundo o qual 30 de Junho de 2018 foi o dia do ano com o tráfego aéreo mais intenso em todo o mundo. Em apenas um dia foram realizados 202.517 voos regulares, um a cada meio segundo. Segundo a IATA (Associação Internacional de Transportes Aéreos), naquele dia teoricamente viajaram por via aérea cerca de 30 milhões de pessoas. Haveria razões para festejar? Afinal é sinal de que as pessoas desejam mobilidade, liberdade e conhecimento. E a IATA, que representa cerca de 80% das companhias aéreas, está feliz: estima que em 2018 o total será de 4.36 mil milhões de passageiros, com uma média de 107.000 voos diários e um aumento de 75% em comparação com 10 anos atrás.

Entre uma garaffa de espumante e outra, a IATA poderia perguntar: mas qual é o custo disso tudo? Quanto poluem todos esses aviões?

É surpreendente que, apesar do clima de caça às bruxas imposto por diversas instituições governamentais no âmbito das emissões de veículos terrestres, sujeitos a restrições e regulamentações cada vez mais rigorosas e dispendiosas, nenhum meio de comunicação sublinhou ainda o aumento considerável das emissões nocivas resultantes deste tráfego aéreo. Em suma, temos os habituais dois pesos e duas medidas em nome da desenfreada demagogia pseudo-ambientalista.

É bom lembrar que os motores dos aviões a jacto são alimentados com querosene de aviação, muito semelhante ao gasóleo rodoviário. Mas o motor a jacto, pela sua natureza, não pode ser equipado com todos os dispositivos dos motores endotérmicos para limitar consideravelmente as emissões. Inútil procurar para catalisadores, filtros de partículas, redução catalítica seletiva, etc.:não há.

Então o resultado é assustador: o tráfego aéreo diário dum aeroporto como Fiumicino (Roma) ou Malpensa (Milano) emite gases igual à quantidade emitidas por 350 mil carros não catalisados. Feitas as contas, descobre-se que um único avião, em média, polui como cerca de 600 carros não catalisados. É bem sabido que a indústria automóvel global, nas últimas duas décadas, teve de investir enormes somas de dinheiro para reduzir as emissões e continua a fazê-lo, num processo de obrigações legislativas e regulamentares que parece sem fim. Mas, por outro lado, a indústria aérea obteve a permissão dos vários organismos internacionais para triplicação o tráfego até 2050, como foi afirmado pela SDC (Sustainable Development Commission) nomeada pelo governo britânico. Nos últimos 10-15 anos, as viagens aumentaram dramaticamente com a “descoberta” dos voos low cost e o resultado é que aquela gerada pelo transporte aéreo é a fonte de emissões de gases de efeito estufa com o maior crescimento.

Uma aeronave comercial gera mais de 600 milhões de toneladas de CO2 por ano e liberta óxidos de azoto (NOx) directamente na troposfera, isso é, na sede dos principais fenómenos meteorológicos. De acordo com os cálculos de Paul Wennberg do California Institute of Technology, o transporte aéreo contribui com 10% (mas outras fontes citam 13%) para o total do efeito estufa do CO2.

Duas contas: 1.000 kg de combustível dum avião produzem 3.160 kg de CO2. Um jacto Jumbo numa rota de cerca de 6 mil km (por exemplo, Milano – New York) consuma mais de 63 mil litros de querosene, uma média de 19 litros por milha náutica (1.8 km), cerca de 158 litros por passageiro. Por cada assento, são produzidos uma média de 4 mil quilos de dióxido de carbono. E nos voos de curta duração os resultados são ainda piores porque 1/3 do combustível é queimado durante a descolagem (nos voos longos a proporção cai para 1/8).

Obviamente aqui falamos apenas do dióxido de carbono, provavelmente o menos perigoso dos poluentes: depois há o monóxido de carbono (CO), as partículas finas e mais ainda…

Querosene? Sem impostos!

Podemos pensar: “Com aquilo que poluem, quem sabe quanto pagam de impostos sobre o querosene!”. Actualmente, atestar um depósito com gasóleo rodoviário (média de 40 litros) custa em Portugal 57.80 Euros. Destes:

  • 1.16 Euros (2%) o preço do biocombustível (o ambiente!)
  • 6.36 Euros (11%) são os custos da administração, distribuição e comercialização
  • 20.67 Euros (35.8%) é o preço do gasóleo
  • 29.61 Euros (51.2%) os impostos (IVA e Imposto sobre Produtos Petrolíferos)

Portanto, mais de metade do dinheiro vai para os impostos. E no caso do querosene para os aviões?

Surpresa: o querosene de aviação está livre de imposto. E não apenas aqui em Portugal mas em todo o mundo. Esta é uma regra imposta pela Organização Internacional da Aviação Civil (OACI), que é um órgão da ONU. A mesma ONU na qual opera outro órgão, o IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change) que trata do Aquecimento Global: possível que o IPCC nunca reparou na anomalia dos aviões que poluem como autênticos chaminés voadores? Não, não é possível. E, de facto, já em 1999 enfrentou o problema como o seu primeiro estudo sobre o sector aéreo. Enfrentou e solucionou: o relatório sugeriu “adoptar políticas de substituição com outros meios de transporte” e “desencorajar o uso ocasional de transporte aéreo com impostos ambientais ou taxas e comércio dos direitos de emissão”. Obviamente nada disso aconteceu, mas o IPCC está satisfeito: afinal já fez a sua parte.

Kyoto? O que é isso?

Segunda sensacional anomalia: as emissões dos transportes aéreos são excluídas do Protocolo de Kyoto (1997) sobre as reduções obrigatórias dos gases de efeito estufa. A razão é simples: a comunidade internacional não concordou sobre onde calcular as emissões dos voos internacionais. Pais de partida, País de chegada ou País que vendeu o querosene? Difícil escolher. Na dúvida, melhor deixar tudo como está. Aliás, nem voltamos a falar do assunto. E é mesmo isso que foi feito.

A mistura letal

Para acabar vamos observar melhor a questão dos consumos e dos poluentes emitidos pelos aviões. O consumo, enorme, fica expresso em kg / hora calculado na velocidade de cruzeiro de alguns dos aviões de passageiros mais comuns:

  • Boeing 737/800: 2.500 kg / h
  • Boeing 747/100: 11.800 kg / h
  • Boeing 787/9: 5.600 kg / h
  • Airbus A 300: 477 kg / h
  • Airbus A330 / 200: 5.700 kg / h
  • Airbus A 320: 2.430 kg / h

Como já lembrado, as fases de descolagem são aquelas que exigem o maior consumo de combustível. Em voos domésticos curtos os gastos disparam: num voo curto (600 quilómetros) um 747 Jumbo consome cerca de 14.750 litros de querosene numa hora, ou seja, mais de 4 litros por segundo. Os aviões militares consomem ainda mais: um caça F-15E Strike Eagle ou um F16 Falcon consomem cerca de 16.200 litros / hora.

Um cálculo aproximado, considerando uma duração média de 3 horas por cada voo e um consumo médio de 2.000 kg / h, sugerem que os kg de querosene gastos no passado dia 30 de Junho foram 405 milhões a cada hora: um total de 1 bilhão 215 milhões de kg de combustível, equivalente a 3 bilhões e 839.400.000 kg de CO2.

Os motores a jacto emitem todos os produtos típicos derivantes da queima dum carburante de origem petrolífera:

  • CO2 (dióxido de carbono)
  • CO (monóxido de carbono)
  • NOx (óxidos de azoto)
  • HC (hidrocarbonetos)
  • SOx (óxidos de enxofre )
  • PM (particulado).

Falta nada. A poluição do ar é assim particularmente insidiosa porque ocorre em baixa altitude (descolagem e pouso) e em alta altitude durante o voo.

Em estudos anteriores, assumia-se que as emissões poluentes eram mais prejudiciais durante a descolagem, já que esta é efectuada mais próxima do solo: de facto, na fase de descolagem é necessária a potência máxima dos motores, pelo que a emissão dos produtos da combustão é também máxima. No entanto, uma nova pesquisa estabeleceu que as emissões em quota são ainda mais críticas: na verdade, as emissões das aeronaves além dos 900 metros são as principais causas da poluição do ar.

Explicação? Os chamados pós finos (particulado) são os maiores responsáveis ​​pelos danos à saúde humana, especialmente se, uma vez inalados para os pulmões, entram na corrente sanguínea. Quando um avião voa em altas altitudes, acima das nuvens, os ventos podem espalhar os poluentes e depositá-los no solo mesmo em áreas distantes até 10.000 km do voo.

O enxofre, presente nos combustíveis de aviação, é talvez o maior agente-killer: mas com um custo reduzido, estimado em 5 cêntimos de Dólar por galão (14 cêntimos de Euro por 4.5 litros), a maior parte do enxofre poderia ser removido do querosene, assim como aconteceu para o gasóleo rodoviário.

A componente NOx (óxidos de azoto ou nitrogénio), relacionada com o processo de combustão em motores aeronáuticos, está essencialmente presente em baixas altitudes. NOx é uma abreviatura genérica que identifica colectivamente todos os óxidos de nitrogénio e as suas misturas. Para limitar as emissões de NOx é essencial que a combustão ocorra da maneira mais uniforme possível, evitando picos de temperatura. Por outro lado, no caso dos motores aeronáuticos, é formado o thermalNOx, porque estão presentes altas temperaturas e uma grande quantidade de oxigénio.

O trióxido e o pentóxido de nitrogénio podem reagir com a humidade atmosférica e produzir ácido nítrico (corrosivo e tóxico), presente nas chamadas chuvas ácidas que caem na superfície da Terra. O termo chuva ácida geralmente é referido ao processo de recaída na atmosfera de partículas, gás e ácido, causada essencialmente pelo óxidos de enxofre (SOx) e pelo ácido nítrico.

Mas de tudo isso no COP24 não se fala.

 

Ipse dixit.

Fontes: Sicurauto, Huffpost, Mais Impostos Menos Combustivel, Focus

3 Replies to “Poluição Parte II: os aviões”

  1. Dois pesos , duas medidas. Interessante saber da relevante influência dos aviões no cenário catastrófico e ao mesmo tempo assustador pelo assunto ser tão pouco comentado. É o dinheiro sempre falando mais.

    Max, tá ficando chato parabeniza-lo de novo pela pesquisa, nem vou falar mais nada. Como diz o manezinho ( habitante tipico da minha cidade ) : “Dás um banho”.

    Aqui, na terra brasilis, dentro do contexto apresentado, o presidente-fake Bozo, nomeou a de-putada Tereza Cristina (vulgo musa do veneno) como ministra da agricultura, que é ligada a UDR ( União Democrática Ruralista , braço politico dos barões do agronegócio ) e ainda paira no ar a ameaça de extinção do ministério do Meio Ambiente. O que pode dar errado ?

    https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2018/06/ruralistas-festejam-musa-do-veneno-em-festa-apos-aprovacao-de-relatorio-sobre-agrotoxicos.shtml

    Abraço.

  2. Ás vezes, Max, pouco é pior que nada, te contesto. Porque neste caso, como em tantos outros, o falseamento da verdade ocupa integralmente as cabecinhas humanas, sem dúvidas, dando os assuntos por resolvidos, e isso mantém dormindo aqueles dois neurônios, conhecidos por Tico e Teco que poderiam surpreender-se com alguma possível lacuna, com o falseamento de verdades, com omissões criminosas.
    Voltando ao post anterior sobre este assunto, que foi travado o meu “belo” comentário, por força de tanta barbaridade dita sobre poluição, lá vão as crianças da escolinha municipal mais próxima, transformadas em agentes de despoluição do ambiente, convictamente plantar árvores no meio do mato! Sim, porque vivo em plena floresta subtropical, e os caules de algumas árvores que guardam cor avermelhada, a presença de algumas parasitas nas árvores, atestam inequivocamente que respiramos o ar mais puro possível neste miserável planeta.
    Nesta mesma linha de pensamento, ecoam o que se fala no mundo e está escrito no livro texto de ecologia que decoram: “desflorestar a Amazônia é ruim porque a Amazônia é o pulmão do mundo”.
    Raios, o mundo não precisa de um pulmão específico, tudo que respira e/ou faz fotossíntese, garante as trocas de oxigênio/gás carbônico na natureza. Simplesmente desflorestar rompe com o ecossistema tropical do solo que sem o húmus e a umidade produzidos pela floresta, seca, e se desertifica. Tem sido assim, desde que o mundo é mundo, e o mundo subdesenvolvido não tem recursos para irrigação artificial do solo como em Israel e países que constroem o seu bem estar a custa dos que exploram, Portanto a partir da desertificação vem a miséria vegetal, animal e humana, como na África subsariana, no sertão nordestino do Brazil, e em outras tantas regiões.
    E sempre o dinheiro que comanda essas ações, como diz o comentarista meu vizinho. São os madeireiros nacionais e estrangeiros que desertificam a Amazônia porque é muito barata esta atividade. E é barata porque a rede fluvial transporta a madeira, quase sem custo, o trabalho humano no corte e condução é praticamente escravo, a regulamentação é precária, a vigilância comprada por pouco e a corrupção endêmica.
    Nada se discute, e o lema é : vamos fazer a nossa parte, ou seja, plantar uma arvorezinha. E pronto, missão cumprida.
    O ar está infestado de enxofre e monóxido de carbono, em função dos negócios dos transportes comerciais e de guerra, sem problema; a terra está infestada de enxofre e potássio,em função do agronegócio sem problema; a água está infestada de plástico e borracha, em função dos dejetos industriais, comerciais e domésticos e da produção intensiva de produtos não degradáveis, sem problema; as cidades do mundo periférico infestadas de lixo industrial e miséria, sem problema; as cidades do mundo desenvolvido infestadas de desenvolvimento e estupidez, também sem problema, porque os acordos internacionais sobre a contenção da poluição são bons e vão dar conta.

Obrigado por participar na discussão!

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