A propósito da dívida global

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No segundo trimestre de 2018, os níveis da dívida global atingiram um novo recorde: 260 triliões de Dólares. Ao mesmo tempo, o rácio da dívida global em relação ao PIB (Produto Interno Bruto,a “riqueza” produzida pelo planeta) ultrapassou pela primeira vez o limiar de 320%. Ou seja: se o PIB produz 100 Euros, a Dívida é 320.000 Euros. Mesmo ontem estava a ler a crítica de Ludwig von Mises (da escola económica austríaca) à economia do Comunismo: segundo o simpático sábio, o Comunismo ruiu porque não sabia fazer as contas. Mas não parece que o livre mercado esteja tão melhor.

Porque ao analisar os dados, descobre-se que 61% (160 triliões de Dólares) desta monstruosa dívida é representada pela dívida privada do sector não financeiro, enquanto apenas 23% é representado pela dívida pública. Estão a ver os anátemas contra os Estados que gastam sem vergonha? Isso mesmo: esqueçam.

Os EUA sozinhos emitiram mais de 30% da nova dívida pública, com o impulso substancial ao longo dos últimos dois anos sob a gestão Trump. O Departamento de Tesouro dos Estados Unidos é seguido de perto pelos homólogos japoneses e chineses e da dívida, a uma grande distância da média da Zona Neuro. E há aqui um detalhe interessante: os valores relatados pelos órgãos públicos chineses devem ser avaliados com cautela porque já no passado falsificaram as contas. Portanto, pode ser que nesta altura a dívida pública de Pequim seja na verdade a mais alta ou a segunda mais alta do planeta. E, se assim for, então a dívida global já não seria 320% do PIB mas algo mais.

Historicamente, a dívida de um País (tanto pública como privada) tende a crescer ao longo do tempo numa relação constante com o tamanho da economia. Economia maior? Divida maior. E, dado que os casos de bancarrota súbita (que cancelam grandes partes da dívida) são uma excepção, o tamanho da dívida total por si só não fornece informações sobre a sua sustentabilidade. Da mesma forma nem podemos deduzir que uma dívida total menor seja um sinal de estabilidade financeira: na verdade, um nível muito baixo ou até mesmo a ausência de dívida só pode revelar uma completa falta de confiança na economia dum País (pelo que ninguém investe). Foi isso o caso da Crise econômica da Argentina nos cinco anos seguintes ao dramático default de 2002.

Então a perspectiva mais correcta é avaliar o tamanho da dívida dum País em relação ao seu PIB. E aqui calha mesmo bem uma imagem, não é?

Deste ponto de vista, utilizando a medida adequada, a classifica global fica invertida: o Luxemburgo salta para o primeiro lugar com uma dívida total igual a 434% do PIB, composto quase exclusivamente de dívida corporativa. A alguma distância, encontramos o Japão com uma dívida total é de cerca de 373 % do PIB, marcado por um importante componente de dívida pública. Alta incidência de dívida (pública e privada) também no caso de Portugal, França, Espanha e Reino Unido. A Itália faz a sua aparição apenas em nono lugar, com uma relação da dívida total bem equilibrada: 265% do PIB, com empresa e famílias poucos endividadas que compensam o mais elevado nível da dívida pública.

Os paradoxos

Como afirmado, no nosso sistema uma baixa proporção da dívida total em relação ao PIB não pode ser considerada um sinal de saúde económica. Na parte inferior da classifica estão os casos paradoxais da Argentina e da Turquia. Embora ambos os Países tenham dívidas totais sob controle (a dívida privada é praticamente inexistente na Argentina, enquanto a dívida pública na Turquia é apenas 28% do PIB), os dois Países correm o risco de perder o acesso aos mercados por causa das crises das moedas e das balanças de pagamentos. Por um aparente paradoxo, as taxas de juros a curto prazo na Argentina (que tem um ambiente financeiro com baixo endividamento) estão na casa de 70%, enquanto as do Japão (que tem uma dívida monstruosa) estão firmemente negativa.

Portanto, para avaliar a dívida devem ser outros, não apenas o valor total: a percentagem de dívida detida por investidores estrangeiros em comparação com os nacionais, o facto de que a dívida seja emitida sob a lei nacional ou a lei estrangeira, o crescimento económico, a riqueza dos cidadãos, a eficiência das receitas fiscais, a soberania monetária e assim por diante. No caso do Japão, por exemplo, 90% da dívida está nas mãos de seu próprio banco central, dos seus fundos de pensão e dos bancos japoneses: perfeitamente equilibrado, é quase impossível imaginar uma crise de confiança que causaria dúvidas sobre a solvência do governo japonês.

Vice-versa, o facto de que os Países da Zona Neuro não possam gerir as suas políticas monetárias de forma independente é uma condição que faz com que o problema seja enormemente mais complexo. Além disso, a dívida é (em média) detida por mais de 70% pelos investidores estrangeiros, uma categoria que facilmente alimenta o pânico no caso de uma venda generalizada.

Mais problemas

As estatísticas oficiais não consideram o problema da “dívida implícita”, que é o peso ligado aos compromissos financeiros que os governos assumem em relação às reformas aos gastos com a saúde. Em geral, estas dívidas futuras não aparecem nos números das contas nacionais por razões bem fundamentadas, ligadas às dificuldades de estimar o aumento dos custos em horizontes de tempo tão distantes. Se essas dívidas implícitas fossem colocadas na conta, a dívida dos EUA, por exemplo, quintuplicaria, chegando a 100 triliões. Mas Espanha, Luxemburgo e Irlanda ficariam ainda piores, já que os seus passivos aumentariam em mais de 10 vezes, excedendo 1.000% do PIB no caso irlandês. A Itália, por outro lado, do ponto de vista da dívida implícita seria o país europeu mais virtuoso (lembrem-se de todos estes dados da próxima vez que ouvirem a Europa “preocupada com a situação italiana”, ok? O que preocupa Bruxelas é o governo Cinque Stelle-Lega que inverte o dogma da Santíssima Austeridade).

Voltando ao problema da dívida global, os tais 260 triliões de Dólares: afinal são sempre 320% da riqueza gerada. É muito?

Como vimos, este 320% pode significar muito ou pouco, porque o que conta não são apenas os números. Não é simples encontrar fontes de confiança e parciais acerca do assunto, mas é o que vou procurar nos próximos tempos.

Para já podemos fazer uma consideração bastante simples: se este 320% fosse a percentagem dum PIB duma economia que corre a toda a velocidade, então a resposta seria natural: não, não é preocupante. Mas esta não é a nossa situação: os últimos dados apontam para uma economia chinesa que abranda, a americana que abranda também (mas ainda o trend é positivo),a  Europeia que adivinhem? Abranda. Não é possível falar de crise porque por enquanto não há este cenário (e provavelmente não haverá nos próximos meses): mas é claro que economia global não atravessa dias de festa.

Mas há outros dados que têm de ser realçados: o PIB mundial cresceu em 2017 de 3.7 %. O que não é mal de todo. Todavia, a fascinante Sra. Christine Lagarde, líder do Fundo Monetário Internacional (FMI), assinala na conferência anual de Davos que 82% deste crescimento beneficiou 1% da população mundial. Se isso for verdade significa que mesmo nos Países ricos a maior parte da população teve uma vantagem insignificante ou irrisória em relação ao crescimento do PIB. Então uma pergunta: o tal 1% mais rico fica também com 82% da dívida ou esta é só para os escravos? Aos Leitores a resposta.

 

Ipse dixit.

Fontes: Voci dall’Estero, Sinistra in Rete

4 Replies to “A propósito da dívida global”

  1. Então uma pergunta: o tal 1% mais rico fica também com 82% da dívida ou esta é só para os escravos? Aos Leitores a resposta.

    Eu
    Tu
    Ele
    Nós
    Vós
    Eles

    N

    1. Pessimista! Eu acho que a elite vai fazer uma recolha de fundos para pagar a dívida e evitar assim criar problemas aos cidadãos. Tenho a certeza disso. Talvez na altura do Natal, quando todos são melhores!

  2. Importante demais para deixar passar o assunto porque o comentário foi bloqueado.
    E respondendo a tua pergunta: quem vai pagar a dívida serão sempre os pobres.
    E sabes porque? Vamos ao caso doméstico, aqui no Brazil, onde a dívida pública assume proporções gigantescas, e quem fala em auditoria, fala para as paredes.
    Mas é fácil entender porque. Neste país o melhor negócio é comprar títulos da dívida púbica, já que os juros são os melhores do mundo. Assim os industriais, latifundiários, ricos em geral, mantém suas propriedades e produções apenas para continuar donos dos meios de produção mas vem dedicando-se á mega especulação e transformando-nos numa república rentista da burguesia. Que república é esta em que o capitalista diz:” só abro emprego se tiver isenção total de impostos”? Sim, porque aqui, rico não paga imposto, evade divisas incessantemente para os paraísos fiscais e os governos não se preocupam com a sonegação…dos ricos. E também, consequentemente com a corrupção da dívida, que é infinitamente maior que a dos partidos políticos. Por sinal, esta moda está em moda para desacreditar a política e para desviar qualquer atenção para o foco real da corrupção brasileira.
    Os 80% dos pobres, aqueles que ganham até 3 salários mínimos mensais pagam 47% do total da arrecadação, e há coisa de 15 milhões de almas que atualmente voltaram para níveis abaixo da linha da pobreza, colocando o país no mapa da fome, tudo outra vez. Observe-se que ao falar de ricos, não falo de assalariados, mas tipo de 60 famílias ou dinastias e seus apaniguados no primeiro escalão da direção geral da governança.
    Vocês, europeus principalmente, me perguntarão: “mas como manter apaziguados esses milhões de escravos, aí no Brazil, pagando a conta?”
    Eu vos esclareço: é que aqui os escravos são mantidos dóceis por uma classe de capatazes ou capitães de mato, aqueles quase 20%, formados nas universidades e pelos meios de comunicação que, como juízes, advogados, comerciantes, policiais, militares, professores universitários,publicitários, funcionários públicos e concursados em geral são impropriamente chamados de classe média, e que detém algumas garantias e privilégios de ordem laboral, de segurança e financeira e que, em troca, asseguram o bom funcionamento da expropriação da vida da maioria, em prol da sustentação da boa vida de um pequeníssimo número de abençoados por deus que, inclusive são os proprietários das universidades e dos mídia.
    É por isso, inclusive, que quando por um desvio do destino, ou uma brincadeira de deus, surge uma governança que aproxima da maioria algumas regalias que sustentam a classe dos capatazes na sua posição de classe ou, como aconteceu no início da década de 60,e antes na década de 50, uma tênue ideia de reformismo no latifúndio, na administração financeira, laboral, política e educacional, então o mundo vem abaixo e os donos do Estado – porque aqui o Estado tem dono – dizem para deus parar com a brincadeira.

Obrigado por participar na discussão!

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