O último Papa: as profecias de Malaquias

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Não sei quantas vezes passei pela pequena Bosco Marengo, entre Genova e Alessandria. Pouco mais de duas mil almas no meio do nada, pois é nesta zona que começa a planície Padana que segue o rio Po até perto de Venezia. Lugar bonito mas algo esquisito: aqui, onde não há nada de especial, tiveram lugar nada menos que duas batalhas.

A primeira em 18 de Outubro de 1447, entre o exército francês e o ducado de Milano: vitória dos italianos, 1.500 mortos. A segunda em 14 de Junho de 1800, entre Napoleão e os austríacos: vitória francesa, 13.000 mortos entre os quais também um frango, preparado na taberna local para Napoleão (“Pollo alla Marengo”, com camarões de rio, ovos e cogumelos).

Entretanto, em 1504, nesta aldeia tinha também nascido um Papa, Pio V, nome artístico de Antonio Ghislieri. Pio V morreu no dia 1º de Maio de 1572, exactamente 440 anos antes da renúncia de Papa Bento XVI (2012). Em 1132, exactamente 440 anos antes do nascimento de Pio V, Malaquias de Armagh tinha sido ordenado Bispo e Primaz de Irlanda. Sim, adivinharam: é “aquele” Malaquias, o das profecias dos Papas.

Arnold de Wyon, da Ordem Benedetina, foi o monge que publicou as profecias de San Malaquias em 1595 como Prophetia S. Malachiae, Archiepiscopi, Summis Pontificibus, parte do livro Lignum vitae. O de Wyon antes tinha feito autenticar o manuscripto original por Don Alfonso Chacón, um académico espanhol Dominicano; Chacón era especialista em epigrafia antiga, paleografia medieval e manuscriptos, além de história do Papado.

Mas Arnold de Wyon fez mais: encomendou pinturas com temas religiosos. Em particular, uma foi repetida várias vezes e pode ser encontrada em Rimini, Perugia e Alessandria: no centro há San Bento, em volta Bispos, Cardeais, Papas. A curiosidade? Ao observar a pintura como um todo, nota-se que as várias figuras formam um rosto demoníaco. Hoje podemos admirar a pintura em Alessandria, mas Wyon tinha encomendado e feito instalar o original não muito longe daqui. Onde? Em Bosco Marengo, numa igreja agora desaparecida: San Pietro in Bergoglio.

“Bergoglio”? Como o Papa? Um conjunto de acasos, disso não há dúvidas: quem pode seriamente acreditar em certas coisas em 2018?

Doutro lado é quase certo que aquelas de S. Malaquias sejam um falso: já na altura da primeira publicação a Igreja combateu o manuscripto. A melhor hipótese é que o Cardeal Simoncelli tinha encomendado as profecias para serem usadas no Conclave de 1590, pois queria ser eleito Pontífice: é por esta razão que não há citações das profecias antes de 1595 (data da publicação de Wyon) e acerca disso os estudiosos estão concordes.

Estão? Estavam. Porque em 2015 foi revelada uma correspondência (Lorenzo Comensoli Antonini: Profezia e alchimia alla corte di Gregorio XIII e Sisto V: un carteggio dall’Accademia Carrara di Bergamo, in Aevum, vol. 89, nº 3, 2015, p. 737.) de um sobrinho do Cardeal Giovanni Gerolamo Albani, correspondência na qual se fala das profecias de Malaquias. Nas cartas, alguns dos parentes do Cardeal estão convencidos de que o lema De rore coeli anuncia a futura eleição do mesmo Gerolamo Albani. Isso é: tratam as profecias não como forjadas mas como autênticas. A data? 1587.

Parvoíces. A melhor prova da falsidade das profecias está contida nas profecias mesmas: os Papas antes de 1590 são descritos de forma detalhada, após 1590 as descrições tornam-se vagas e não indicam absolutamente nada em concreto. Vamos ver com alguns exemplos a lista dos últimos dois séculos:

100 De balneis Etruriae (Dos banhos da Etrúria): Gregório XVI (1831-1846)

Bartolomeo Alberto Cappellari era general da Ordem dos Camaldoleses, organização natural da Etrúria, numa zona cujo nome romano era Balnea por causa dos muitos banhos termais.

101 Crux de cruce (Cruz da cruz): Pio IX (1846-1878)

Durante o pontificado de Giovanni Maria Mastai Ferretti, o mais longo da história, Roma tornou-se a capital da Itália unida. O emblema da dinastia dos Savoia é uma cruz branca que, a partir de 1872, sobrepõe-se à cruz da Igreja.

102 Lumen de coelo (Luz do Céu): Leão XIII (1878-1903)

O emblema de Gioacchino Pecci era uma estrela cometa com o céu como fundo.

103 Ignis ardens (Fogo ardente): Pio X (1903-1914)

Giuseppe Sarto foi proclamado santo e durante o seu pontificado teve início a Primeira Guerra Mundial. Mas o lema completo para este Papa é: Ignis ardens funatus de littore veniet, “Fogo ardente ancorado que vem do litoral”. Pio X tinha no seu escudo uma estrela (ignis ardens), uma âncora (funatus) e tinha sido Bispo de Veneza (tendo nascido também perto do litoral véneto).

104 Religio despopulada (Religião despovoada): Bento XV (1914-1922)

O pontificado foi marcado pelos acontecimentos da Grande Guerra e pela epidemia de gripe espanhola: um total entre 50 e 100 milhões de mortos. Bastante “despovoação”.

105 Intrépidos Fides (Fé intrépida): Pio XI (1922-1939)

O Papa lançou corajosos anátemas contra o Comunismo e, especialmente, contra o Fascismo e o Nazismo (Mit Brennender Sorge, 14 de Março de 1937; Divini Redemptoris,  19 de Março de 1937).

106 Pastor angelicus (Pastor angélico): Pio XII (1939-1958)

Eugenio Pacelli foi pastor da igreja durante a Segunda Guerra Mundial. Pastor angelicus é ainda hoje o sobrenome “oficial” de Pio XII e o título do filme realizado em 1942 dedicado, obviamente, ao Papa.

107 Pastor et nauta (Pastor e marinheiro): João XXIII (1958-1963)

Angelo Roncalli era de origem humilde (pastor) e foi patriarca de Venezia (nauta), cujo símbolo faz parte do emblema de João XXIII.

108 Flos florum (Flor de flores): Paulo VI (1963-1978)

No simbolismo floreal, o flos florum é o lírio. No brasão de Giovanbattista Montini aparecem três lírios.

109 De medietate lunae (A metade/mediação da Lua): João Paulo I (1978)

A interpretação proposta com frequência é aquela segundo a qual Albino Luciani foi Papa por “o tempo de uma lua”, com referência ao mês lunar de 29 dias. Isso todavia não faz muito sentido porque o lema é medietate que neste caso significa “metade”,ou seja: 14 dias e meio. Diverso o discurso se considerarmos que medietate significa também “mediação” (natureza intermédia): o lema portanto transforma-se em “A mediação da Lua”: o pontificado de transição que durou o tempo de uma Lua.

110 De labore solis (O trabalho do Sol): João Paulo II (1978 – 2005)

Karol Wojtyla foi o Papa que mais viajou, dando voltas ao mundo tal como faz o Sol. Mas há um detalhe incomum: João Paulo II nasceu e morreu em dias de eclipses.

111 De gloria olivae (A glória da Azeitona): Bento XVI (2005 – 2013)

Joseph Ratzinger foi o primeiro Papa pertencente à Ordem dos Olivetanos, também conhecidos como Beneditinos.

112 Petrus romanus (Pedro romano): Francisco I ? (2013 – …)

A este último Papa, que fecha a profecia, Malaquias dedicou alguns versos latinos:

Em persecutione extrema sacrae Romanae ecclesiae sedebit Petrus Romanus, aqui pascet oves em multis tribulationibus; quibi transactis, Civitas sepsia collis diruetur e Judex tremendus judicabit populum suum Amém.

A tradução é a seguinte: “Durante a perseguição final da Santa Igreja Romana vai sentar-se Pedro, o Romano, que alimentará o seu rebanho no meio de muitas tribulações; quando estas estiverem concluídas, a cidade das sete colinas será destruída e o juiz terrível julgará o seu povo, assim seja.”

Nada de simpático à primeira vista. Mas é mesmo assim? Com Bergoglio chega o fim do mundo?

Temos que observar uns pormenores. Na verdade as profecias de Malaquias terminam com o lema Em persecutione extrema sacrae Romanae…, não com o Papa número 112, que não existe. De facto, o último Papa da lista é Bento XVI, De gloria olivae, e não há nada aqui que possa indicar Francisco I. Malaquias não considera Bergoglio como um verdadeiro Papa? Nem estaria tão errado…

Mas então quem é Petrus romanus? Não é explicitamente um Papa, é “alguém” que “vai sentar-se” e que é indicado com um nome que é um tabu do ponto de vista papal: nunca houve um Pedro II após San Pedro porque seria um nome carregado de demasiada responsabilidade até para um Pontífice.

Acerca do fim do mundo: aos olhos dum monge da Idade Média, o fim da Igreja de Roma bem poderia ser interpretado como o final da História. E com a abdicação de Bento XVI, Papa nº 111 na lista de Malaquias, e a chegada de Bergoglio o futuro da Igreja parece bem pouco risonho. Na verdade, as profecias colocam este fim na altura da “perseguição final da Santa Igreja Romana”, sem uma datação precisa: não sabemos quanto tempo pode passar entre Bento XVI, o último Papa, e “Pedro romano”.

Pouco mal: afinal vimos que tudo não passa dum monte de disparates. E o mesmo pode ser dito do livro escrito por um jesuíta francês, Monsenhor René Thibaut, publicado em 1951 com imprimatur eclesiástico (portanto com explícita autorização concedida por um Bispo e pelo censor da Diocese): Le Mystériuese Prophetie des Papes. Thibaut utiliza as profecias de Malaquias para conduzir uma série de cálculos e indica no ano de 2012 o fim do ciclo pontifício. Como é que chega até esta conclusão?

Thibaut calcula tendo como base o reinado médio dum Papa: onze anos. Quarenta vezes (isso é: 40 Papas) o tempo de onze anos perfaz quatrocentos e quarenta anos (40 x 11 = 440). Como vimos, tinham decorrido 440 anos entre a ordenação de Malaquias e a morte de Pio V, o Papa de Bosco Marengo. Juntando outros 440 anos (outra vez: 40 x 11 = 440, de facto houve outros 40 Papas desde então) chega-se até 2012, data em que Bento XVI comunica a vontade de abdicar.

Thibaut teve sorte na sua “profecia”? Sem dúvida, pois foi outro acaso: se João Paulo I tivesse vivido uma vida normal, a média de 11 anos não teria funcionado. No entanto, João Paulo I reinou 33 dias e Thibaut acertou baseando-se nas profecias de Malaquias e identificando o papado de Pio V como eixo central de dois períodos de 440 anos. E mais uma vez: as contas funcionam se Francisco I não for considerado Papa. Um acaso, como sempre.

Mas aqui, com Pio V e o simpático Bergoglio, voltámos ao ponto de partida: Bosco Marengo, a aldeia no meio do nada. A propósito: lembram-se da pintura comissionada por Arnold de Wyon? Um conjunto de prelados que formam o rosto do Demónio: não é esquisito? Pois é. E ainda mais esquisito é que esta obra, cujo título é “O Triunfo da Ordem Benedetina”, esteja presente numa versão maior na Basílica de S. Pedro em Perugia: a tela, de quase 90 metros quadrados, ocupa uma inteira parede do templo e, depois de “Il Paradiso” de Tintoretto, é talvez a maior tela do mundo. A ideia é que de Wyon quisesse deixar uma mensagem, mas para fazer isso precisava dum pintor disposto a correr o risco de retratar a cara do Diabo em várias igrejas, disfarçado entre hábitos sagrados: era precisa coragem. Ou isso ou alguma protecção.

O pintor era Antonio Vassilacchi, de origem grega mas que ainda jovem tinha sido levado para Venezia. Logo Antonio deu nas vistas por causa das suas habilidades: entrou na oficina do Veronese e com este colaborou numa série de frescos no palácio do Bispo em Treviso, depois na igreja de Sant’Agata em Pádua e em várias igrejas em Veneza. Teve a sua grande oportunidade quando um incêndio, em Dezembro de 1577, destruiu o Palazzo Ducale em Veneza: Vassilacchi foi um dos pintores responsáveis pela execução dos novos frescos. A sua fama começou a espalhar-se e, com o filho Stefano, trabalhou em algumas obras realizadas para a coroação de Balduíno das Flandres. Portanto, entrou em contacto com as famílias mais ricas e potentes da cidade. Nobreza negra, Venezia, Genova, Elisabete II, NWO… não diz nada tudo isso?

 

Ipse dixit.

5 Replies to “O último Papa: as profecias de Malaquias”

  1. In persecutione extrema + S.R.E. sedebit Petrus Romanus Temos aqui 2 ideias na mesma frase ,
    1.º Durante a perseguição final ( da ou na ? ) 2.º Santa Igreja Romana vai sentar-se, o Romano.
    Parece-me que a palavra ” final” se aplica á perseguição e não á igreja . Ou seja poderá ser a perseguição final movida contra a igreja, mas nada diz implicitamente que será o fim da igreja.
    Diz também que será destruída a cidade das sete colinas mas não diz absolutamente nada sobre o “fim do mundo” ( poderemos estar a falar de um terramoto e não necessariamente Roma, Lisboa também é conhecida como a cidade das sete colinas ) diz que o juiz terrível julgara o seu povo mas nada diz que será o fim do mundo ou da igreja nem sequer do “seu povo”
    O facto de as profecias estarem certas e chegarem até Pedro Romano nada diz que não haverá Papas depois desse pontífice e mais ainda, Pedro, é um nome que inspira á renovação ao princípio de uma nova igreja e não ao fim, é possível existir uma grande transformação na Igreja, como um concilio, que altere a forma de ser e de atuar da igreja e adote uma nova forma de eleição do Papa e isso explicaria porque razão a profecia chega apenas a Pedro o romano, além disso esse Papa poderá muito bem ser Francisco, tal como João Paulo I apenas se compreendeu o seu nome profético depois da sua morte. Quanto a suposta imagem demoníaca conseguida no quadro, é menos provável que seja obra do acaso e não é segredo para ninguém que os maiores inimigos da Igreja são os que ocupam os cargos mais elevados e que mais poder destrutivo podem conseguir, a começar pelo seu exemplo.
    Esta não é uma visão profética mas é realista … obviamente a visão pessimista é muito mais atrativa, o animal humano gosta de se vitimizar de sofrer por antecipação e de ser arauto de maus agoiros, assim sendo… arrependei-vos e confessai os vossos pecados :)))

    1. CRUEL ! Sem dúvida caro anonimo , tanto que no ido ano de Senhor de 1991 do século passado Frei Manuel João Vieira e um grupo de irmãos tiveram uma epifania que reuniram neste trabalho memorável e que descreve ao pormenor “Pedro Romano” e mais uns quantos gajos que eu conheço e que também se enquadram nesta premunição. Ouça com atenção até ao fim. Nota : Não é recomendável a pessoas sensíveis.
      https://youtu.be/EcMxQnPlueQ

        1. :))) Grande Nuno ajudas-te a demonstrar que o Heavy Metal não é musica de satânicos ou degenerados mas é apenas um estilo musical.

Obrigado por participar na discussão!

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