A origem da esquizofrenia

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De acordo com Albert Camus (escritor, filósofo, jornalista e ensaísta francês, bastante azarado diga-se) a questão principal que a filosofia deve pôr-se é sobre a própria vida: vale a pena viver?

Eu tenho a minha resposta: sim, vale a pena. Mas do ponto da filosofia não é tão simples: a pergunta é fundamental, tudo o resto é secundário, qualquer outra questão vem depois em termos de importância. E a resposta, sempre do ponto de vista filosófico, pode não ser tão clara assim.

O método científico

A revolução do pensamento moderno começa de longe, mas fixa as suas prioridades paralelamente à revolução científica do século XVIII e do século XIX. É a época do Iluminismo que, seguido pela revolução industrial, representa o ponto de viragem que deu origem ao nosso mundo. A sociedade actual ainda é filha daquelas ideias. É a partir daquela época que o processo científico torna-se “oficial”.

A ciência, tal como hoje a conhecemos, trata apenas de factos experimentais, isto é, aqueles factos que podem ser observados, medidos e eventualmente reproduzidos. Tudo aquilo que não pode ser observado, medido e reproduzido não é científico, então a ciência não trata dele. De facto: “não existe”, pois a ciência, na maioria dos casos, até recusa admitir que tais factos possam ter lugar.

Curta parêntese: na verdade, a ciência mente de forma descarada, pois adora tratar de coisas que não podem ser observadas, medidas ou reproduzidas. Alguém já viu um Big Bang, o alegado começo do Universo? Alguém viu a inflação cósmica? Alguém viu um buraco negro? E que dizer da Mecânica Quântica, cujo principio de indeterminação arrasa as fundamentas científicas? Na verdade, a ciência adora e apoia teorias que não podem ser observadas, medidas ou reproduzidas desde que sejam filhas do establishment científico. Parêntese fechada.

A ciência? Funciona.

A ciência empírica tem sucesso por qual razão? Por uma razão muito simples: fornece resultados concretos. Observando, medindo, e reproduzindo os fenómenos, a ciência moderna cria locomotivas, carros, arranha-céus em ferro e vidro, máquinas de lavar roupa e ar-condicionado.
A matéria é domada, seccionada e remontada para criar novos objectos que respondem aos nossos comandos. Se hoje podemos escrever ao computador, isso deve-se unicamente à ciência empírica. E não há forma de negar isso.

A ciência empírica, portanto, trabalha concretamente, daí a sua vitória indiscutível.
Há apenas um assunto com o qual tal ciência parece encontrar alguma dificuldade: o ser humano. Num universo em que tudo pode ser medido, no qual o comportamento de qualquer tipo de matéria pode ser previsto uma vez termos dados suficientes, o ser humano continua a ser um factor desconhecido.

Assim, em pleno positivismo científico, surgiram duas ciências específicas que tentaram preencher essa lacuna: a biologia e a psicologia.

Biologia & Psicologia

A biologia, mais tarde também influenciada pelas teorias darwinianas, começou a estudar o homo sapiens como um todo, como um ser vivo. De acordo com este paradigma, o ser humano segue o mesmo padrão de todas as coisas vivas: nasce, come, cresce, procura replicar-se, morre.
As mentes científicas foram ainda mais longe: aquelas que os seres humanos chamam de emoções ou sentimentos são simples processos hormonais que guiam o corpo em direção às suas tarefas; o que se chama “amor”, por exemplo, não seria nada mais que uma resposta perante estímulos hormonais em que um corpo é atraído pelo sexo oposto, para que a reprodução possa ocorrer.

Processos hormonais, portanto, nada mais. A complexidade do ser humano, o que o tornava aparentemente diferente dos outros fenómenos observáveis ​​e mensuráveis, dependia apenas de uma maior quantidade de factores, de dados, a serem analisados. Uma vez obtido o conhecimento de todos esses factores, até o homem pode ser estudado e os seus comportamentos “previstos”.

Este último foi, em síntese, o pensamento da psicanálise, que viu na própria alma um outro objecto de estudo, tal como outros fenómenos físicos: um objecto que, simplesmente, apresentava mais dificuldades. O homem como uma máquina, só um pouco mais complexa.

Horóscopos?

Cada época tem a sua narrativa, a sua explicação sobre a realidade, um conhecimento oficial aceite que é transmitido e ensinado; e este conhecimento oficial nem sempre coincide com o sentimento popular difundido, mas mesmo assim é capaz de influenciar e direcionar os pensamentos de muitos.

A nossa narrativa, herdeira do positivismo do século XIX, é ensinada nas escolas e nas universidades, é transmitidas por operadores acreditados em programas de divulgação como o Discovery Channel, ou através das páginas de revistas, nos discursos dos especialistas: tudo baseado em alguns princípios geralmente aceites como “factos incontestáveis”.

O primeiro desses factos incontestáveis ​​é, de maneira bastante redundante, a plena confiança no método científico: só é possível discutir factos em presença de fenómenos mensuráveis. Desta forma, pode ser estabelecida uma lei científica quando um facto observável também for reproduzível.

Observável e reproduzível: o que está além dessas circunstâncias não pode ser discutido (cientificamente falando).

Este ponto simples mas fundamental, começa portanto a excluir da nossa narrativa assuntos sobre conceitos que têm caracterizado a procura humana durante milénios: o que é a alma, o que é o Bem, qual o sentido da existência… tudo isso deixa de ter significado, pois são assuntos que não podem ser observados ou medidos. Não que esses argumentos sejam tabus: simplesmente, deixam de pertencer ao mundo científico para serem tratados em outros ambientes (tal como a  religião). São assuntos acerca dos quais não há certezas, sobre os quais podemos discutir à vontade tendo em conta que uma opinião é equivalente a outra.

É tudo um mero acaso…

Voltemos aos “factos” aceites como certezas na nossa narrativa moderna porque aí surge um padrão de realidade muito específica, que por sua vez traz em si uma resposta muito detalhada para os problemas “metafísicos” como “Vale a pena viver?”.

Seguindo a teoria da evolução darwiniana, os seres humanos são o resultado de bilhões de mutações aleatórias que ocorreram ao longo de milhões de anos, desde os microrganismos primitivos através dos tempos para assumir as formas que encontramos hoje .Milhões de anos atrás, por exemplo, tivemos um ancestral comum com os grandes macacos que ainda povoam as florestas: um dos nossos antepassados ​​levantou-se sobre as duas pernas e desenvolveu uma linguagem. Aconteceu, mas podia não ter acontecido, tudo é fruto da mera casualidade. A biologia explica que todos os seres vivos seguem o que é exigido pela necessidade de sobreviver e reproduzir-se. Sobrevivência e reprodução: estes imperativos são até mesmo nossos, como de todos os seres viventes. Amor, amizade, bondade, criatividade? Não são nada, apenas ferramentas com as quais a Natureza garantiu a sobrevivência e a reprodução da nossa espécie.

…mais algumas hormonas.

Mesmo o tão celebrado amor, nada mais é do que o resultado de algum impulsos hormonais, estímulos que impulsionam algumas áreas do cérebro, ferramentas para garantir a continuidade da espécie. A tristeza também depende em grande parte do equilíbrio ou do desequilíbrio de certos neurotransmissores: a serotonina, a dopamina, a oxitocina. Por isso a medicina intervém nestas “desordem” com pílulas que actuam diretamente sobre estas hormonas. Finalmente, no que respeita a realidade para além da morte, a narrativa oficial nada diz: pelo que sabemos, com os dados que temos disponíveis, com a morte cessam as funções dos órgãos, o cérebro desliga-se e, consequentemente, há o nada absoluto.

Curiosamente (mas nem tanto), o facto de que esta seja a versão aceite não implica que seja também aquela popularmente mais difundida. Um estudante de Biologia, quando interrogado, bem pode explicar como a dopamina influencia o humor de um ser humano; mas imediatamente a seguir pode enviar uma mensagem para a garota da qual está apaixonado com um smile e um coração. E entre os milhões de espectadores que seguem o canal do National Geographic, quantos na manhã seguinte irão consultar o horóscopo como uma das primeiras acções do dia?

A barata feliz

Como explicar isso? Duma forma bastante simples. A visão oficial da realidade transmitida como “científica”, se aceite plenamente, levaria o ser humano para o niilismo ou até o suicídio. O panorama oferecido é particularmente deprimente: um homem nascido por acaso, que desceu das árvores por acaso, que desenvolveu a inteligência por acaso; um ser cujos sentimentos nada mais são do que reações químicas, estímulos que chegam ao cérebro programado para desempenhar certas funções, em benefício da espécie; não há espaço para conceitos como ética ou moral; um ser cujo fim é só sobreviver e reproduzir-se para depois dissolver-se no nada. Praticamente: a ida duma barata.

É aqui que a ciência fornece a resposta à pergunta principal: vale a pena viver? Seguindo o que ensinam as leis científicas, a resposta pode ser só uma: não, não vale a pena. Somos apenas macaquinhos bem treinados, que obedecem à ordem pré-estabelecidas, sem valores que não sejam a sobrevivência e a perpetuação da espécie. Pensando bem, a barata é muito mais feliz, que pelo menos nem sabe de ser viva e nem passa o tempo a questionar-se com perguntas complicadas.

No mundo científico, os conceitos de Bem e Mal nem são separados: não existem. Então o que impede de roubar o próximo, escraviza-lo, mata-lo até? Nada o impede: a “moral” não é e nem pode ser um conceito cientificamente válido, tal como a justiça ou a piedade. A visão científica da sociedade humana é aterradora.

A esquizofrenia da nossa época nasce e degenera também sobretudo a partir dessa dicotomia, essa dissonância cognitiva: dum lado são estabelecidas como “leis” aquelas ideias que convencem o indivíduo em ser um mero resultado de aleatoriedade, cuja vida não difere em muito daquela duma bactéria; por outro lado, tenta-se instiga-lo a ser virtuoso e obediente, dedicado ao Bem. Mas virtudes e bons sentimentos são completamente incompatíveis com a narrativa científica oficial e a tentativa de fazê-los coincidir produziu e continua a produzir um absurdo paradoxo que leva até uma sociedade como a nossa: esquizofrénica.

Pelo que, voltamos ao simpático Camus: vale a pena viver? Sim, vale a pena recusar a visão friamente e absurdamente científica para admitir que o Homem é muito mais que reacções hormonais. No Bem e no Mal.

 

Ipse dixit.

Fonte e gráfico: Tra Cielo e Terra

7 Replies to “A origem da esquizofrenia”

  1. Adorei, sempre pensei que a filosofia era a “ciência pela qual e através da qual fica tudo tal e qual “afinal estava errado, depois desta dissertação filosófica fiquei caído de sono, esta noite nem vou precisar de tomar os comprimidos, obrigado , e boa noite.

  2. Difícil discutir qualquer coisa fora do campo da ciência convencional sem adentrar no tempestuoso universo das religiões. O grande problema é que todas acreditam serem donas da verdade. Mas sempre me perguntei: será que não há um fundo de verdade em cada uma delas ? Como gosto do tema , procuro fazer uma relação com a ciência material.
    Óbvio que não pretendo que todos acreditem, além disso meu objetivo é ESTIMULAR A DISCUSSÃO, já sabendo que corro o risco de ser criticado e/ou ridicularizado. Mas , sou brasileiro, o que mais de ruim pode me acontecer ?

    Então:

    1- A teoria da energia escura ( que envolveria todo o universo ) assemelha-se muito ao “prana” dos budistas ou ao fluido cósmico universal ( Kardecista).

    2 – A teoria das cordas poderia explicar a existência do mundo espiritual.

    3 – Já existem estudos em universidades ( Virginia , por exemplo ) conclusivos de que há possibilidade de existir a reencarnação.

    4- Segundo Pietro Ubaldi ( autor que afirma que religião e ciência se complementam ) o Big Bang seria a queda dos anjos dos católicos.

    Todos os elementos citados, partiram de uma base cientifica, buscando uma relação com um dogma religioso. Nada de History Channel.

    Que venham as pedradas…

  3. Quais pedras, mais perguntas quando muito?

    Por um lado algo objectivo e frio (mas criação humana) que permitiu viajar, viver mais tempo nem sei onde acabar em elogios ou permite escrever este texto, mas o paradoxo é que a que matou (além de doenças) mais humanos,armas e bombas, e cada vez mais sofisticadas máquinas de matar, as mesmas que livram de trabalhos de risco?
    Por outro lado algo abstracto que pode reconfortar o ser ou colocar uma série de princípios para não nos matarmos uns aos outros, valores ditos humanos ou humanistas, que “mal” usado pode levar a aniquilação “dos outros”, ou até da nossa “tribo”. O problema não será esse porque o ser humano é o “único” em princípio “paradoxo” desde as primeiras descobertas?

    Boas perguntas? Talvez?
    Até mitologia embora use figuras diferentes, conforme local e cultura vai quase sempre no mesmo sentido? Isto até uma se sobrepor a outra? Porque pode?

  4. Olá Max! Como vc disse, a ciência é importante, nos fez alcançar patamares de evolução bastante relevantes. Mas ainda bem que não existem apenas cientistas no mundo, não é mesmo? O apreço pelas pessoas, a capacidade de influenciar positivamente, um mero “bom dia” ou um cumpŕimento a um desconhecido, o fato de contagiarmos o próximo e sem querer motivá-los, não tem preço. Sem dúvida vale a pena viver! Sobretudo, VIVER, não sobreviver. Isso significa estar bem, feliz, mentalmente sobrio (no meu ponto de vista, sem remédios ou coisas parecidas). Cultivando o amor, a solidariedade, a compaixão, o apreço ao próximo.

    Grande abraço!

  5. Olá Max: a alma, o bem e o mal são tratados além da religião, pela filosofia, pela literatura, enfim por disciplinas do conhecimento instituídas e reconhecidas como conhecimento acumulado pela humanidade. Me parece que, de qualquer forma, abordadas como conhecimento, são mal tratadas, dicotomizados por que elas não pertencem ao âmbito do conhecimento, mas a outros âmbitos: memória, intuição, sentimento, percepção, imaginação…Por isso que não há nada da produção humana que não retrate o bem, o mal, a alma tão perfeitamente como a arte. A pintura, a escultura, a música, e outras tantas manifestações humanas que o digam. A manifestação artística te deixa livre para pessoalmente responderes se vale a pena ou não viver porque não existe resposta definitiva e generalizada para coisa nenhuma como pretendem os conhecimentos instituídos.

  6. E por isso a ignorância é uma bênção. Acho que os cientistas estão em crise, a ciência tem o seu método e até aí nada de errado, mas os cientistas se confundem com a própria a ciência e ficam apenas nisso, deixam de ser curiosos, que sempre foi a sua marca registrada para seguir só este establishment científico como você disse. Precisam ler mais Júlio Verne!

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