Em Nomine Patris et Mercatoris

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A proposta do Ministro do Trabalho Di Maio de fechar as lojas ao Domingo é parte daquele que talvez é o projecto mais ambicioso do programa do Movimento Cinque Stelle (“Cinco Estrelas”) e que o fundador do mesmo movimento, Beppe Grillo, chamou de “o tempo libertado”: privilegiar o valor-tempo contra o valor-trabalho. Projecto ambicioso porque vai contra um dos totens do nosso modelo de desenvolvimento: a sagrada produtividade, mãe do eterno crescimento.

Não é coincidência que essa proposta seja incluída no que os Cinco Estrelas chamaram de “Decreto Dignidade”, um conjunto de reformas em parte aprovadas durante esta semana, em parte de próxima aprovação, que abolem as normas marcadamente neoliberais introduzidas nos últimos anos (pelo Partido Democratico, o “partido dos trabalhadores”…). Algumas das medidas contempladas neste Decreto Dignidade:

  • mudanças radicais no Jobs Act do ex-Primeiro Ministro Matteo Renzi (Partido Democrata), lei que tornou “normal” a precariedade em muitos sectores do trabalho;
  • forte limitação na possibilidade de estipular contractos de trabalho à tempo determinado;
  • maior garantia e nível salarial mínimo para trabalhos destinados aos jovens (por exemplo: entregas com motas nas cidades) com indemnização em caso de doença, de maternidade, de disponibilidade fora das horas de trabalho e férias;
  • penalização das empresas que transferem a produção para o estrangeiro;
  • flat-tax (imposto único de 15% para todos, cidadãos e empresas);
  • rendimento de cidadania;
  • penalização do jogo de azar (proibição de fazer publicidade ou de patrocinar, também online).

Voltando à questão do tempo: não podemos sacrificar tudo em nome da produtividade, isto é, para a equação produção-consumo segundo a qual, mesmo ao Domingo, é preciso apoiar a produção. O descanso dominical significa mais tempo para a contemplação, a reflexão e até para a família. Mais tempo para nós. E o tempo é uma riqueza, uma das mais valiosas.

O projecto de Di Maio tem a oposição de alguns grupos de consumidores, pessoas que não têm vergonha em terem sido degradadas de indivíduos para consumidores; pessoas que precisam engolir, como uma água e o mais rápido possível, o que produzem com a mesma rapidez. “Ao longo da semana trabalhamos, como podemos fazer as compras?”: como sempre foi feito até poucos anos atrás, quando as lojas estavam fechadas ao Domingo. E, obviamente, tem a oposição das empresas de distribuição, que têm medo de perder aqueles 12 milhões de italianos que compram aos Domingos.

Milagrosamente, o projecto Di Maio não tem a oposição dos sindicados: a prova de que Deus existe? “Não existe o direito de fazer compras”, afirma a Secretária da CISL. E este é um grande salto na história do sindicato, que com o governo do Partido Democratico tinha aprovado o Jobs Act: mas para poder continuar a navegar (e travar a hemorragia de inscritos) é preciso adaptar-se às mudanças do vento.

No início da Revolução Industrial, o sindicato foi decisivo para conter o massacre que as empresas estavam a perpetrar contra os trabalhadores. Mesmo crianças de 6 ou 7 anos de idade eram assumidas, com ritmos de trabalho que acabavam por matar. Mas ao longo do tempo o sindicato dobrou-se perante as leis do mercado, até casar a visão do pior Capitalismo e apoiar a precarização do trabalho ao grito de “melhor trabalhar pouco que não trabalhar de todo”.

Um dos aspectos que os sindicatos descuidaram por completo foi a questão do tempo: porque além dos salários e dos ritmos de trabalho, havia a questão da qualidade do trabalho e do mundo em volta dele. Nesta qualidade existe antes de tudo a saúde, mas esta inclui também o que chamamos de nosso “tempo livre”. Se gastarmos o nosso tempo livre no consumo, então nunca paramos de trabalhar, nunca conseguimos uma pausa do sistema. Daí a razão da distinção fundamental de Grillo entre “tempo livre” e “tempo libertado”: é possível ter tempo livre e mesmo assim gasta-lo no mecanismo “produzir-consumir-morrer”. Vice-versa, o tempo libertado é tempo autenticamente nosso, aquele que existe fora do sistema da produção e do consumo: fora das lojas, fora dos hipermercados.

Aquilo que não conseguimos entender aqui no burgo é perfeitamente entendido e implementado na Coreia do Sul, onde vão ser drasticamente reduzidas as horas de trabalho para contrastar o fenómeno da karoshi: termo de dificílima tradução literal que indica a “morte por fadiga”. No Ocidente este ponto tinha sido já ultrapassado quando os próprios empresários, entre os séculos XIX e XX, descobriram que os ritmos obsessivos matavam a mão de obra que não podia mais ser substituída com as massas camponesas que já tinha abandonado os campos. Aquela massa, tendo ocupado as cidades, estava a consumir-se. Então o trabalhador tinha que ser salvo não com espírito de caridade, mas com espírito de empreendedor.

Agora na Coreia do Sul enfrentam o mesmo problema e, tal como com o governo italiano, o Presidente da Coreia do Sul explica que a nova lei é precisa para “dar mais tempo às famílias”. Escusado será dizer que as grandes corporações estão a tentar travar a lei: os trabalhadores devem sobreviver, mas apenas para uso e consumo das empresas…

Aquele sul-coreano de “dar às famílias mais tempo em si” e do novo governo italiano não são projectos de caridade mas são ideológicos: é um ponto de viragem. Hoje um centro comercial pode ficar aberto durante 12 ou até 14 horas por dia, sete dias por semana. Com o descanso ao Domingo seriam sempre 12 ou 14 horas por dia, seis dias por semana: 312 – 364 horas por mês nas quais é possível efectuar compras.

Pensamos nisso: hoje um centro comercial pode ficar aberto até 14 horas por dias durante 31 dias. São 434 horas num mês. São precisas? Todas? O que raio temos que comprar? O que há de tão precioso que tem que estar disponível também ao Domingo? Até onde chega a nossa escravidão?

 

Ipse dixit.

Fontes: Massimo Fini, Guida Fisco

9 Replies to “Em Nomine Patris et Mercatoris”

  1. A questão ‘comprar’ há muito que deixou de ser a forma de suprir as nossas necessidades, mas antes, um modo de vida.
    Por isso, hoje o conceito de lazer está fortemente associado ao habito de consumir. Os tais consumidores de domingo, só por via administrativa irão ficar em casa, à beira de um ataque de nervos por estarem impossibilitados de nesse dia ir ao Shopping.
    Agrada-me o facto de existirem estas iniciativas de fechar o comércio ao domingo. Pode ser que a moda pegue.

  2. Na maioria das cidades brasileiras, as lojas só abrem aos Domingos, nos Shoppings Center ( salvo turismo). Nestes locais há outras atividades tais como praça de alimentação, cinema, exposições culturais, parques infantis, que são uma forma de lazer. Se fecharem só as lojas de compras, seria injusto para os funcionários que trabalham nos outros serviços. Fechar o Shopping inteiro ? Acho que iria restringir as opções de lazer de muitas pessoas, principalmente nas cidades onde não há muitas áreas disponiveis para tal. Também tem a questão da segurança, teoricamente os Shoppings são mais seguros ( quem é brasileiro, sabe bem como é).
    O problema é que os trabalhadores destes setores são sacrificados. Então, quem sabe ,uma lei poderia restringir que cada funcionário só pudesse trabalhar em apenas 1 Domingo por mês. Seria mais humano.
    Sei que a idéia do artigo não é bem essa, mas fiquei imaginando o assunto dentro da realidade brasileira.

    Max, mudando de assunto ( agora sim, peço perdão ) veja essa:

    https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/reuters/2018/07/05/reino-unido-exige-que-russia-explique-ataque-com-agente-nervoso-com-mais-duas-vitimas.htm

    Malvado Putin, aproveitou-se da distração da Copa do Mundo e atacou novamente!!

  3. Eu por mim, era ao Domingo e ao Sábado. Mas depois era o pânico generalizado entre as pessoas. Ai, meu Deus, o que é que vamos fazer? Não nos tirem as nossas comprinhas, por favor. Aqui em Portugal, os centros comerciais estão abertos até as onze da noite, por Deus!!!!

  4. São duas realidades diferentes mas….
    ….para já após trabalhar mais de 11 anos quase todos os Domingos, só posso estar de acordo. É um começo, é algo que não é essencial (como saúde, parte grande de transportes, todas aquelas coisas que não escolhem dia etc…)
    A solução óbvia é contratar mais pessoas para não sobrecarregar quem já está sobrecarregado, existe algum lado onde isso não aconteça? Ao empregar mais vão ter mais despesa(quando o pagamento em maior parte está nivelado por baixo) e menos lucro (o que para a maioria dos shoppings e hipers é uma pequena percentagem observando os lucros, é uma coisa pequena para grandes cadeias). Ao mesmo tempo ao ter vida mais digna a produção das pessoas aumenta, o que seria bom para uns e outros.
    A todos os níveis, saude mental, fisica e motivação e tempo livre.

  5. Maria Oly comenta: há coisas muito difíceis de aceitar com gente predominantemente egoísta, burra e com convicções neoliberais, mesmo sem dar-se conta que as possuem, e mesmo que prejudicadas por elas. Uma é o direito ao uso do tempo: tempo para estudar, para trabalhar, para conviver, para divertir-se, para dormir, para amar,para exercitar o corpo e, sobretudo, tempo para pensar. Sem tempo para pensar as pessoas são marionetes, fáceis de manipular, predispostas a ouvir e repetir. O trabalho fatigante gera aversão ao trabalho e fugas diversas para ganhar sem trabalhar. A falta de sono, de amor, de convívio, embrutece as pessoas e fá-las cair em depressão. A falta de divertimento e exercício físico deforma o corpo e rouba a saúde tanto quanto a ausência de estudo e riso estreita a mente.O consumismo é a última escolha de pessoas que perderam o hábito de estudar, de brincar, rir, refletir, conviver, amar, trabalhar com satisfação, dormir, exercitar-se física e mentalmente com prazer, ou seja, ficaram doentes e não sabem. Daí usam como remédio o consumo desnecessário. Mas sem consumismo o capitalismo sem freio fica prejudicado, as medidas do Decreto Dignidade são os freios que esse capitalismo abomina
    A segunda coisa difícil de entender para uma população que aceita o funcionamento dos sistemas político, social e econômico como o único possível e resultado da evolução das coisas. Para estas maiorias de cidadãos de segunda categoria tais medidas de libertação prejudicam o progresso e o desenvolvimento.
    Boa sorte à nova orientação governamental na Itália!

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  6. Comprar, quando em excesso é uma forma de suprir a necessidade social de afeto, possuir a qualquer preço um determinado objeto de culto social pode ser uma forma de suprir a necessidade social de pertença e de reconhecimento, do mesmo modo comer em excesso beber em excesso é uma forma de tentar suprir necessidades interiores em que algo, não compreendido, está faltando, a nossa espécie vive no limite e em excesso e esse excesso acaba mesmo por ser idolatrado e a facilidade do comprar alimenta o sistema capitalismo consumo são duas faces da mesma moeda.Qualquer tentativa de fazer o ser humano cair na realidade, leva-lo a passar mais tempo em família ou em introspeção ou compreender a armadilha da facilidade de comprar é bem vinda neste ponto.
    A recente greve dos camionistas no Brasil que forçou a paragem do abastecimento de lojas e de combustível proporcionou uma experiencia valiosíssima ao povo brasileiro também relacionada com o banalizado ato de comprar , a perceção de que a comida não cresce nas prateleiras e que a bomba de combustível não é um poço de petróleo, e o quão dependentes e vulneráveis estamos… saber teoricamente é uma coisa, chocar com a realidade é outra muito mais profunda. Por este ponto de vista há males que vem por bem. a teoria subrevivencialista (e não só) das reservas mínimas para uma mês deixa de ser vista genericamente como paranoica para se tornar sensata e para nos fazer refletir na nossa vulnerabilidade enquanto seres e enquanto espécie.

    1. O indivíduo está apequenado e desorientado em suas relações com os valores impostos pela ideologia dominante, como o dinheiro e a função laboral. O impacto de uma nova situação inserida num contexto maior não altera nada, pois se fosse, os pobres teriam uma consciência muito além da real. Pacientes de câncer, repensam suas vidas apenas enquanto submetidos aos riscos da doença, vencido esses riscos, voltam a situação anterior. a

  7. As pessoas até se esquecem que dantes as lojas não estavam abertas ao Domingo e até mesmo ao Sábado de tarde! Contudo, por uma questão de retidão, acho que se havia dia em que deviam estar fechadas era ao Sábado e não ao Domingo, que dantes até se chamava “feira”, e só deixou de ser assim por imposição da Igreja Católica Romana.

  8. Sim, sem dúvida que este sistema é um grande ladrão de tempo, como nas compras e nas deslocações obrigatórias. Já não sei se foi aqui que li que quando se analisa as diferenças na distribuição do tempo nos últimos 20 anos vemos duas actividades que perderam muitíssimo: ir à igreja e estar com os amigos. Contaram-me que em África era possível estar sentado à porta de casa e à pergunta o que estás a fazer responder naturalmente: estou a ficar. Agora pelo contrário temos os smartphones, provavelmente os maiores ladrões de tempo de toda a história.

Obrigado por participar na discussão!

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