Como o drama das sanções ao Irão se cruza com a Opep+

Voltamos a falar de petróleo com um artigo do jornalista Pepe Escobar, publicado no diário Asia Times:

“A história pode já ter conhecido estranhos parceiros na cama geopolítica. Mas na actual tendência do mundo da OPEP-plus, as regras do jogo são controladas de facto pela OPEP de acordo com o principal produtor de petróleo, a Arábia Saudita, em uníssono com a Rússia, non-OPEP.

A Rússia poderia até unir-se à OPEP como membro associado. Há uma cláusula-chave no acordo bilateral Riad-Moscovo que estipula que as intervenções conjuntas para aumentar ou reduzir a produção de petróleo são agora a regra. Alguns dos principais membros da OPEP não estão exatamente satisfeitos. No recente encontro em Viena, três Estados-membros (Irão, Iraque e Venezuela) tentaram, mas não conseguiram, vetar a tendência para o aumento da produção. A produção na Venezuela está a declinar. O Irão enfrenta a tácita guerra económica dos EUA e tem dificuldades para aumentar a produção. E o Iraque precisará de tempo para aumentar a produção.

Goldman Sachs insiste: “O mercado do petróleo continua em deficit (…) e exigir um maior esforço por parte do núcleo da OPEP e da Rússia para evitar uma quebra do estoque até o final do ano”. Goldman Sachs prevê que a produção da OPEP e da Rússia cresça 1.3 milhão de barris/dia até o final de 2019. Os distribuidores de petróleo do Golfo Persa disseram a Asia Times que isso não é realista: “Goldman Sachs não conhece os dados para afirmar que Rússia e Arábia Saudita teriam a capacidade para produzir todo esse petróleo. No máximo, seria 1 milhão de barris/dia. E nada garante que a Rússia estaria interessada em sacrificar o Irão, ainda que tivesse capacidade”.

Em teoria, Rússia e Irão, ambos sob as sanções dos EUA, coordenam as respectivas políticas energéticas. Ambas estão interessadas em contrastar a indústria do petróleo de xisto dos EUA. Os principais analistas da energia consideram que só com o petróleo a 100 Dólares ao barril o fracking ficaria lucrativo. E petróleo e gás gerados pelo fracking nos EUA é coisa de curto prazo; as jazidas estarão esgotadas em 15 anos. Além disso, é possível que a história do petróleo de xisto não passe de um esquema Ponzi.

Longe vão os dias quando o governo Obama ordenou que Riad desencadeasse uma guerra dos preços para prejudicar ambos, Rússia e Irão. Mas o jogo muda drasticamente quando a Venezuela perde um milhão de barris/dia em produção e o Irão, com as iminentes sanções, pode perder outro milhão.

Como Asia Times noticiou, a OPEP (mais a Rússia) pode aumentar a sua produção em, no máximo, 1 milhão de barris/dia. E demoraria porque, como disseram os distribuidores do Golfo Persa: “800 mil barris/dia na redução deles é o efeito do esgotamento que não pode ser restaurado”.

Os Produtores de petróleo não querem preços mais altos

A maior parte das nações produtoras de petróleo não querem preços altos para o petróleo. Quando isso acontece, a procura diminui e a temida concorrência – sob a forma de veículos elétricos – ganha um forte impulso.

Isso explica em parte porque Riad prevaleceu na guerra em Viena para conter o aumento dos preços. A Arábia Saudita é o único produtor com alguma capacidade inutilizada; os números reais são fonte de intermináveis debates nos círculos de energia. O Irão sob sanções dos EUA, por sua vez, tem uma forte necessidade de entradas extras de energia e tem que ser contrariado.

A conclusão é que, apesar do acordo em Viena, no curto prazo o preço do petróleo terá de subir. Análises feitas por BNP Paribas, entre os outros, dizem claramente que os problemas de oferta de Venezuela e Líbia, mais a proverbial incerteza sobre as sanções contra o Irão, implicam que “os fundamentos do petróleo continuam (…) favoráveis a um aumento nos preços do petróleo nos próximos seis meses, apesar da decisão da OPEP-plus”.

O Ministro do Petróleo do Irão, Bijan Zanganeh, fez o que pôde para diminuir quanto petróleo realmente voltará ao mercado. Tal como os distribuidores de petróleo do Golfo Persa, ele sabe com certeza que não poderá ser mais de 1 milhão de barris/dia, e que um tal aumento de produção exigirá tempo.

Considerando que em termos de realpolitik a Riad simplesmente não é permitida nenhuma decisão na política do petróleo sem a autorização prévia dos EUA, ainda é preciso saber como Washington reagirá perante o novo entendimento de longo prazo entre Riad e Moscovo. No que tem a ver com a geopolítica do petróleo, esse é o principal ponto de viragem.

Business as usual

A grande incógnita é como se desdobrará a guerra económica dos EUA contra as exportações de petróleo do Irão.

O ministro Zanganeh foi bastante realista: não espera que os compradores recebam qualquer tipo de favor de Washington, na óptica das sanções. Total e Royal Dutch Shell já suspenderam as compras.

Os principais clientes do Irão na venda de petróleo são, pela ordem: China, Índia, Coreia do Sul e Turquia.

A Índia comprará petróleo iraniano em Rupias, a moeda indiana. A China será impermeável às ordens do governo Trump. A Sinopec, a maior empresa chinesa de gás e petróleo,precisa muito do crude iraniano para as novas refinarias nas várias províncias chinesas e não parará de comprar.

O Ministro da Economia da Turquia, Nihat Zeybekci, foi claro: “As decisões que os EUA tomem nessa questão não nos obrigam a coisa alguma”. E acrescentou: “Não reconhecemos interesses de País que não seja o nosso”. O Irão é o principal fornecedor de petróleo da Turquia, responsável por quase 50% do total das importações.

E o Iraque não abandonará a cooperação estratégica da energia com o Irão. Regra da cadeia de suprimento: Bagdad envia petróleo de Kirkuk para uma refinaria em Kermanshah no Irão, e refina o petróleo iraniano para o sul do Iraque.

A Rússia não recuará da intenção de investir 50 bilhões de Dólares nas infraestruturas energéticas do Irão.

Japão e Coreia do Sul trabalham intensamente para fazer pressões e obter licenças especiais no regime das sanções. Segundo o Ministro de Energia da Coreia do Sul: “Estamos na mesma posição que o Japão. Estamos a conversar com os EUA e continuaremos a negociar para conseguir uma isenção”.

Num mundo menos Hobbesiano, os UE-3 (França, Reino Unido e Alemanha), mais China e Rússia – Países que participaram todos na negociação do acordo nuclear com o Irão (conhecido como Joint Comprehensive Plan of Action, JCPOA), ao lado de Japão e Coreia do Sul – diriam aos EUA que a guerra económica unilateral do governo Trump contra o Irão é, de facto, uma violação do tratado que foi aprovado pela ONU, e que desconsidera completamente as nações que se comprometeram a respeitar e proteger o JCPOA. No mundo real, contudo, isso não acontecerá.

É toda uma questão de energia

Mais uma vez, a acção para ser seguida é aquela da Bolsa de Valores de Energia de Xangai, o.Shanghai Energy Stock Exchange. Os contratos denominados em petroyuan começaram a ser negociados em final de Março. Em Maio já cobriam 12% do mercado global. O preço de um barril de petróleo, em yuan, oscilou entre Brent e West Texas Intermediate (WTI).

A China aposta simultaneamente na Arábia Saudita e no Irão. a China Investment Corp. poderia comprar 5% da Aramco, por aproximadamente 100 bilhões de Dólares . Paralelamente, a China começou em 2012 a pagar em yuan o petróleo iraniano. Se os europeus se mantiverem firmes, tal como esperam os principais analistas iranianos, o volume dos negócios energéticos com a China pode rapidamente chegar aos 40 bilhões de Dólares por ano.

O Irão está firmemente ligado ao petroyuan. O Irão agora já conta com uma frota de navios superpetroleiros, protegidos por seguros adequados, para exportar o próprio petróleo. Os iranianos calculam que a guerra económica de Washington fará subir os preços do petróleo. Assim sendo, mesmo que as exportações iranianas sofram, os rendimentos do sector da energia podem não ser afetados.

Encobertos por todas essas erupções dramáticas, encontram-se alguns dados surpreendentes. Irão e Rússia estão sentados sobre reservas de petróleo e gás que valem uns espantosos 45 triliões de Dólares. O fracking norte-americano é maioritariamente um mito. A Arábia Saudita pode contar com no máximo ainda 20 anos de petróleo. É tudo uma questão de energia, como sempre.

Os suspeitos do costume não se deixarão ficar sentados e relaxados, enquanto a sempre demonizada Rússia, assim como a Noruega, está a construir uma sólida classe média graças aos rendimentos do petróleo e massivos superavits em conta corrente. Os sinais de alarme estão ao ponto de disparar ao som de “Putin tomou o controle da OPEP”. De facto, foi Putin que convenceu Mohammad bin Salman de que ambos deviam combater a ofensiva do xisto dos EUA.

O enigma OPEP-plus-Irão está longe de se deixar decifrar. Só uma coisa é certa: aí estão os primeiros sinais das próximas guerras clandestinas, brutais, para o controle dos recursos naturais esgotáveis”.

 

Ipse dixit.

Fontes: Asian Times

3 Replies to “Como o drama das sanções ao Irão se cruza com a Opep+”

  1. E quem foi que nacionalizou a Gasprom? Putin. E quem foi que se aproximou da Arabia Saudita, buscando acordos sobre política de petróleo? Putin. Ele pode ter convencido os atlanticistas russos que podiam tratar dos negócios econômicos, deixando para ele os políticos. Mas tudo indica que o seu conceito do âmbito político é bem extenso. Pepe Escobar parece dizer: sigam a política do petróleo e saberão das próximas guerras, Mas eu tenho sérias dúvidas que a Rússia esteja incluída na pilhagem do império nos próximos 6 anos.

    1. Caro Anónimo,

      desde já agradecemos o seu contacto.

      Para que a nossa equipa possa resolver o seu problema de forma rápida e eficiente, faça o favor de responder às seguintes perguntas:

      – descreva o que aconteceu de forma simples e clara;
      – não divague, limite-se ao problema em si;
      – estava sozinho quando o problema ocorreu?
      – já tinha ocorrido alguma vez?
      – há testemunhos que possam corroborar as suas afirmações?
      – envie um mapa com a sua posição em relação ao computador quando o problema ocorreu;
      – tem um seguro que cobra tais ocorrências?
      – o problema provocou desconforto emocional em si ou em outros presentes no ambiente?
      – houve manifestações de pânico e/ou perdas de consciência?
      – ouviu vozes ou assistiu a fenómenos incomuns (p.ex.: ver antepassados) em concomitância com o problema?
      – envie o seu número de conta bancária, password e PIN (estes dados não serão cedidos à terceiros)

      Sobretudo, gostaríamos de chamar a sua atenção no último ponto:

      – quem raio é que escreve? Porque aqui aparece como “Anónimo”…

      A satisfação do Leitor é a nossa razão de vida: por isso voltamos a agradecer e enviamos os nosso melhores votos para que possa transcorrer um óptimo resto do dia.

      A Direção.

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