A Esquerda e os imigrantes

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A questão dos imigrantes está a partir uma já doente União Europeia. E, neste contexto, é interessante observar a atitude dos moribundos partidos de Esquerda.

Mesmo ontem houve eleições regionais em Italia: a Esquerda sofreu um novo duro golpe ao perder uma região historicamente “vermelha” como a Toscana. Mas mesmo a cidade de Imola, na Emilia Romagna, o coração vermelho italiano por definição, caiu nas mãos do Movimento Cinque Stelle. A ser atacada é a coluna vertebral da Esquerda, aquela que partia da Emilia Romagna (no Norte), atravessava a Toscana para alcançar a Umbria (no Centro): esta coluna já não existe, em poucos meses foi simplesmente apagada.

Podemos encontrar várias razões que justificam o massacre eleitoral. Mas há uma motivação principal, da qual derivam todas as outras: a Esquerda suicidou-se. E este não é apenas um fenómeno italiano.

Com a adesão acrítica à terceira via do neoliberalismo, a Esquerda tornou-se não a antagonista do neocolonialismo globalizador, mas até no seu principal defensor. Pior: a Esquerda nem pode revelar as suas intenções. Um expoente da Direita como Donald Trump pode bombardear em nome da superioridade militar americana ao grito de America First. Um neoconservador liberal como Hillary Clinton ou um homem-fantoche como Obama devem refugiar-se atrás do pano da exportação da democracia. Pano demasiado rasgado para ser ainda credível.

Nenhum líder da Esquerda pode anunciar que o seu partido decidiu seguir os ideais económicos de Bruxelas ou de Wall Street: é obrigado a contorcionismos dialecticos para justificar o que não pode ser justificado. Reconhece a prioridade dada ao Capitalismo, casa as exigências dos bancos, mas ao mesmo tempo jura defender os mais desfavorecidos, o que não pode fazer sentido nenhum: até o mais atrasado dos eleitores é obrigado a revelar a estridente fractura entre as palavras e os actos.

A Esquerda do “politicamente correto” está a extinguir-se porque não pode mais elaborar um pensamento crítico. Não pode fazê-lo: teria que criticar o quê? Nos últimos anos, decidiu acreditar no conto dos ditadores maus e, como único remédio, propôs a recepção de refugiados e imigrantes: mas, salvo algumas excepções, na maior parte dos casos não há refugiados, há só imigrantes que tentam entrar de forma ilegal em Países estrangeiros. Atenção neste ponto porque é extremamente importante: realidades como a Italia ou a Hungria não fecharam as portas à toda a imigração, fecharam as portas que consentiam a imigração ilegal. Um qualquer estrangeiro pode tranquilamente continuar a emigrar para aqueles Países seguindo as normas internacionais seguidas até hoje.

A Esquerda recusa falar dos interesses ligados à imigração clandestina, assim como recusa ver mas sobretudo explicar as redes deste autêntico trafico de escravos geridas por máfias internacionais. Limita-se a pegar na História e frisar como também os italianos tinham sido um povo de emigrantes. O que é verdade: mas esquece de acrescentar que eram imigrantes legais, que para entrar em outros Países seguiam aqueles percursos indicados pelo País acolhedor.

A Esquerda traiu-se ao tomar como boa a equação Fascismo = Comunismo. Conseguiu escolher sempre o lado errado porque “a terceira via” proposta pelo neoliberalismo nada mais é do que a expressão do pensamento único para o qual tudo o resto é totalitarismo. Desse pacote político faz parte a ideia de que a democracia prevê obrigatoriamente uma fratura entre cidadãos e elites; e que as elites devem liderar um povo incapaz de autodeterminação. Algo já presente, apesar de disfarçado, nos planos originais socialistas e comunistas, agora encorpado no liberalismo “iluminado”.

A Esquerda fez sua esta ideia da elite, agora já não com roupa comunista: justifica isso com a necessidade de “conduzir” o povo, impulsionado pelos instintos bestiais, ao longo do caminho traçado por um restrito grupo de sábios que, ao contrário, procuram interesses socialmente legítimos e têm instrumentos para isso. Uma visão elitista da democracia, parte da visão do mundo americano, que pode ser lida em Propaganda, o livro publicado em 1928 por Edwards Bernays (o inventor da propaganda, estudado também por Goebbles). A Esquerda não encontra nenhuma frição entre esta ideia e o seu percurso histórico porque também o Socialismo e o Comunismo implicavam a presença dum grupo de “guias”. Gramsci, por exemplo, acreditava na elite. Mas estamos aqui perante uma decisiva ambiguidade: porque “elite” significa coisas diferentes na Europa ou na América.

A Esquerda europeia, de acordo com a prioridade clássica do capital cultural sobre o capital económico, atribuía às elites o capital cultural. Por outro lado, a América sempre e somente conheceu o capital económico. Num contexto neoliberal, as elites significam as elites económicas, portanto: multinacionais e bancos, com todo o sistema de propaganda deles. O desprezo do povo como incapaz de alcançar resultados económicos tem, por sua vez, raízes na ética protestante que, como o filósofo Max Weber ensina, atribui aos ricos a evidência da graça divina.

Pelo que, há uma diferença substancial que a Esquerda parece não conseguir (ou não querer) entender: os “guias” socialistas e comunistas seguiam uma utopia, a elite de hoje segue o dinheiro. A passagem da elite “cultural” para a elite “económica” é um salto que destrói por completo a essência da Esquerda.

O caso dos imigrantes é significativo: ao invés de individuar e combater as causas, a Esquerda limita-se a tratar das consequências. Um partido “do lado do povo” deveria explicar qual a razão que leva uma pessoa a abandonar o seu País, numa viagem onde pode encontrar a morte, para entrar de forma ilegal num País do qual nada conhece, no qual terá dificuldades em adaptar-se e onde, só com muita sorte, encontrará um trabalho onde será explorado de forma brutal. Um partido do lado dos mais desfavorecidos deveria atirar-se contra as petrolíferas que exploram a principal riqueza dos nigerianos, contra as monoculturas de algumas realidades africanas, contra as máfias da Somália, contra as empresas francesas que monopolizam o Mali… Seria necessário partir daí, criando um movimento para sensibilizar a opinião publica e as instituições, para que além das (poucas) palavras houvesse acção.

Mas não. A Esquerda prefere atirar-se contra a opinião pública, acusando-a de ser fascista e de rejeitar o novo proletariado. E aqui a Esquerda comete outro erro crucial: os migrantes não são o novo proletariado porque as suas consciências, as suas identidades não estão aqui, mas em outro lugar. Eles têm o direito de emigrar (legalmente) mas ainda antes têm o direito de não serem desenraizados.

Por outro lado, os habitantes dos bairros europeus têm o direito de não serem expulsados pelos novos costumes duma imigração culturalmente heterogénea. Também os habitantes dos bairros mais pobres europeus, aqueles que olhavam para a Esquerda à procura de ajuda, têm este direito: os migrantes não residem nas ruas mais emocionantes das grandes cidades, ficam longe dos holofotes e das avenidas arborizadas. Mas é aí que também podem ser encontradas as faixas mais débeis do Ocidente, aquelas que agora têm que viver como estrangeiros nas suas terras. Decidir, como fazem as elites e a Esquerda, que as pessoas são feias e más porque não querem receber os imigrantes é injusto: são elas que carregam o peso da imigração com a perda do valor do trabalho manual.

Uma Esquerda que apoia a desvalorização do trabalho nestes anos de neoliberalismo, que subscreve o tráfego de escravos em nome do “politicamente correcto” e dos interesses do capital, que esconde as verdadeiras razões da imigração e que fica calada perante o neocolonialismo sofrido na África é um espectáculo miserável. Privada da sua classe de referência, o proletariado que escolheu votar noutros, a Esquerda tornou os migrantes uma espécie de folha de figueira para mostrar que ainda está do lado dos mais fracos. Mas não será suficiente.

 

Ipse dixit.

6 Replies to “A Esquerda e os imigrantes”

  1. Os partidos europeus de esquerda são apenas uma parte da ” esquerda” esses partidos comportam-se como um “cavalo de troia na europa” Os partidos de esquerda suicidaram-se ou estão a forçar a europa a cometer suicídio ? O artigo observa uma conjuntura mas não explica as suas razões. A história não se repete mas é cíclica e apesar da URSS estar extinta o sonho da “esquerda” de unir os Urais ao Mediterrâneo continua vivo, pode parecer absurdo , ridículo … não se fala disso em lugar algum… e o receio é exatamente esse , ” cão que ladra não morde”

  2. Esquerda, direita…palavras hoje esvaziadas de sentido e de propósitos explícitos. Entre nós persiste uma vaga ideia que pertencer à esquerda significa ser simpático à justiça social, mas a prática parlamentar e governamental, salvo honrosas exceções, revela-se diferente.
    A imigração, legal ou ilegal aqui é discreta, mas mesmo assim decreta a escravidão de mais um segmento, o emigrado. Caso notório em SC é o dos haitianos, gente com superioridade cultural ao brasileiro médio, condenados aos piores e mal remunerados serviços manuais, quando conseguem ocupação, sem direitos, e sofrendo o estúpido racismo justamente dos brasileiros, que mais mestiços não podem ser. Mas carregam na pele uma negritude indisfarçável, pobres, com hábitos peculiares. Isso é crime no Brasil, debaixo de uma suposta solidariedade cordial.
    Imagino o que se passa na Europa. Acredito que a Ângela Merckel tenha sonhado com uma legião de escravos para os piores trabalhos nas grandes indústrias alemãs. Mas parece que a coisa não saiu conforme o pensado. Misturar muçulmanos de descendência árabe com uma população alemã, também em busca de trabalho, gente com uma cultura totalmente diferente, e carregando, senão ódio, desconfiança mútua, desinstalaria a todos. E aí os políticos de todos os matizes ficam a espera de novas ordens que não chegam porque o propósito globalizador é justamente rebentar com os Estados europeus Turquia e Líbano ficam com os maiores contingentes, e aí a situação assume o tamanho cada vez maior dos acampamentos de refugiados, que hoje já contam com mais de 65 milhões de vítimas em êxodo pelo mundo

  3. Não bastou a “guerra gelada” de décadas e continua-se tentando explicar a geopolítica mundial (inclusive aqui) pela ótica bipolar entre fantoches, sejam liberais ou comunistas…

  4. Epá! Assim é, não tenho a pretensão de ser um ser iluminado e de grande sapiência como alguns comentadores que aqui aparecem e infelizmente cá vou continuando com a minha “visão bipolar” do mundo, ou lá o que lhe queiras chamar …

  5. seria este apoio total a imigracão que alguns lideres da UE fazem, apenas para mao de obra barata para as industrias europeia??? uma vez que a população se reproduz menos, menos interessada em trabalho básico de chão de fábrica?

    Acabei de assistir o filme sicario 2, obivio é um filme de hollywood, sobre drogas, mas toca sutilmente sobre isso, tráfico de pessoas e imigração, não vejo em nenhum lugar comentado, algum levantando essa bandeira, pessoal apenas batendo no tio trump.

Obrigado por participar na discussão!

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