O vulcão, o fracking e o código

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O mundo da informação alternativa tem um aspecto masoquista que não consegue abandonar: deve ser uma tentação demasiado forte.

Pegamos num site de referência como Global Research (na lista das vítimas do novo algoritmo de Google) e juntamos um candidato ao Congresso dos EUA, nomeado para o Prêmio Pulitzer, como Jon Rappoport: o resultado é uma espécie de harakiri da informação alternativa.

Global Research: Kabooooom!

Em Puna, na ilha do Hawai, a maior do arquipélago, onde o vulcão Kilauea entrou em violentamente em erupção, há a central geotérmica Puna Geothermal Venture (PGV).

Há um longo debate sobre as alegadas actividades de fracking da PGV, o que poderia ser reduzida a uma mera questão de terminologia considerando que, no processo geotérmico, como informa o hawaiifracking.com, “… a perfuração e a injecção de água fria, típica das centrais geotérmicas, fracturam as rochas. Isso pode induzir terremotos e, através da contaminação da atmosfera e das águas subterrâneas, pode afectar a nossa saúde e a segurança “.

Quer a injeção profunda de um fluido seja destinada a extrair petróleo, gás ou calor geotérmico, a fase inicial do processo é a mesma.

E até aqui tudo bem. Ou quase: porque não há a certeza de que a Puna Geothermal Venture (PGV) esteja a utilizar a técnica do fracking. Nem o citado site hawaiifracking.com dá isso como certo. O que se sabe é que a Hawaiian Electric Light Company (HELCO) está a solicitar um aumento de produção de energia geotérmica de 38MW para 88MW, o que pode fazer prever no futuro a introdução do fracking para explorar mais calor geotérmico.

Continua o artigo:

Os terremotos induzidos por essas injecções de água obviamente poderiam causar uma erupção vulcânica.

“Obviamente” uma ova. Não há exemplos disso: nenhum vulcão alguma vez entrou em erupção por causa do fracking. E a explicação é simples: as forças que provocam uma erupção são imensamente maiores daquelas que seria possível actuar mesmo no mais invasivo dos fracking.

Não há até hoje um estudo científico que demonstra a correlação entre fracking e terramotos. Todavia, é provável que as duas actividades estejam ligadas: ao retirar petróleo ou gás das profundezas, é alterada a distribuição das massas assim como o valor das pressões: faz sentido achar que os sucessivos tremores de terra sejam provocados por estas massas à procura dum novo equilíbrio. Mas estamos a falar de micro-sismos, menores do grau 3 da Escala Richter, raramente de grau 4.

Estes micro-sismos são uma realidade que não pode ser negada. Wikipedia:

Em 2009 ocorreram 50 terremotos com magnitude superior a 3 nos estados do Alabama e Montana, enquanto que em 2010 ocorreram 87. Em 2011 ocorreram 134 tremores na mesma área, um aumento de 6 vezes em comparação aos níveis do século XX. Vários terremotos em 2011 em Youngstown (Ohio), incluindo um de magnitude 4, estiveram provavelmente relacionados com a injeção de água do processo de fracking, de acordo com sismólogos da Universidade Columbia. A região entre o norte do Texas, Nebraska, Kansas e Oklahoma experimentou entre 2009 e 2011 mais de 250 tremores, e a grande maioria das ocorrências foram detectadas dentro um raio de duas milhas no entorno de um poço de exploração por fraturamento. Ao longo dos anos, a frequência de tremores nesta região tem quase dobrado a cada ano. Em 2011 três tremores, de magnitude 3,7, 3,9 e 4,3, de uma série de 11 que afetaram o norte do Texas no intervalo de 40 dias, numa região geologicamente estável, causaram abalos e danos em casas e outras estruturas.

Pelo que, apesar da falta de evidências científicas, os micro-sismos estão ligados às operações de fracking. O resto do artigo de Jon Rappoport é uma lista de acidentes neste sentido que ocorreram perto de Basileia, na Suíça: curiosamente, nem têm sido os eventos mais significativos, pois o que acontece nos Estados Unidos (Montana, Alabama, Texas…) é bem mais impressionante. Depois chegam as conclusões:

Assim, na ilha do Hawai, onde há uma enorme erupção vulcânica em andamento, há uma central de energia geotérmica, a PGV. Quão perto está a PVG do vulcão? […] Está claro que a PGV está num vulcão. Outros relatórios afirmam que é de 15 quilómetros do vulcão. Nos dois casos, a central está próxima, muito próxima.

Calma lá, meu Prémio Pulitzer: “no vulcão” é uma coisa, “15 quilómetros” é outra coisa. Os habitantes de Randazzo vivem a 10 quilómetros do topo do Etna e raramente tiveram problemas com o vulcão. Se vivessem “no vulcão” já teriam sido varridos várias vezes. Além disso, a grande maioria dos efeito negativos do fracking, do ponto de vista sísmico, acontece num raio de dois milhas do ponto de perfuração e 15 quilómetros são nove milhas e meio.

Fracking, Pele…

Mas o problema não é a distância: como afirmado, é a força. Pensar que injecção de água possa ter a força necessária para desencadear a erupção dum vulcão significa não ter ideia do que está sem jogo.

E depois não estamos a esquecer algo? O arquipélago dos Hawai é uma zona vulcânica activa: a mesma génesis das ilhas deve-se unicamente a tal actividade. O resultado é que nas oito ilhas que compõem os Hawai há três vulcões activos: Hualālai, Mauna Loa e o citado Kīlauea. Acerca deste último, eis uma pergunta interessante: quando teve início a actual erupção? Em 2018? Não. Talvez em 2017? Não. Então em 2000, para festejar a entrada no novo milénio? Não. Em 1993, quando foi completada a central PGV? Não. A actual erupção teve início em 1983: porventura é a erupção mais duradoura observada até hoje neste vulcão.

Os habitantes dos Hawai associam os fenómenos vulcânicos ao humor de uma divindade feminina chamada Pele, cuja morada estaria localizada perto da grande cratera no topo do Kīlauea. Eu nunca vi esta tal Pele, mas acho que como explicação faz bem mais sentido do que o fracking.

…e os que nunca podem faltar.

Nem todos os artigos podem ser obras-primas e isso vale para todos. O problema nasce na altura em que a desinformação toma conta páginas que são uma referência do sector. Uma rápida pesquisa com Google utilizando os termos “fracking”, “Hawai” e “volcano” dá 274.000 resultados: e muitos têm como ponto de partida o artigo de Global Research. Outro site de referência internacional como é Zero Hedge, por exemplo, retomou o artigo de Jon Rappoport. Daí até Twitter, Facebook e Reddit é um saltinho.

Não falta algo por aqui? Sim que falta. A quem pertence a empresa Puna Geothermal Venture? Mas é claro: é de israel! E de facto é assim: as instalações são de propriedade da Ormat Technologies Inc., uma empresa israelita sediada no Nevada. A notícia é do site Goon Squad que nota também como a mesma empresa tem umas instalações na Guatemala, em Amatitlan, perto do Volcán de Fuego. Não evitaria de traduzir quanto escrito em Goon Squad por nada no mundo:

Uau, que coincidência! Ou coincidências … Eles têm uma perto de Fukushima e todo o inferno se solta lá. Eles têm uma no Hawai, idem, e na Guatemala, onde Volcán de Fuego está a cuspir fogo e morte.

Se fosse qualquer outra nação, eu não pensaria muito nisso, mas quando se trata de uma nação cheia de odiosos ladrões de terra, mentirosos e malévolos que se deleitam em fotografar crianças e que querem governar o mundo, então isso merece uma olhada mais profunda. Em outras palavras, o que diabos está a acontecer que Israel fractura deliberadamente vulcões em ação?

Uma maravilha que dará alegria a alguns Leitores de Informação Incorrecta para o resto do dia: Tel Avive está a preparar o armageddon utilizando o fracking para incinerar o planeta todo. A suspeita que as empresas de energia geotérmica explorem aquelas zonas onde tal energia é mais presente é, obviamente, uma hipótese posta de lado.

Tudo material surgido após o artigo de Global Research. Porque Global Research é referência e se diz algo… bom, é porque deve ser verdade, óbvio. De utilizar internet para fazer duas pesquisas e controlar a veridicidade dos factos nem pensar. Resultado: uma emérita idiotice torna-se uma “notícia”. E a internet alternativa fica cada vez mais o “lugar dos malucos”.

Proposta: o código

Proposta: que tal um código deontológico? Algo não imposto de fora (como a censura da nova Directiva europeia) mas um código de conduta nascido na internet alternativa para os frequentadores da internet alternativa. Uma forma de certificar a bondade das informações fornecidas.

Um código com base voluntária, onde aos participantes é entregue um selo (gratuito) que pode ser exposto no blog/site. Mas um selo que pode ser retirado caso o blog/site insista em publicar notícias infundadas.

O controle? Tem que existir e deve ser formado por indivíduos que operam no âmbito da informação alternativa.

Alguém sabe se existe algo do género?

 

Ipse dixit.

Fonte: Global Research , Zero Hedge, Goon Squad

4 Replies to “O vulcão, o fracking e o código”

  1. Excelente artigo e observacões.
    Não. Todos falam a verdade lol, até mesmo quando se prova que é mentira, ou que foram mal informados. Alguns e por isso possuem mais seguidores dizem errei/erramos pedimos desculpa.
    E outros possuem muito mais seguidores como um culto e meio zombieficados insistem mesmo que as fontes e provas digam o oposto.
    Desculpa, enganos etc…não existe, nem é com eles ou muda-se o assunto ou apaga-se.
    É um pouco como a relação Trump/Twitter o que de manhã é branco á tarde é escuro e o resto é fake news.
    E a confusão impera.

  2. Max, apesar de apenas consumir e nao produzir conteúdo tenho idéias e desejo de implementar um fact check independente para jornalismo independente. Existem investimentos em universidades grandes em técnicas para o mesno. Sabemos que logo logo isso será tomado por centrais de informação (propaganda) é usado como censura. Mas é possível fazer a mesma coisa para estimular a qualidade do independente. Nada mais motivabte do que o reconhecimento…

Obrigado por participar na discussão!

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