Como enfrentar a decadência

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No julgamento contra Antonio Gramsci em 1928, o promotor declarou: “Precisamos impedir que esse cérebro trabalhe por 20 anos”. Assim Gramsci, ex-líder do Partido Comunista Italiano, foi condenado a duas décadas de prisão pelo governo fascista de Benito Mussolini.

No entanto, foi mesmo o aprisionamento causou o florescimento das ideias de Gramsci em vez do seu declínio. Os seus Cadernos das Prisões incluíam 33 volumes e 3.000 páginas de história, filosofia, economia e estratégia revolucionária.

Em 1937, Gramsci, que ao longo de toda a vida teve que enfrentar graves problemas de saúde (como o morbo de Pott, contraído na infância), morreu aos 46 anos de idade. A irmã Tatiana conseguiu fazer publicar os Cadernos após o final da guerra, a obra foi traduzida e Gramsci tornou-se a principal influência comunista anti-stalinista.

Os álibis do passado

Num discurso em 2013, o Secretário de Estado britânico para a Educação, Michael Gove, citou Gramsci para defender os métodos tradicionais de educação (“A ideologia que [Gramsci] muito temia na Itália entre as guerras era o que nós chamamos, de uma forma tragicamente inadequada, “educação progressiva”). Até mesmo o grupo francês de extrema Direita Nouvelle Droite o os seus colegas belgas Vlaams Blok reivindicaram Gramsci.

Tudo isso é preocupante. Sempre houve a tendência para encontrar no passado justificações e até explicações que conseguissem fazer luz no presente. Pensamos no caso de Aristóteles, cujo pensamento foi lei durante séculos e até chegou a influenciar as ideias de filósofos do Novecentos.

Esta tendência continua: ainda hoje não conseguimos livrar-nos do Marxismo, visto pelos seguidores como o supremo instrumento para interpretar a realidade (curiosamente, o mesmo ponto de vista de quem apoiava o aristotelismo); isso enquanto a nossa economia é dirigida por algo que já não pode ser definido como Capitalismo mas que aí encontra as suas origens. Em ambos os casos, teorias com bastante anos de serviço (Adam Smith viveu no ‘700, Marx no ‘800) e que já demonstraram ser amplamente imperfeitas.

Apesar disso, é tudo o que temos, parece não haver alternativas viáveis. O que é bastante deprimente, porque significa que nos últimos 170 anos (contando desde 1848, ano da publicação do Manifesto Comunista) não foi possível propor algo melhor.

Os melhores cérebros

Podemos objectar que assim não é, que as alternativas existem mas não são difundidas nem implementadas porque o actual sistema quer preservar-se. Em parte é verdade, pois todos os sistemas tendem a proteger-se evitando a mudança: a liberdade que temos é tal só se utilizada no âmbito do que já existe, caso contrário torna-se heresia e como tal é rejeitada.

Então tentamos observar a coisa dum outro ponto de vista: tente o Leitor citar o nome dum grande pensador contemporâneo, alguém com uma teoria out of the box, como dizem os anglo-saxónicos, mas realista, que possa ser implementada e cujos efeitos sejam significativos para a evolução (ou até involução) da nossa sociedade. Não falamos aqui duma pessoa que tenha uma ideia que possa resolver todos os problemas dos quais sofre o planeta, pois tal pessoa não existe e nem poderia existir. Falamos de alguém que proponha uma visão diferente, algo que pode abrir novos horizontes.

Em 2013, a revista inglesa Prospect criou uma lista dos 10 maiores pensadores da actualidade, eleitos após uma sondagem que conseguiu 10 mil votos de 100 Países. São eles:

  1. Richard Dawkins, biólogo evolucionista anti-creacionista
  2. Ashraf Ghani, Presidente do Afeganistão, ex-funcionário do Banco Mundial.
  3. Steven Pinker, psicólogo, linguista evolucionista
  4. Ali Allawi, ex-Ministro do Comércio e da Defesa do Iraque.
  5. Paul Krugman, economista liberal neoKeynesiano.
  6. Slavoj Žižek, filósofo
  7. Amartya Sen, economista
  8. Peter Higgs, físico
  9. Mohamed El Baradei, diplomata, ex-Presidente de Egipto.
  10. Daniel Kahneman, psicólogo e economista

Portanto, estes são os melhores cérebros da actualidade. Todos merecem o máximo respeito (talvez…), mas qual deles é portador duma visão realmente revolucionária? Quais, pelo contrário, mexem-se na senda do já traçado, limitando-se a aprofundar algo que já existia? O que sobrará da obra deste senhores no prazo de 100 ou 200 anos? Nesta óptica, o único cujo nome será lembrado pode ser aquele de Peter Higgs, por via do homónimo bosão, mas cujo verdadeiro impacto na nossa visão da física deve ser ainda estabelecido (apesar dos tons delirantes do media: “a partícula de Deus”).

A obra dum Galileo não ficou limitada à astronomia: estabeleceu as bases do pensamento científico moderno; o mesmo pode ser dito de Isaac Newton. Mudando de área, Adam Smith e Karl Marx deram vida a algo cujos efeitos são preponderantes ainda hoje.

É claro que um Galileo, um Newton, um Smith ou um Marx não nascem todos os dias. Mas é apenas isso que trava a nossa sociedade? Que a obriga a ficar agarrada à concepções velhas de 170 anos, no mínimo? É possível que numa época na qual é máxima a circulação das ideias o que está em falta são mesmo novas ideias?

As ideias de Galileo

Podemos explicar isso com uma forma de censura mais ou menos latente actuada primariamente pelos órgão de informação. Tal censura existe e não é possível nega-lo: é o tal sistema que quer preservar-se. Mas voltemos a um dos casos mais emblemáticos: Galileo. Na altura a circulação das ideias era extremamente lenta, desarticulada, e existiam um controle e uma censura explícitas particularmente atentas: tudo passava pela avaliação da Igreja. Galileo estava sozinho, toda a Igreja contra ele; e a Igreja na altura ainda era um dos máximos poderes mundiais.

Ganhou Galileo? Na verdade não: ganharam as ideias dele que, incrivelmente, conseguiram espalhar-se até serem adoptadas pela maioria. Por qual razão as ideais de Galileo vingaram? Porque eram válidas. Não foi a simpatia de Galileo (que simpático nem era), não foram os conhecimentos pessoais de Galileo (detestado por muitos colegas), não foi o julgamento (acontecimento não raro na altura), não foi um efeito indesejado da censura (que atingia um sem número de escritos e teorias): as ideias eram boas, foi só isso.

Moral da história: se uma ideia for boa, mesmo que censurada e perseguida, consegue encontrar o seu caminho e recolher adeptos. Se for muito boa, conseguirá não apenas vingar como até tornar-se referência (e com o tempo será substituída por uma nova e válida ideia).

A falta de ideias e a decadência

Nós hoje somos continuamente atropelados por uma avalanche de notícias mas com bem poucas ideias. E parece que a quase totalidade destas últimas não passam dum “já visto”, são apenas círculos inscritos à volta de ideias antigas. Retomar em 2013 as palavras dum Gramsci para defender um sistema de ensino é trágico: em quase 100 anos não houve nada mais? Sem contar que Gramsci era marxista, isso é, campeão duma ideologia que a História já enterrou.

Portanto, não é apenas uma questão de censura. Esta existe, é evidente, mas é por sua natureza limitada no tempo e nos modos. O verdadeiro problema fica em nós pois perdemos o hábito do pensamento construtivo: sabemos criticar mas não criar. E quando a situação fica complicada, a única solução é olhar para trás à procura de antigas justificações. Inútil espreitar nos vários sectores da sociedade: as classes políticas são o espelho das massas, cientistas e empreendedores não fogem à regra, os filósofos são uma raça em via de extinção.

O que significa isso? Decadência. O nosso sistema está velho porque os alicerces envelheceram e no horizonte não há nada e ninguém capaz duma profunda renovação. Estamos ligados aos vetustos conceitos de Esquerda e Direita simplesmente porque assim fomos habituados e não temos a capacidade para imaginar algo mais. A Ciência defende até a morte o “método científico” porque incapaz de enfrentar novos desafios. O pensamento percorre trilhos já gastos sem conseguir libertar-se da gaiola que ele mesmo criou. Na lista de Prospect o melhor cérebro pertence a alguém que ainda publica livros para demonstrar que Deus não existe: este é o máximo que a nossa espécie consegue em 2018 d.C.? Diágoras de Melos escrevia o mesmo no século V a.C.

Tudo isso parece deprimente? Pois parece. Mas não é. O que Informação Incorrecta sugere desde sempre é que esta é uma época de transição: o velho mundo ainda está aqui, entre nós, enquanto o novo mundo teima em não aparecer. Então, qual o problema? Não vale a pena recriminar: não está escrito em lado nenhum que o futuro seja melhor, talvez (mas só “talvez”!) o melhor seja…agora, por incrível que pareça. E mesmo que o futuro seja de facto melhor? É uma injustiça viver aqui, agora, nesta época indefinida e de transição? Não, não é. Esta é uma época empolgante: novas ideias podem nascer em qualquer altura, aqui ou do outro lado do planeta. Porque haverá novas ideias mais cedo ou mais tarde, disso não tenham dúvidas: é a História que ensina isso.

E mesmo que não haja novas ideias para já, é incrivelmente interessante observar as tentativas ao redor do mundo para mudar o que temos, mesmo que esta mudança não parta de nobres princípios. O debate acerca das energias renováveis, por exemplo, é deveras interessante. Sabemos que, infelizmente, as elites encaram o assunto por uma mera questão de cálculo; mas além dos interesses empresariais há uma realidade na qual teremos que abandonar (finalmente) o petróleo para algo um pouco mais amigo do ambiente. Mesmo que as ditas elites estejam a borrifar-se do meio-ambiente (e estão, totalmente), utilizar algo menos poluente terá consequências positivas. E este é apenas um exemplo.

Então temos que ser felizes porque coisas boas acontecem mesmo numa altura de decadência? Isso é verdade: coisas positivas acontecem, mesmo neste período, mas não é uma razão para ser felizes. Deitem para o lixo tanto o optimismo quanto o pessimismo, fiquem com o realismo: temos o que temos e ponto final. Não dá para festejar? Não, mas nem justifica o ficar num canto a chorar acerca das nossas desgraças.

Além da decadência

A solução é abrir os nossos horizontes: mente aberta, informar-se, aprender, descobrir, pôr em jogo o que sabemos ou achamos saber. Claro está, é preciso “armar-se” para não ficar presos nas armadilhas: desconfiar do sistema, porque este tem como único objectivo limitar a nossa percepção; desconfiar dos profetas de desgraça porque querem lucrar com isso; desconfiar de quem afirma que está tudo bem, porque é um idiota; desconfiar dos partidos políticos e das igrejas porque são partes integrantes do sistema, reaccionários e nunca inovadores.

Mas mesmo assim é possível “voar” um pouco mais alto, por cima da realidade decadente. O Leitor tem internet? Então use-a: frequente páginas que pensam e dizem o contrário do que você pensa, a vida não é só passar o dia a repetir quantos somos bons ou ler coisas com as quais sabemos concordar ainda antes de lê-las. Entre em blogues, fóruns, discuta não para demonstrar que entendeu, porque não entendeu tal como não entendo eu e como não entendem os outros: entre para comparar pontos de vistas, para aprender. Não fiquem limitados a Informação Incorrecta e ao pequeno mundo da informação alternativa, porque tudo isso nasce como reação à propaganda do regime e, portanto, é previsível e naturalmente limitado.

Querem saber que tipo de leituras são as minhas na internet? Já foi-me pedido para deixar uns links aqui no blog. Mas pessoal, além das sugestões dos Leitores eu frequento páginas da igreja, de grupos neo-fascistas, neonazistas, comunistas, anárquicos, ambientalistas, think tank globalistas, internacionalistas, revolucionários (não é de estranhar que depois Google censure…); costumo visitar a deep internet; na minha livraria há O Capital, Mein Kampf, Torah, Bíblia e Corão e, espantem-se, fiz questão de lê-los (uma seca…). Esta é a única forma que encontrei para não ficar ligado para sempre às minhas ideias. Não sei se está correcto, talvez esteja a errar e aceitam-se sugestões. Mas para já sinto-me bem com isso, tenciono continuar e atrevo-me a sugerir o mesmo: recusem a prisão das ideias.

 

Ipse dixit.

29 Replies to “Como enfrentar a decadência”

  1. Idéias não faltam. Exemplo? área de Tecnologia da informação. O que acontece é que elas estão atreladas ao dinheiro. O que não poderia ser diferente num mundo cada vez mais burguês capitalista. Quem pode se dar ao luxo de entrar em modo stand by para filosofar e tentar desenvolver uma linha de pensamento própria e aprofundada? Até pq o sistema não quer pensadores mas realizadores, mesmo que sejam humanóides robotizados. O homem foi desapropriado do seu próprio tempo (como prerrogativa da servidão pós-moderna), e a filosofia, único meio de exercitar algo minimamente existencial, foi desprezada, para não dizer descartada.

    1. Ideias não faltam, nunca faltaram e nunca faltarão.
      E só na TI? Até pelo contrario a coisa está um pouco estagnada.
      Um mundo mais burguês? E capitalista, até ver.
      Aparências…
      Os chamados um por cento dominam uma brutalidade(sim dinheiro, mercado, monopólios…) da fatia do bolo, segundo estimativas das mais optimistas às mais pessimistas a coisa só tem tendência a aumentar.
      Sistema? Ou coisa disfuncional, para vantagem de alguns sobre uma imensa maioria. Qual o sistema que se aguenta assim artificialmente?
      Se a coisa piora mais tarde ou cedo perdem o controle.
      Essa aberração(da forma atual não vai funcionar por muito mais tempo).

      Agora a altura de chatear ;))
      Chaplin é o vosso caso mas podia ser aqui, já chegaram a ser quase a 5a economia, mas como a midia, redes sociais e a mentalidade de auto flagelacao, complexo de vira lata da burguesia média e alta (miami é melhor)suportavam ver o povo melhorar, fizeram o golpe dos ricos e das panelas. Agora está tudo pior, privatizar areas estratégias, leilões, vender o vosso para quem der mais? E agora…se f****.
      Tudo o que estava a melhorar não tem fundo como educação, infra, alojamento e alimentação(preço).
      Ah enquanto o preferido pelo eleitorado estiver preso, por nada, e outros ilustres com contas na Suíça, Cayman se passeiam por aí….o juizeco vai tirar fotos com candidato e o privatizador mor em Nova Iorque ok. Ah e o favorito um racista, homofobo entreguista (essa de esterilização dos pobres), com apoio de alguns que são pobres….
      Hemisfério sul deve ser efeito corealis.
      É tudo dinheiro sim! Mas você acha que isso sucedia aqui?
      Só o que sucede aí para mim e muitos mais é um case study… desculpa não entendo.

      Abraços

  2. Boas ideias existem, mas são pouco divulgadas. Temos o Mohammed Yunus, por exemplo, que é relativamente recente. A Democracia Semi-Direta na Suiça. A própria Democracia Direta, onde já temos alguns protótipos dentro dos sistemas atuais, como os Orçamentos Participativos. O Projeto Vénus do Jacques Fresco, o Rendimento Básico Universal, as cooperativas, as pistas cicláveis feitas com paineis fotovoltaicos, carros que se movem a ar comprimido etc, etc. As ideias novas estão aí, só é necessário é enterrar a ideia principal que serve de lastro á sociedade atual e que abafa todas as outras que é o lucro a qualquer custo.

  3. Qual decadência ? Nunca na historia da humanidade se viveu tão bem, esperança média de vida tem subido, mortalidade infantil desceu, acesso a cuidados de saúde básicos gratuitos, educação básica gratuita? Comunicação globais gratuitas , transportes globais, segurança social , subsídios de desemprego…
    Temos um problema de transição de combustíveis, fosseis mas acima de tudo temos um problema de mentalidade, nenhuma ideia vai resolver um problema básico de egoísmo e ganancia humano, nenhum sistema só por si vai melhorar espiritualmente o ser humano, e fazer ver que fazemos parte de um ecossistema do qual não somos donos.
    Estamos demasiado ocupados a imaginar conspirações…

    1. Não é uma conspiração é um fa(c)to.
      É real
      Isto de falar de 7,5 biliões em que no máximo 1,2 tem algumas dessas benesses. Gratuito? Sim se te baseares na Europa, basta ir para outros lados é tudo privado ou coberto por seguros de saúde. Sim muita coisa melhorou ou está mais acessível (teoricamente). Depende muito onde estejas. Vai com essa conversa para a Africa, partes da Ásia e Americas ou até aqui p/ex quem no início da crise em Portugal teve que/e continua a imigrar, precisamente pelas ofertas mais seguras no plano laboral e financeiro ex: sistema nacional de saúde.
      Sim é verdade não diria egoismo mas ganância desmedida, somos parte do ecossitema e julgamos ser donos do mesmo.

      Abraço

      1. Caro Nuno. Acontece que quem detêm a opinião pública (não acreditem nela pq não passe de propaganda de opinião publicada) é o segmento que cada vez mais se beneficia, direta ou indiretamente do sistema mundo vigente.

        1. Olá P.Lopes!

          Acho que para defender este como o melhor dos mundos possíveis é precisa muita, mas mesmo muita boa vontade. Não é preciso ser conspiracionista para observar o nível de degrado ao qual chegamos.

          A incidência de cancro em Portugal tem aumentado três a quatro por cento ao ano em 2017. Sim, podemos tentar trata-lo com o sistema de saúde gratuito (aqui em Portugal, em outras realidades não), mas sempre cancro é.

          As espécies desaparecem a um ritmo mil vezes superior ao seu ritmo natural, uma tendência que poderá ainda acentuar-se. Ao ritmo actual, cerca de 34 mil espécies de plantas e 5200 espécies animais correm o risco de extinção.

          A poluição do ar prejudica à saúde humana e o meio ambiente: o problema é tão grave que já causou a morte de mais de 7 milhões de pessoas do mundo só em 2012, número de mortes superior ao da AIDS e malária juntos.

          Há 12 conflitos em curso com mais de 1.000 vítimas mortais por ano e 32 conflitos com número de vítimas variável. Os refugiados são 65.6 milhões.

          A liberdade de imprensa está cada vez mais em risco (dados World Press Freedom Index 2018).

          Tudo isso é conspiração?

          “Esperança média de vida tem subido, mortalidade infantil desceu, acesso a cuidados de saúde básicos gratuitos, educação básica gratuita? Comunicação globais gratuitas, transportes globais, segurança social, subsídios de desemprego”

          Como bem disse Nuno, isso é verdade para quem vive numa realidade privilegiada como aquela europeia. Os recém-nascidos estão a morrer a taxas “alarmantemente altas” em Países pobres, afetados por conflitos ou por instituições fracas (último relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infância): segundo o documento, bebês nascidos nessa situação têm 50 vezes mais chances de morrer no primeiro mês de vida do que aqueles nascidos em Países ricos. E são 30 os Países onde a esperança de vida não alcança os 60 anos.

          Podemos dizer “azar”, mas não é. Para nós ter aqui “Esperança média de vida tem subido, mortalidade infantil desceu, acesso a cuidados de saúde básicos gratuitos, educação básica gratuita? Comunicação globais gratuitas , transportes globais, segurança social , subsídios de desemprego” é preciso que alguém numa outra parte do mundo passe a fome ou morra. E não é uma metáfora, é uma realidade.

          Para ter o nosso bonito smartphone com a “comunicação global”, há lugares onde crianças trabalham 12 ou 14 horas por dia para extrair os metais raros (isso sem contar os danos ambientais).

          Para poder encher o depósito do nosso carro ou aquele dum avião para ter os “transportes globais” são precisas guerras, dizimação de comunidades indígenas, destruição de ecossistemas.

          Para ter o nosso prato recheado de comida é preciso que inteiras regiões sejam submetidas ao mono-cultivo, com danos incalculáveis que abrangem o ambiente, as comunidades locais, que atropelam os direitos dos trabalhadores, que empobrecem de forma irremediável o terreno.

          Não, P. Lopes, este não é o melhor dos mundos possíveis e nem se aproxima a isso. Quando uma parte do planeta prospera à custa da outra parte significa que o sistema está podre, com ou sem conspirações. E tem que ser mudado, não vale dizer “mas eu estou bem, que os outros continuem a morrer”.

          Têm existido no passado épocas mais “felizes”? Sim, de certeza.

          Abraçoooooo!!!!

          1. Detalhe: o que precisa preservar não é a liberdade de cartéis midiáticos promotores dos valores que interessam a oligopólios/cartéis econômicos/financeiros, mas sim, a liberdade de expressão, que somente será alcançada quando esses cartéis forem desconstituídos. Assim como se iguala, propositalmente, opinião publicada com opinião pública, eufemismos que interessam a doutrina midiática.

          2. Fiz uma pergunta, uma frase, usaste mais de 34 frases na tua resposta e não respondeste á minha pergunta.”Têm existido no passado épocas mais “felizes”? Sim, de certeza.” estou disposto a admitir que tenhas razão, para isso, basta que me digas apenas uma ? A minha posição é : Temos conhecimento e ferramentas como nuca tivemos na historia da humanidade para resolver os nossos problemas! Porque é que esta posição gera tanta hostilidade e interpretações deturpadas?

            1. Olá P.Lopes!

              Não há hostilidade, acho ser mais “estranheza”. Achar que este é o ponto mais alto atingido pelo Homem é estranho e também deprimente. Milénios de desenvolvimento para alcançar isso?

              Mas vamos à resposta. Retomo a pergunta que fizeste ao Nuno: “diz-me apenas em que momento da história humana esta civilização esteve melhor que agora?”.

              Depende do que entendes com o termo “melhor”. “Melhor” significa com mais tecnologia, mais mobilidade, mais informações? Então sim, esta é a melhor época. Mas achas que no passado todos tiveram sempre e só estes objectivos?

              Sem ir ao passado, pega numa tribo da Amazónia nos dias de hoje: não têm televisão, não têm smartphone, não têm segurança social nem reforma. Mas é isso que eles querem? Ou estes são os nossos objectivos e achamos que devem ser também os deles? E por qual razão deveriam ser os objectivos deles? Não pode ser que estes “primitivos” vivam perfeitamente integrados no ambiente deles e não precisem de mais nada?

              Há comunidades que entraram em contacto com a nossa sociedade e preferiram continuar a viver segundo o estilo delas: os Huli da Nova Guiné, os Dogon da África Ocidental, os Nenet da Sibéria, os Himba da Namíbia, os caçadores Kazaki da Mongólia, os Bayaka da República Centro-africana, os Asaro e os Chimbo outra vez da Nova Guiné… Por qual razão? Porque não precisam dos nossos objectivos. São mentalmente limitados ou de alguma forma inferiores por preferir um estilo de vida e um objectivos diferentes? Acho que não: simplesmente, fizeram uma comparação e viram que as nossas soluções não eram as soluções deles. Porque “melhor” ou “pior” depende disso: do que procuras.

              Ámen 🙂

              Abraçooooo!!!!

              1. Completamente de acordo, mas mais uma vez não respondeste á pergunta, esses são povos que durante o sec. XX contactaram com a nossa civilização e não foram destruídos, foi respeitado o seu direito de escolha, o que não aconteceu até ai, como foi um trágico exemplo o das tribos índias da América do Norte, Incas,Maias, aztecas, e outros que nem nuca chegaremos a ouvir falar …, parece que algo evoluiu na nossa mentalidade, respeitamos o direito á diferença e isso aconteceu tudo …no sec. XX ! o momento histórico que neste post todos demonizam, todos nós mesmo diferentes temos um objetivo comum, a convivência pacifica entre as diferença. Tentando-me contrapor consegues dar um exemplo perfeito daquilo que eu penso e ainda assim achas estranha a minha posição.

                1. Olá P. Lopes!

                  Então, se percebi, afirmas que afinal este é o melhor momento histórico da nossa sociedade: não “em absoluto” mas “até hoje”. Isso é diverso daquilo que tinha entendido antes, houve um problema de comunicação: eu tinha percebido que esta fosse algo como “a melhor das sociedades possíveis”.

                  Mmmhhhhh… olha, se “este momento” incluir os últimos 130 anos estamos de acordo. Isso: 130 anos, última oferta!

                  Porque a minha ideia é que o “top” foi alcançado no período entre a passagem entre ‘800 e ‘900, até o começo da Primeira Guerra Mundial. Pensa nisso: são apenas 130 anos, o que são 130 anos perante o infinito?

                  Neste aspecto sim, este é o melhor momento histórico da nossa sociedade até hoje. Acho difícil negar isso: do ponto de vista tecnológico, da mobilidade, da circulação das informações,
                  de tudo aquilo que indicaste.

                  Mas atenção: o “melhor momento histórico” coincide com a altura bastante arriscada porque a nossa espécie, ao aumentar as suas competências em vários sectores, tem progressivamente aumentado as suas responsabilidades também e hoje é altura de decisões fundamentais. Esta sociedade não pode continuar a destruir o ambiente onde também nós vivemos. Mas este é outro assunto.

                  Pensa nisso: só 130 anos…

                  Abraçoooooo!!!

              2. Além de ser um servo seduzido por determinadas facilidades/comodidades cujo preço é pago na mais alta conta cujo próprio servo não consegue avaliar.

                1. Olá Chaplin!

                  Eu também tinha interpretado assim as palavras de P. Lopes, mas afinal o discurso dele é um pouco diferente. O que entende é que este é o ponto mais alto alcançado “até hoje”: isso não significa que seja o melhor em absoluto, o melhor de todos os possíveis. Simplesmente, hoje temos meios (não apenas materiais) que antes não tínhamos: o que não pode ser negado.

                  Um exemplo é a circulação daquelas que são apelidadas (correcta ou incorrectamente) de “teorias da conspiração”: hoje Chaplin pode escrever acerca dos Sionistas e, na mesma altura, eu posso ler quanto Chaplin escreve, apesar da distância que nós separa. Uma vez existia só a imprensa e uma troca de ideias podia demorar meses.

                  Hoje, o nível tecnológico permite que eu demonstre que Chaplin está errado no prazo de segundos lolololololololololol

                  Claro, depois há o discurso do controle, da censura, do se aquilo que achamos for a verdade… sim, este discurso existe porque melhoraram os meios ao dispor dos regimes dominantes também. Mas aqui o discurso fica mais complicado, muito mais complicado.

                  Abraçoo!

  4. Pelo que me é dado saber da história humana, tudo que num determinado momento e lugar for tomado como impensado, receberá todo tipo de oposição porque a tendência geral é a conservação do que existe, se está funcionando bem para quem manda.Então o problema básico do conservadorismo das ideias pode bem ser a hierarquia entre os mandantes e os mandados nos humanos. Na medida em que o número de mandantes se afunila, e seus controles prosperam, as ideias que beneficiariam uma maioria escasseiam, o que é previsível.
    Penso que muitas tecnologias de poder tem sido implementadas na maioria para a decadência do hábito de pensar independentemente, o que é ponto de partida para o surgimento de ideias diferentes:
    1. O mito (criado à propósito)de que as novas tecnologias informam ao toque de um botão e que comunicação e informação são a mesma coisa.
    2, O abandono de um recurso eficiente de pluralidade de pensamentos guardados em livros e documentos, pois a informação “necessária” está a disposição. Mais da metade da população brasileira nunca leu um livro sequer! Interessante, não?
    3. A confusão (também incentivada como tantas outras formas de violência) entre ser radical na defesa de um ponto de vista, ou seja, ir até as suas raízes, seja lá o que pense o interlocutor, e a discussão frívola e vazia que limita-se a uma “partida” para ver quem é melhor, e não quem contribui mais com informações, independente do que pense. É uma doença grave entre os acadêmicos e eruditos.
    4. A decidida introdução de drogas na alimentação ou no emprego de “remédios” que decididamente promovem o cansaço mental e a capacidade de ir além da última coisa repetida.
    5. A educação escolar que, além de usar muito tempo das pessoas, as introduzem e mantém dentro da “caixa” do pensamento único, até depois de adultos, com a suposta necessidade de escolarização permanente. (Lembrando que a escola tal como a vivenciamos hoje ainda, em todo o mundo, é contemporânea do surgimento da “facção” jesuítica no seio da igreja católica)
    6. Como salientou o Chaplin, o sequestro do tempo dos indivíduos, senão pelo trabalho, por toda espécie de drogas que implicam no vício dos jogos, na recreação, no entretenimento, na depressão, e mesmo no uso excessivo do álcool e de outras drogas ilegais contaminadas, oferecidas em larga escala para a população.
    7.A devoção a um único tipo de crença religiosa, sem conhecimento sequer da existência de outras, isso referido ao sagrado, à politica, à organização social e econômica, ou seja, um hábito cada vez mais incentivado, porque a única coisa que interessa é ganhar dinheiro e aparentar sucesso, hábito esse de passar a vida sem saber nada da vida e dos mundos.
    Vou parar por aqui…tem muito mais, e a superação disso, embora muito difícil, é decisão individual, desde que o sujeito(a) saiba que todas as formas de decadência do pensamento existem, e funcionam em detrimento da humanidade, mas favorecimento do mundo ideal de minorias.

    1. Oi Maria! Fico em séria dúvida quanto ao que seria mais nocivo. Se o não acesso a cultura ou a lavagem cerebral que empregna ao seus servos.

    1. Parece que o problema não se restringe somente área música…

      Nascidos depois de 1975 têm QI mais baixo que seus pais, conclui pesquisa.

      “Pesquisadores do Centro de Pesquisa Econômica Ragnar Frisch (Noruega) concluíram que o QI de milhares de pessoas do país tem caído lentamente durante as últimas décadas…”
      (…)
      “Não é que pessoas burras estão produzindo mais descendentes do que as pessoas inteligentes. É algo relacionado ao ambiente, porque estamos vendo as mesmas diferenças dentro das famílias”, explica Rogeburg à CNN.”
      (…)
      “Estudos semelhantes em outros países como Dinamarca, França e Países Baixos também concluíram a mesma coisa. Uma equipe de pesquisadores britânicos percebeu recentemente que os resultados de testes de QI têm caído entre 2,5 a 4,3 pontos a cada década desde o final da Segunda Guerra Mundial…”

      Fonte: hypescience.com/nascidos-depois-de-1975-tem-qi-mais-baixo-que-seus-pais-conclui-pesquisa/

  5. Os seres humanos antigos eram bastante mais inteligentes do que os actuais. A tecnologia actual é empírica, portanto, não é extraordinária. Extraordinários eram os seres humanos antigos que com pouca tecnologia fizeram obras descomunais. E está provado que a massa cerebral tem diminuído nos últimos séculos. Deve ser por isso que pessoas extraordinárias não existem actualmente. Será normal este retrocesso ou será provocado por vários factores onde se pode incluir uma alimentação excessiva e pobre, o nosso afastamento da natureza, a vida em grandes metrópoles com tudo o que isso acarreta? Não sei, mas que o pessoal hoje em dia está mais burro, isso é inegável.

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