Os soluços independentistas da Europa…

O tempo de leitura estimado deste artigo é de 7 minutos

Encontrei um artigo do jornalista francês Bernard Guetta que assim começa:

Ouçam as pessoas ao vosso redor. Perguntem a amigos que moram em outros países da União. Todos fazem a mesma pergunta: “Como é possível que os Estados Unidos proíbam de negociar com o Irão?”.

Nada disso. Se alguém ouviu um amigo fazer esta pergunta, ligue para um médico porque o amigo tem problemas.

As pessoas estão ocupadas em outras coisas, mais importantes: futebol, porno, smartphone, política local (mas só as mais cultas). Depois ainda futebol, porno e smartphone. E basta porque já fartaram-se da política. Se alguém tentasse procurar informação encontraria os órgãos de informação unidos em coro: a Síria é má, hezbollah é mau, o Irão é mau, israel é atacado pelos palestinianos com pedras de destruição maciça (por isso têm que responder com balas). E Trump? Trump é louco, mas como é que conseguiram elege-lo, estes americanos são malucos, mas o mundo é assim, as estações já não são que eram, etc..

Os problemas das empresas europeias ficam na página 23 do jornal, secção Economia, a primeira a ser utilizada para limpar os vidros. E nas televisões ocupam programas com títulos como “E de Economia”, que como audiência têm não os que jogam em Bolsa (não precisam) mas os reformados com Alzheimer ou donas de casa ao telefone com uma amiga.

E é uma pena, porque com um pouco de atenção seria possível assistir ao primeiro ímpeto… ok, exagerei: ao primeiro soluço independentista da União Europeia. Continua o arguto Guetta:  

O problema decorre do fato de que Washington ridiculariza a nossa soberania e Donald Trump alimenta a preocupação ao decidir retirar-se do compromisso nuclear alcançado entre as grandes potências e o Irão.

Meu caro Guetta, não vamos dizer disparates: Washington ridiculariza a nossa soberania há 73 anos e todos na Europa têm consciência disso, não era preciso o simpático Trump.

Hoje, em toda a Europa, opinião pública e governos, incluindo o Reino Unido, condenam Donald Trump e descobrem que a primeira potência do mundo tem, há muitos anos, leis que lhe permitem impor a sua política a outros estados, proibindo que as empresas entrem no mercado americano se o desejo for fazer negócios com países que os Estados Unidos querem boicotar.

Sim, exacto: há 73 anos.

É basicamente uma chantagem, e agora que os europeus perceberam isso, despertou um sentimento de aborrecimento na União, levantando várias questões e desencadeando uma consciência, a primeira manifestação de um nacionalismo europeu no qual Emmanuel Macron se apoiou no seu discurso em Aachen.

Com a sua decisão imprudente, Donald Trump forçou a abertura de um debate europeu

A última é porventura a única frase inteligente de todo o artigo. Porque algo na Europa se passa. Não nas ruas ou nas praças, onde o Valium corre com alegria, mas nas Bolsas de Valores, nas reuniões dos Conselhos de Administração, nos restaurantes à la page. Aí há pessoas bem vestidas que pousam o charuto cubano e dizem “Não, isso não pode ser”. E se as empresas dizem “não” também o poder político diz não, porque a carreira dum político pode acabar num ápice.
 
É por isso que Macron afirma:

Se aceitarmos que outros poderes, mesmo se aliados, estejam em condições de decidir por nós a nossa estratégia diplomática e de segurança, então perderemos a nossa soberania.

Uma frase ridícula, o rugido da formiga, mas que demonstra como algo no Velho Continente está a mudar. E está a mudar mesmo: as empresas europeias não querem abdicar dos negócios com o Irão, um País com 77 milhões de consumidores e um PIB (Produto Interno Bruto) que é o mais elevado de todo o Médio Oriente (Arábia Saudita e israel incluídos). Os governos europeus não podem meter-se contra as suas próprias empresas. Até Angela Merkel, possivelmente a que mais rastejou perante as ordens de Washington, levanta o tom e critica abertamente a Administração americana. Nunca visto antes.

O choque entre os Poderes…

Mas o assunto é muito importante porque é o reflexo da guerra entre os mais altos Poderes.

Bernard Guetta

Pegamos no jornalista citado antes, Bernard Guetta: é judeu, muito bem inserido na comunidade hebraica europeísta francesa e trabalha em jornais como L’Express (que é de propriedade de Patrick Drahi, judeu), L’ Expansion (sempre de Drahi), Liberation (um símbolo da Esquerda francesa que em 2006 recebeu na Direção o financiador Édouard de Rothschild e que agora é gerido por Drahi) e L’Obs (social-democrata com Drahi entre os acionistas).

É por isso que o jornalista vê pessoas desnorteadas na rua que gritam “Donald, o que fizeste, Donald!”. Normal que apoie as ideias europeístas de Macron, porque o projecto da União Europeia é funcional ao desenho das elites económico-políticas europeias. É normal também que Guetta apoie Macron, que é funcionário bancário de Casa Rothschild: não se cospe no prato onde comemos.

Stop, pára tudo: aqui há um problema. Sabemos que os Rothschild são judeus e sionista; Patrick Drahi é judeu e sionista (investe milhões em estruturas de comunicação e redes de informação em israel), o jornalista é judeu, o dinheiro é de editores judeus: como é que falam contra Donald Trump, o melhor aliado de israel sionista?

O ponto é mesmo este: os Poderes não estão todos do mesmo lado, há uma luta muito dura. As corporações não estão todas do mesmo lado. E até no interior do sionismo há duas visões que podem perseguir o mesmo objectivos mas de formas profundamente diferentes.

É apenas uma questão económica? Fundamentalmente sim, é económica, pois um País ou um continente podem ser controlados só se a economia estiver nas nossas mãos. Mas há algo mais, há uma visão política do mundo que é diferente: com Obama o planeta viajava na direcção da globalização, com Trump o percurso parece ser inverso. E isso significa décadas de paciente preparação atiradas para o lixo, com um dos Poderes que agora rema contra.

…e a Europa no meio.

O rugido da formiga é na verdade apenas o eco dum som bem maior: é o som da guerra, não em
nome dum inexistente nacionalismo europeísta; e nem é uma “tomada de consciência” por parte dos políticos do Velho Continente. Pelo contrário, continua a lamber-se a mão do dono: só que este já não tem um amigo sentado em Washington.

Na Casa Branca agora está o simpático Trump que encontrou em israel sionista o aliado perfeito: ambos estúpidos e hipervitaminizados, mostram os músculos e pensam que o mundo é dos fortes. E é, a pacto que além dos músculos haja dois dedos de cérebro também. Este é o ponto fraco deles.

Vice-versa, temos que admitir: a táctica da outra vertente do Poder tem outro nível. A globalização é um projecto complexo, subtil, que pode demorar décadas mas que traz benefícios de longo prazo e uma hipótese acerca do futuro que não tem limites (para quem gere o poder, óbvio). A Esquerda-liberal europeia e aquela americana adoraram esta visão, ao ponto de casar não apenas o livre-mercado em molho capitalista mas até o Poder atrás deste. Dificuldades ideológicas? Sim, claro, mas nada que um cheque com muitos zeros não possa ultrapassar.

Dois blocos, duas visões diferentes, uma guerra de poder, protagonizada por forças económicas preponderantes que disputam a supremacia também política. A União Europeia sai da toca e faz uma clara escolha de campo. Sem surpresa, escolhe a continuidade, optando pelo grupo composto por uma sopa de Esquerda radical-chic, Direita ex-atlantista, sionismo soft, poder económico transacional globalizante.

Entretanto, em Italia parece pronto o governo de Cinque Stelle e Lega, dois movimentos anti-UE que agora estendem a mão para Putin; a Áustria é governada por uma coligação entre Direita e extrema Direita; a República Checa está no meio duma fobia geral contra os migrantes; Polónia e Hungria estão nas mãos dos nacionalistas (como Soros obrigado a abandonar Budapeste); os Países
Baixos e os Escandinavos insistem num rigor orçamentário do
qual Emmanuel Macron pediu à Alemanha que se
libertasse; na mesma Alemanha há quem duvide do Presidente francês; e em Portugal há a crise do Sporting Clube de Portugal, que não tem nada a ver com os problemas europeus mas que, enfim, não deixa de ser uma prioridade absoluta.
 

Ipse dixit.

Fonte: Internazionale

5 Replies to “Os soluços independentistas da Europa…”

  1. Olá Max: respondes aqui uma pergunta que me fiz antes: se Trump é servo do sionismo, porque o sionismo lhe prega peças.Sim, os podres poderes sempre se desencontram em matéria de quem rouba uma fatia maior dos escravos, e a Europa é vassala dos EUA desde o final da segunda guerra. Mas, entre os muito ricos acaba havendo uma espécie de divisão de territórios de influência, um consenso que os pobres nunca souberam alcançar e administrar. Todos estes podres poderes sempre estão de acordo com um fim: dominar, submeter, ganhar, sejam globalistas ou não.

  2. Pois Maria. Contrariamente a alguns Leitores do blog (Chaplin, por exemplo, mas não só) não acho ser o sionismo um bloco monolítico que decide os destinos do mundo: podemos ver como haja pelo menos duas visões sionistas em contraste entre elas. Da mesma forma, não há só uma elite, mas pelo menos duas. Pelo menos.

    Não me esqueço o que disse Barnard quando lhe perguntei "quem fica atrás": há uma luta entre os poderes, uma luta pela supremacia. Mas não foi esta a história de todas as sociedades?

    O problema é aquele que tu descreves: "Todos estes podres poderes sempre estão de acordo com um fim: dominar, submeter, ganhar, sejam globalistas ou não". Neste aspecto não há novidade porque a análise de Marx está certa: a história de todas as sociedades (daquelas que conhecemos melhor, entendo) é o confronto entre diferentes classes sociais decorrentes da "exploração do homem pelo homem".

    O problema está em encontrar uma solução para sair deste círculo vicioso.

    Grande abraçooooooo!!!

    1. Max esse funcionamento apercebi justamente quando do link do EXP(que até lhe voltei a pedir, assentava como uma luva no que se veio e está a passar), e exactamente essa parte do teu dialogo com P. Barnard com que se me recordo discordavas dos seus pontos de vista (até falavas precisamente em "diálogos um pouco acalorados".
      A suspeita que pessoalmente sempre tive foi essa, mas achava que devia ser "macaquinhos no sótão" mas depois desses "despertares". E ao ler mais e mais as coisas encaixavam(.
      Acho que ainda muito vai acontecer para se sair desse ciclo, e tenho impressão que se está cada vez mais na mão desses mesmos poderes. E alguns sabem perfeitamente que certas coisas não podem durar, até para continuar.
      Não vejo opções porque mudanças (sem dedo desses poderes) implicam mudar a vida tal como agora a concebemos, e levantamentos contra o poder ou establishment(anos 60 Europa e EUA, nos 70 foi outra história) estão cada vez mais antecipadas/controladas via o digital (o analógico nisso era bom).
      Começamos com o século da mentira queda de prédios, um crash que o bank of international settlements e mais outros avisaram antes de acontecer, com tanta informação mal dada pelo grande irmão condutor chamado media, prosseguir se até atingir o zénite das fake news, falsas implicações sem provas concretas seja em acontecimentos seja em pessoas.
      Mas vejo tudo cada vez mais individualista(e com os valores em decadência, talvez só o capital, família, entreajuda etc) quando os problemas são comuns(seja em que área for trabalho cada vez mais horas e o fruto dele nivelado por baixo, sob supervisão de máquinas que até podem vir a substituir e até as relações humanas mais superficiais e por interesse: isto é a média em parte), para existir uma mudança de paradigma, acho que só com a ajuda da parte menos mal intencionada e responsável da própria elite. Nem acredito que acabei de escrever isto, mas estou a tentar ser pragmático.

      Os governos cada vez mais estão submissos embora até tenham alguma gente bem intencionada.
      A Grécia deu carta branca a syriza, a seguir o mesmo no poder fez um referendo e a resposta popular vamos sair do euro? E parar de aturar estas chantagens,gozo e insulto, pior que está já não fica resposta popular.
      E foi o que foi
      Mas o incrível na história foi o Obama a tentar ajudar e facilitar o pagamento e com menos juros, e a tentar convencer a UE a ser mais branda.

      Peço desculpa pela amálgama, mas isto dava pano para mangas.

      nuno

  3. Na sequência levantada pela Maria. O sionismo foi a vertente de poder que mais se desenvolveu nos últimos 200 anos, mas inserido em algo maior, chamado sistema burguês mundial, cujo acelerador principal atende pelo nome de capitalismo. O grande salto depois do fator econômico, e mais recente, é a total imposição dos valores/princípios burgueses, independentemente de classe social, em que o indivíduo é formado. E aí costumo me perguntar: Como um ser, essencialmente burguês, terá capacidade para verdadeiramente questionar os processos que norteiam a sociedade burguesa? O resto é subdivisões entre segmentos dominantes, todos sob o guarda chuva burguês.

Obrigado por participar na discussão!

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