OBOR: a Estrada da Seda

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Em Julho de 2010, no meio da crise da Grécia, os chineses compraram o porto do Pireu. Na altura, Informação Incorrecta dedicou um artigo ao facto, realçando os esforços da China para ter um cada vez melhor acesso aos mercados ocidentais.

Oito anos depois o verdadeiro objectivo destes esforços é claro: Pequim está a construir a nova Estrada da Seda, uma obra mastodóntica da qual o porto do Pireu era apenas uma peça. One Belt One Road é o nome com o qual o projecto é mais conhecido: uma nova estrada da seda destinada a mudar a fisionomia da economia mundial, algo cujo valor é avaliado em seis vezes o Plano Marshall dos americanos no final da Segunda Guerra Mundial. Vamos observa-lo mais de perto.

OBOR

O governo chinês prevê o estabelecimento de duas rotas comerciais, com a criação de novos caminhos e a exploração dos que já existem:

  • o caminho terrestre: inclui três diferentes rotas para conectar a China com a Europa, Oriente Médio e Sudeste Asiático.
  • o caminho marítimo: está dividido em duas rotas, uma que vai da China à Europa através do Oceano Índico e do Mar Vermelho; outra liga Pequim com as ilhas do Pacífico ao longo do mar da China.

Em pormenor, as rotas terrestres de referência são três:

  • uma começa a partir de Xi’an (a primeira das quatro antigas capitais chinesas), uma cidade localizada no centro do País, e atravessa o centro da Ásia, ou seja, o Cazaquistão, a Rússia (Moscovo) e, finalmente, chega ao Mar Báltico;
  • sempre de Xi’an começa uma segunda rota terrestre que atravessa o Médio Oriente, especificamente Islamabad (Paquistão), Teherão (Irão) e Istambul (Turquia);
  • a terceira rota parte de Kunming, atravessa o sudeste asiático (Tailândia, Myanmar, etc.) e termina a viagem em Delhi na Índia.

As rotas marítimas principais são duas:

  • uma começa no porto de Fuzhou e atravessa o Oceano Índico tocando Malásia, Sri Lanka e Mar Vermelho; acaba na Europa, no porto holandês de Roterdão;
  • a segunda parte sempre de Fuzhou e chega às Ilhas do Pacífico através do Mar da China.

A iniciativa One Belt One Road (OBOR) é supervisionada pela
Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma, pelo Ministro dos
Negócios Estrangeiros e pelo Ministro do Comércio e desempenha um
papel primordial nos planos do governo de Pequim como factor que
contribui para os objectivos de longo prazo: dobrar o Produto Interno
Bruto e criar novos laços internacionais.

O projecto abrange mais de 60 Países, que se disponibilizaram para alinhar os seus planos de desenvolvimento com aquele chinês; envolve cerca de 4.4 bilhões de pessoas (cerca de 63% da população mundial) e 29% do PIB mundial (21 bilhões de Dólares).

Os fundos? O governo de Pequim já anunciou a alocação de 40 milhões de Dólares das instituições de crédito vinculadas à iniciativa, com o fim de apoiar activamente a construção das infraestruturas necessárias para a realização do projecto. O Banco Asiático de Desenvolvimento, liderado pelo Japão, prevê a necessidade de investimentos no valor de 8 mil milhões de Dólares em infraestruturas até o final de 2020. A Indonésia, a maior economia do Sudeste Asiático, gasta 3 % do seu PIB no projecto, o que ressalta a vontade do País de adaptar os seus padrões de transporte e estruturas para permitir um desenvolvimento económico e comercial sustentado.

Como interpretar One Belt One Road? Uma simples resposta à campanha político-militar dos EUA na Eurásia? Na verdade, o OBOR é muito mais do que isso. Com esta iniciativa a China visa desenvolver laços internacionais para remediar
questões como o excesso da capacidade produtiva das empresas locais, manter o alto crescimento do PIB, alocar os seus recursos, reforçar o papel de “guia” em âmbito regional.

O projeto OBOR diz respeito a uma variedade consistente de elementos económicos e não económicos. Entre os primeiros, Pequim investe no desenvolvimento das infraestruturas dos Países envolvidos no projecto OBOR: isso reflecte o esforço para aumentar a capacidade de produção dos parceiros de negócios, bem como o grau de conexão entre a China e os Países ocidentais. Pequim forneceu vários instrumentos para apoiar os investimentos em infra-estrutura, como o estabelecimento de instituições como o Silk Road Fund e o Asian Infrastructure Investment Bank; além disso, há o apoio do Banco da China e da China International Trust & Investment Corporation.

A iniciativa One Belt One Road pode desempenhar um papel fundamental no crescimento económico dos Países mais atrasados ​​na Ásia, no Médio Oriente e no Leste Europeu, oferecendo uma saída comercial de primeira classe e uma conexão directa com os mercados mais distantes e de difícil acesso. Especificamente, uma consequência imediata será a crescente demanda por bens de empresas chinesas envolvidas na construção de equipamentos e infra-estruturas necessárias à implementação do plano. Estas novas ligações comerciais, por conseguinte, estimularão a criação de novas parcerias entre empresas locais e estrangeiras, nos sectores de construção e da tecnologia.

Com a nova rota de seda, do ponto de vista diplomático, a China tem cinco objetivos principais: a coordenação política, o aumento da conectividade, o aumento dos fluxos comerciais entre os Países, a integração financeira e a integração cultural entre as diferentes realidades. Em resumo, os objectivos do OBOR podem ser destacados nos seguintes pontos:

  • contectar os vários Países, facilitando a comunicação entre os governos;
  • conectar as infra-estruturas, para facilitar o transporte de mercadorias e de pessoas entre diferentes Estados;
  • conectar as economias para aumentar os volumes comerciais;
  • conectar os capitais, para incentivar os seus fluxos;
  • conectar as pessoas, facilitando o intercâmbio entre diferentes culturas e sistemas educacionais, incentivando a partilha de tecnologias.

Para atingir esses objectivos, a China deve tentar aplicar políticas voltadas para a estabilização do mercado e evitar uma excessiva desvalorização da sua moeda, o Yuan. O projecto One Belt One Road tem o potencial de estimular ainda mais a economia chinesa, acompanhando assim o crescimento previsto pelo governo de Pequim.

É claro que um projeto político dessa magnitude não pode estar livre de problemas.

Problemas?

Em primeiro lugar, há a oposição dos Estados Unidos perante o Asian Infrastructure Investment Bank. Esta instituição é uma resposta à gestão “ocidental” dos vários Banco Asiático de Desenvolvimento, Banco Mundial e Fundo Monetário Internacional. Consequentemente, de acordo com os planos de Pequim, representa um elemento complementar e competitivo em comparação com as instituições acima mencionadas.

Outro elemento crítico pode ser representado pela invasividade do projecto, que obscurecerá os acordos entre Países previamente estipulados. Além disso, podem surgir dificuldades na aplicação de práticas empresariais tipicamente chinesas em contextos tradicionalmente e culturalmente diferentes, bem como na implementação de políticas comuns em sistemas económicos e jurídicos muito diversos.

Instabilidade política e dificuldades económicas de alguns Países interessados no projecto OBOR podem desempenhar um papel fundamental, bem como a percepção das vantagens ligadas à iniciativa: o nível de cooperação dos participantes tenderia a cair se os benefícios fossem apenas para Pequim.

Mas o maior desafio está mais uma vez ligado ao dinheiro: a situação económica chinesa encontra-se num estado relativamente incerto por causa da crescente desvalorização do Yuan (que facilita as exportações) e a consequente política monetária adotada pelo governo. A volatilidade dos mercados e uma possível diminuição do crescimento do PIB preocupam os investidores e colocam em risco a realização dos objetivos internos de longo prazo, como a manutenção de um crescimento anual do PIB de 6,5%, a duplicação do PIB per capita até 2020 e a passagem da China para uma economia de consumo.

Problemas ou não, ao longo dos últimos anos ficamos a conhecer o modelo seguido em Pequim: nada de ameaças, nada de invasões militares, nada de levantar a voz. A China prefere o silêncio e o trabalho, com resultados que pagam. Da velha Grande Marcha sobrou apenas o partido, que todavia abriu definitivamente a um livre mercado “controlado”.

Não podem existir ilusões: a China atirou-se para o livre mercado, talvez colorido de vermelho, mas sempre filho primogénito do Capitalismo. Aliás: nesta altura a China é o melhor exemplo de Capitalismo em circulação, aquele feito de meios de produção, não apenas de Bolsas de Valores. Nada de Socialismo aqui, nada de Esquerda. Pequim quer criar uma classe média chinesa e os primeiros resultados estão a aparecer. Nem faltam as manchas: as condições de trabalho, as restrições pessoais (só um filho por cada família, a censura em internet), sem esquecer a questão do Tibete (que, a propósito, desapareceu por completo dos radares ocidentais. E quem não acredita no acaso, pode tentar imaginar a razão).

No entanto, a comparação com a segunda economia mundial, os Estados Unidos, é avassaladora: onde Washington mostra os músculos (e ultimamente sem muito sucesso), Pequim constrói o seu futuro peça após peça. E o OBOR é uma excelente peça.

Ipse dixit.

Relacionados:
A estrada da seda – Parte I
A estrada da seda – Parte II
Os novos acordos entre Irão e Índia 

Fontes: Belt and Road Forum for International Cooperation, The State Council of The People’s Republic of China: The Belt and Road Initiative, LehmanBrown: The Belt and Road Initiative (ficheiro Pdf, inglês), Lowy Institute: Understanding China’s Belt and Road Initiative (ficheiro Pdf, inglês), Corriere Asia

11 Replies to “OBOR: a Estrada da Seda”

  1. @Max
    Interessantes estes teus 2 ultimos artigos.
    Os outros tambem são mas estes destacam-se. Em vez do marasmo habitual de de guerra, sancoes, austeridade, declinio e corrupção, que a europa e os eua nos habituaram e bom falar de ventos de mudança, novas referencias e visoes de estar e fazer no mundo. So quem nao se interessa pelo que se passa no mundo, ainda nao viu que o eixo do mundo ja esta na asia, que vivemos momentos de mudanças tectonicas que mudarao por completo o mundo por muitos anos.

    Sugiro os artigos de Pepe Escobar (nao confundir com o traficante Pablo Escobar) e do Asia Times que nos dao um visao do mundo diferente e com prosperidade. Bem… a prosperidade sera para eles , mas tambem e quem faz por isso que a merece.

    EXP001

  2. As duas últimas matérias clarificam o nível de atividade/iniciativa asiática. Mas há uma questão primordial que não pode ser desprezada. Os segmentos que de fato ditaram e ditam os EUA são os mesmos que tem conexões com segmentos similares asiáticos. Identificar o quanto essas relações supranacionais determinarão o futuro é o problema. Imaginar que Rússia, Índia e China são totalmente independentes deste poder supranacional é ingenuidade…

    1. @Chaplin

      Não é bem assim, estão em Hong Kong e Macau(regiões com estatutos especiais, um Hubb e uma las vegas em que casa ganha sempre), aí estão conectados.
      O resto não parece, basta ver o bibi e o peluca loca e comparsas da grande banca, um com o Irão e o outro com a Coreia do Norte.
      Se tudo está bem para uma administração e outra, disfarçam muito, mas muito mal.
      Saindo dos doidos em relação às obras (não bombas)
      Quem guarda ou faz a segurança destas construções a academii/ Blackstone(cliente que paga mais, capitalismo 1.01) ao mesmo tempo que instrui e facilita informação.
      O mesmo em latitudes mais elevadas. Vendo bem (excepto o conglomerado militar e da banca) até ganham com isso, muitos mais consumidores e sem as guerras e palermices e genocidios habituais.
      Não produzem nada de útil, dívida e morte.
      A Índia está a ser tentada? Sim.
      Mas os aviões Sukoy russo-indianos e muito mais além do Irão(porto indiano), o Paquistão? O Bangladesh que quer ligações á China via Birmânia/Myanmar(a propósito estanho o caso dos rhoinga?). A Índia é óbvio que quer quem dê mais garantia$.
      Ora contas e população qual o local mais interessante
      China
      Índia
      Indonésia
      Paquistão
      Bangladesh
      Irão
      Repúblicas Ásia Central
      Rússia
      ÁFRICA*Quem investe forte e feio*? E os africanos ou a organização de estados africanos o que acham, é ir ao YouTube
      Entre dois males o menos mau
      E com isto tudo já foi mais de metade da população mundial, sem uma bala!
      etc…

      É pena é o teu país ficar a ver, sempre é melhor participar em algo em pé de igualdade e com contrapartidas que ser submisso aos ditames do vizinho do norte.
      E agora estão com menos desemprego, mais desempenho e desenvolvimento .modo irónico off/
      ^^^^^^^
      Vendo bem entendo a tua desconfiança

      Abraço
      nuno

    1. @Romeu Campos

      Obrigado pelo link.
      Esta e uma daquelas noticias que fazem por passar desprecebida a todo o custo. Aqui pela europa nao tinha ouvido nada acerca disto. Ai no Brasil que efeito esta a ter?

      Na realidade creio que estes factos virem ao cimo pouco vai mudar as coisas. O jogo esta totalmente viciado. Quem esta minimamente informado e tem um minimo de capacidade de raciocinio ja sabia que todo este reboliço tem pouco a ver com fazer justiça mas sim mais a faze-la parar e motivações politicas.

      EXP001

    2. Se informe melhor. Toda movimentação do tal duplo expresso está focada no fim da Lava a Jato, não pela promiscuidade entre seus procuradores e o sionismo estadunidense, mas pelo fato das investigações não conseguirem mais blindar a Trading suíça do petróleo/gás, que está atolada em corrupção, onde o "defensor" do nacionalismo e blogueiro em questão (sob o pseudônimo Romulus Maia)consta em sua folha de pagamento como um de seus principais "formadores" em favor do internacionalismo.

  3. Vejo a nova "rota da seda" como via de dois sentidos, não da china para o Ocidente, mas futuramente o contrário. É cada vez mais notório a decadência do "status Quo" ocidental com baixa de poder de compra, e cada vez mais tornando-se mão-de-obra barata. Tudo irá trocar o ocidente pelo o oriente.

    1. Eh pa … oh Bandido , la estas tu. O que interessa é que o Fê Cê Pê FCP ganhou ao Sporting.

      Agora a sério. Vladimir Putin (um verdadeiro estadista que ficara na historia)
      não se tem cansado de manifestar as preocupações Russas,
      não se tem cansado de avisar da deriva perigosa em que o mundo entrou,
      não se tem cansado de tentar construir consensos baseados no respeito, interesse e cooperação mutua.
      Tudo o acima escrito e visivel em todos os discursos dele, ate a coisa de um ano e meio na 70ª Sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas onde diz que os crimes do ocidente nao serao mais tolerados (Yugoslavia, Iraque, Libia, Siria, Ucrania, o bullying contra o Irao, Venezuela, Coreia do Norte, Russia, China).
      A paciencia esgotou-se tal como a esperança de alguem no ocidente os ouvir e levar a serio. Como no ocidente so entendem a linguagem da força, os discursos de Putin estão a tornar-se mais duros o que revela um aumento gradual na confiança das capacidades do seu pais e que se assiste a uma mudança de equilibrios no mundo.
      Por ca na europa o discurso de Putin pouco foi difundido e as opinioes oscilaram na histeria bipolar habitual, se por um lado desprezam as capacidades da Russia dizendo que e tudo sucata e continuamos a ser invenciveis por outro lado ja andam em modo de panico que vamos ser atacados.
      Se por ca pela Europa levam a serio o que foi dito?
      Provavelmente nao. Os nossos queridos lideres europeus vassalos de Washington sentem-se seguros e prontos a fugirem para um bunker para eles caso a coisa corra mal. Ao contrario dos Russos , Chineses e Norte Coreanos que constroem bunkers para as populações tambem.

      EXP001

Obrigado por participar na discussão!

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