A dissonância cognitiva do Ocidente e sua origem arcaica – Parte I

O tempo de leitura estimado deste artigo é de 9 minutos

Começa aqui uma breve série (duas partes) dedicada à Dissonância Cognitiva, algo que provocará uma certa sensação de sono nos Leitores. Tentem ter paciência: o assunto não é fácil e o objectivo final é muito arrogante, pois trata-se de individuar quando na nossa sociedade apareceu o hábito de dizer uma coisa e fazer outra (é esta, simplificando, a Dissonância Cognitiva).

Antes de começar, dois avisos:

  • o texto original não é de minha autoria mas dum blogueiro que estimo bastante, o autor de Tra Cielo e Terra. Eu aqui limito-me a fazer a obra de tradução e resumo.
  • a teoria não é científica no sentido literal do termo apesar de estar fundamentada em obras bem conhecidas (listadas no final da segunda e última parte). Isso significa que as conclusões são opináveis (aliás, posso já dizer que não concordo inteiramente com as conclusões do autor, sem retirar nada ao interesse do trabalho).

Um exemplo de Dissonância: os Estados Unidos rogam a paz e a democracia. Como? Com as armas. Qualquer indivíduo com dois dedos de cérebro acharia isso muito estúpido, mas não nós: justifica-se a “manutenção da paz” com arsenais nucleares prontos para destruir a vida na Terra porque andam por aí pessoas más, inteiros Países com religiões más, depois há o terrorismo, e nunca se sabe o que mais pode aparecer. Todavia, o que fica é a tal Dissonância: manifesta-se uma vontade, actua-se com base numa outra.
E não é um fenómeno novo: ao percorrer a História ocidental o que pode ser frisado é a constante presença da Dissonância. Pensamos nas palavras de amor de Jesus e nos exércitos dos Papas; no conceito de Perdão dos Evangelhos e nas fogueiras que queimavam bruxas e heréticos. Como afirmado: história muito velha. Mas bem conhecida por quem detém o verdadeiro Poder: porque a Dissonância é também uma eficaz arma para o controle das massas. Mas quando tudo isso começou?

Para tentar saber o “quando” temos que iniciar uma viagem muito longa.
Sentem-se comodamente e fechem os olhos. Aliás, não: abram os olhos.
EU DISSE PARA ABRI-LOS!
Isso, obrigado. É que depois não podem ler…

A herança

Muito do que somos e o do que pensamos, do que acreditamos e dos nossos valores, é o irremediável resultado do ambiente em que nascemos, da cultura que herdamos e das lições que aprendemos desde os primeiros meses de vida. Muitas das verdades que consideramos “incontestáveis” são concepções que os nossos antepassados ​​passaram de geração em geração, ao longo de milhares de anos.

Assim também na nossa sociedade ocidental são utilizados conceitos-chave para descrever as próprias ideias de civilização, como o igualitarismo, a cooperação, a fraternidade, a generosidade, a coragem, a sinceridade, a honra, a compaixão e a justiça. Podem ser meras hipocrisias, no entanto essas qualidades são consideradas nobres a priori, com base nas quais são fundamentados o Direito contemporâneo e todas as nossas instituições.

Todavia é evidente que existe uma total dicotomia entre os valores fundamentais da sociedade ocidental e a maneira como esta opera e operou ao longo dos séculos. A nossa economia baseia-se na prevaricação, enquanto a “esperteza” oficialmente condenada continua a funcionar nos bastidores, onde é considerada um bem essencial para a sobrevivência diária; e no que diz respeito às instituições e aos sistemas de governo que levaram os povos para guerras e prevaricações, isso tem sido a norma ao longo dos séculos.

Seria muito fácil explicar essa dicotomia como uma mera expressão da natureza hipócrita dos seres humanos, tal como diferentes impulsos que moram na alma de cada homem: o bem e o mal, a vontade de prevaricação e a empatia, a agressividade e a compaixão, são todas coisas que vivem ao mesmo tempo em cada um de nós. Isso é inquestionável. Mas não haverá mais? Será que também a sociedade cresce segundo valores herdados, transmitidos de geração em geração? Será que aqui existe a tal “duplicidade”?

Dado que a sociedade é feita por homens, a resposta só pode ser positiva: na nossa actual sociedade em particular, existem duas morais claramente distintas que coexistem e se espalham, abertamente uma, de forma subtil e não oficial a outra. Mas quando nasceu isso? Como se formou ou foi construído?

É preciso voltar atrás, no início da nossa civilização, há alguns milhares anos, quando duas culturas diametralmente opostas se encontraram na antiga Europa: entraram em conflito e, por fim, fundiram-se dando origem à história como a conhecemos, semeando as bases para a criação da nossa mentalidade moderna.

Os indo-europeus

Ainda há muitos aspectos obscuros em relação à história dos indo-europeus, mas os factos estabelecidos oferecem uma visão suficientemente clara para ter uma ideia básica de quem eram e como actuaram as populações agrupadas sob esta denominação.

Sabemos que falavam um idioma do qual derivam muitas das línguas utilizadas hoje no planeta: as línguas de origem indo-europeia são as neo-latinas (como português, italiano, francês, espanhol, etc.), as germânicas (alemão, holandês, inglês …), o grego, o iraniano e algumas línguas indianas.

Era um povo que usava palavras como paeter, meter,  os nossos “pai” e “mãe”, os gregos pater e mitera, os ingleses father e mother, e contava, há sete mil anos, duma maneira bastante familiar: oinos, dwo, trjes, kwettwor, penqwe, sewks, septm, hocto, newn, dectm. Nem é preciso traduzir.

Era, portanto, um povo capaz de transmitir o seu próprio idioma e espalhá-lo para os quatro lados do planeta ao longo dos seguintes milénios, capaz de deixar uma marca decisiva na cultura e na mentalidade das pessoas que estavam gradualmente a sujeitar. Porque os indo-europeus sabiam como impor-se: eram guerreiros, conquistadores. E eram lutadores habilidosos, usavam cavalos, armas e honravam os deuses do céu.

Estes são alguns pontos essenciais para começar a entender a mentalidade e a ideologia que os indo-europeus trouxeram com eles: consideravam a coragem, a força física e, no esquema de valores, um homem tinha o direito de tomar posse do que era possível obter com a violência. O direito à conquista era uma regra, a guerra um acto glorioso que definia um homem e um povo. É de extrema importância observar como a ideologia subjacente dos povos indo-europeus e as suas ações coincidiram perfeitamente: não elogiavam a paz nem rogavam a proteção e o respeito dos fracos. A força física, a habilidade dos guerreiros e a prevaricação eram valores não apenas “de fachada”.

Seria um erro defini-los como “selvagens”, pois esta é uma ideia moderna: estamos a falar de 7.000 anos atrás, altura em que já a sobrevivência diária era para muitas comunidades um desafio. Os indo-europeus não eram “selvagens”: eram, simplesmente, fruto dos tempos deles.

Este povo, então, com o seu espírito de conquista, mudou-se das estepes da Ásia Central (duma localização original ainda objecto de debate, mas provavelmente da Rússia do Sul) e, em várias vagas, também chegou à Europa, a partir de 5.000 a.C. e até o II milénio antes da era histórica. Nem sabemos por quais razões tiveram que emigrar, se foi uma livre escolha ou uma necessidade.

Fonte: Aventura e História
Os antigos povos europeus

Seja como for, quando chegaram na Europa encontraram as populações que aí viviam há milhares de anos: povos que tinham desenvolvido uma sua própria cultura, com características muito específicas. Também desses povos arcaicos sabemos pouco, mas as pistas arqueológicas sugerem certos aspectos: eram pessoas sedentárias, que viviam principalmente da agricultura, possuíam excelentes habilidades nos trabalhos em terracota e produziam ferramentas bem-feitas, em particular vasos e recipientes.

Viviam em aldeias e cidades de pequeno e médio porte, em centros habitados sem significativas obras defensivas. Praticavam uma agricultura de subsistência, na qual a intervenção humana na exploração da terra de forma sistémica era limitada. E os produtos agrícolas eram complementados com a caça e a criação; portanto, não havia produção excedente (o surplus) adequado para ser armazenado ou trocado por outros bens (um factor determinante que mais tarde marcará a divisão da sociedade em classes).

A Europa antes da chegada dos indo-europeus

Os povos desta antiga Europa eram essencialmente pacíficos. Enterravam os mortos e os túmulos não mostravam diferenças substanciais quanto aos objectos que acompanhavam os falecidos: a partir disso, deduziu-se que não havia grandes diferenças de status social entre os habitantes. A religião estava centrada no culto das divindades aquáticas e terrestres, o que é obviamente consistente com o facto de que a própria terra era a principal fonte de sustento. Os cultos, que estavam referidos à fertilidade da terra, à morte e ao renascimento da Natureza, tinham uma importância primordial, bem como a figura da Grande Mãe, a deusa que bem resumia a visão da criação daqueles povos.

Com base nesses dados, alguns autores chegaram formular a hipótese duma antiga Europa pré-indo-européia como uma espécie de idade de ouro matriarcal, onde uma sociedade pacífica e sem conflitos se desenvolveu em torno do culto da Mãe Terra, um lugar onde a violência e a prevaricação, embora inevitavelmente presentes, eram estigmatizadas e banidas; uma cultura varrida pela chegada dos maus invasores, patriarcais e sedentos de sangue. Muito provavelmente tudo isso é apenas uma excessiva idealização; todavia não há dúvida de que as evidências descrevem uma cultura predominantemente pacífica e igualitária, que honrava nos cultos a Terra e os frutos dela.

Portanto, quando os povos indo-europeus chegaram à Europa e entraram em contacto com essas populações, o resultado do choque já estava escrito: uma cultura guerreira consegue facilmente subjugar povos que levam uma vida predominantemente pacífica, quase sem armas. Nos últimos tempos é admitido que a “invasão” pode ter acontecido de forma menos violenta: mas, apesar disso, parece evidente que os indo-europeus conseguiram impor-se como novos governantes, e da fusão destes com os povos nativos originários mais tarde nasceram as comunidades que definiram o destino do Velho Continente (e, por consequência, de boa parte do planeta): celtas, gregos, alemães, eslavos, itálicos, ibéricos…

Acaba aqui a primeira parte do texto: a segunda e última aparecerá em breve. Até lá os Leitores terão que ficar na dúvida, em pulgas perante a questão: como acaba esta emocionante história? Para tentar aliviar o sofrimento, eis algumas sugestões:

  • o povo indo-europeu ataca o povo pacífico, mas a deusa Grande Mãe chega do céu e derrota os invasores com a sua nave espacial matriarcal.
  • o povo indo-europeu tenta atacar o povo pacífico, mas os invasores tinham comido demasiado sal e morrem de hipertensão logo após entrar na Europa.
  • o povo indo-europeu ataca e conquista o povo pacífico, mas este vinga-se abrindo um banco e enchendo de dívidas os invasores.

Eu torço para a primeira hipótese.

Ipse dixit.

Fonte: Tra Cielo e Terra

6 Replies to “A dissonância cognitiva do Ocidente e sua origem arcaica – Parte I”

  1. Sugestão para a segunda parte, junte os termos dissonância cognitiva, judeu, prémio Nobel, disruptor, Daniel Kahneman…

    Torne-se mais sensacionalista, o culto agradece!

  2. Olá Max
    Tenho muita mas muita coisa só que maioritariamente em inglês, podia tirar umas fotos, a nível geográfico e muito mais, arranjei ao longo de anos na Amazon, Ebay (antes do EXP dizer algo :)) não encontro nada de jeito e com a qualidade/conteúdo nem de longe e em sonhos e com tal preço aqui), algumas preciosidades por 6-10-15€(usados, mas como novos) aqui em Portugal vi por desde 50€ a +de 350€ e +++ em Lisboa.
    Resumindo tenho as fontes em Livros, posso aqui colocar?
    E se sim qual é o melhor serviço gratuito na web?
    À uns 15 anos usava e abusava do Photobucket, agora sinceramente nem sei?
    Mesmo que não dê, agradecia a informação para uso pessoal e com segurança, não quero expor albums.

    abraço
    nuno

    1. @Nuno

      Boa noite Nuno 🙂

      ahahahaha

      Do que te foste logo lembrar. A vida e feita de opções e equilibrios. Entre estar a comprar na Amazon sabendo o que la se passa ou ser roubado como e habito aqui em Portugal eu faria como tu. Temos principios que fazemos por seguir e tentamos mudar as coisas mas enquanto estao assim tambem temos de olhar pela nossa vida.

      EXP001

    2. Nuno, peço desculpa, provavelmente é meu Alzheimer que avança, mas juro que não entendi… 🙁

      Queres pôr albums na internet? Ou livros? Queres vende-los?

      Desculpa!!!

      (p.s. eu ainda utilizo Photobucket, mas agora é mais limitado pois há planos pago. E eu não quero pagar! Aproveito para ver se há um serviço melhor e digo algo).

      Grande abraçooooo!!!

  3. Já ouvi tantas vezes (inclusive do meu falecido pai) uma frase que resume bem tudo isso: 'FAÇA O QUE EU DIGO, NÃO FAÇA O QUE EU FAÇO"…

    1. @Max e Expo: não tenho algumas coisa de geografia e coisas com esquemas, e ilustração tipo dorley kingley e vários livros desde referencia a história(ciclos) ciências a sei lá(não sou ludita mas um tipo que ganhava o s. mínimo e procurava bom material, quando apareciam coisas tipo custo/qualidade, para alargar horizontes).
      Ao estar num local um pouco isolado, e a trabalhar 6 dias por semana pouco pude sair da prisão(espacial e monetária), logo era uma forma de escape, não é psudo-intelectualismo é pura e simples gosto e curiosidade.
      Prefiro o fisico(livro), a algo que só funciona num S. Operativo, aí é pdf e um tablet 10" (a vista a partir dos 45+ não dá).
      Não para já ainda não preciso vender;) é que tenho info que scaneava e metia os links, até sobre este assunto, aqui e se pudesses usar, tanto melhor, é mais por causa de dir. de autor.

      @Chaplin: Maioria das sociedades atuais vive em dissonância cognitiva, e os maiores moralistas ou são geralmente os mais pérfidos na vida real, ou possuem uma mente doentia e pensam que os outros são como eles, ou acham-se espertos e querem fazer dinheiro, ou ocupam um vazio…
      ex: um familiar meu que nos anos 70/80 dominava o negócio e outros da igreja pedagiada principalmente na zona leste de S.Paulo e outros sitios, mas o nicho dele foi ocupado pela Iurd(muito pior em tudo*). Aliás quando faleceu à 2 anos, no Fb dele apareceram mensagens de condolencias á familia…do "lord" cof cof Roth…chefe.(com código a comprovar o original)
      Enquanto eu estava no trabalho, um meu famiiar e ele encontravam se aqui na cidadezina,um com ideologia outro com a outra, e davam-se muito bem.
      Quando tive tempo e estive com eles, aprendi(ouvir bem) "o que julgamos ser o outro lado" e percebi certos mecanismos(que suspeitava) e as respostas estão à nossa frente, é preciso é ver de outra forma**… fico por aqui.

      Nuno

Obrigado por participar na discussão!

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