A Crónica do Tamiflu

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Lembram-se do Tamiflu?

Era uma vez uma terrível
doença que dizimava a espécie humana (uma gripe). Quando já o fim
parecia inevitável, no céu apareceu um anjo disfarçado de Secretário da
Defesa dos Estados Unidos (Donald Rumsfield) que doou aos Homens a
embalagem dum fármaco milagroso, o Tamiflu.

A Anjo disse “Com o Tamiflu a peste derrotas tu” e, de facto, a Peste Aviária desapareceu como por magia.
O
sorriso voltou nos rostos das crianças e o dinheiro encheu os cofres da
Gilead Sciences, da qual, por mero acaso, Donald Rumsfield (o original)
era presidente.

Esta é a história contida nas Crónicas
das Terras de Meio, ainda hoje contada pelos avós perto das fogueiras,
nas longas noites de Inverno.

Mas existe uma outra crónica, menos conhecida, que agora vamos ler.
Esta é a Crónica do Tamiflu

A Crónica do Tamiflu

Nos
dias escuros da Peste Aviária, muitos reinados gastavam baús cheios de
dinheiro para comprar o mágico Tamiflu. Medidas apoiadas pela
Organização dos Médicos Sábios (OMS, para os amigos), que assim
declamava:

Intervenção farmacológica
chave para a prevenção da gripe nas fases precoces dum evento pandémico,
quando ainda não está disponível a vacina.   

Isso enquanto o governo dos Reinos Unidos do Oeste declarava o Tamiflu:

Eficaz na diminuição do risco de pneumonia, em diminuir os internamentos e em reduzir a mortalidade da gripe.

Eram
estas as palavras dos sábios do mundo todo e os povos eram felizes,
porque os sábios tinham apontado um caminho, o caminho da salvação.

Mais:
a eficácia do Tamiflu era comprovada até por um grupo de mágicos
guiados pelo maior xamã de todos os tempos, Tom Jefferson. O grupo
escreveu num pergaminho com letras douradas, no qual testemunhava que o fármaco milagroso era
capaz de reduzir a duração da gripe de um dia, limitar a transmissão de
pessoa para pessoa e diminuir a probabilidade de complicações.

Era a palavra final. O Tamiflu era realmente mágico.

Todavia,
sabemos que o Mal sempre espreita escondido nos cantos mais escuros e,
logo que existir uma ocasião, não hesita em atacar as almas dos mais
fracos com as suas garras de aço.
Assim, no ano 2009 d.G.C.
(depois da Grande Cruzada), um demónio entrou no corpo do médico
Hayashi, das Ilhas do Extremo Leste. E Hayashi, outrora um conhecido
como Hayashi o Cinzento, assim falou:

Vocês
declaram que o Tamiflu previne importantes complicações da gripe, quais
as pneumonias. Todavia, as vossas avaliações estão baseadas na revisão
da literatura anterior e não numa vossa análise dos dados.   

Era
uma acusação gravíssima. Porque, segundo Hayashi, os mágicos do xamã Tom
Jefferson não tinham experimentado o Tamiflu: simplesmente tinham
“copiado” uma experiência anterior, conduzida por outros.

Mas
“outros” quem? A Roche (sempre seja louvada), a mágica oficina na qual o
Tamiflu era preparado segundo uma receita ancestral e com ingredientes
secretos.

Porque era verdade: a Roche tinha medo da
potência do fármaco e, antes de pôr em perigo o bem estar de alguém,
preferiu pagar do seu bolso 10 estudos. E estes 10 estudos, confirmou a
Roche, concordavam todos acerca da bondade do Tamiflu.

Mas aqui havia algo estranho: 8 dos 10 estudos tinham desaparecido! 
O
sádico Hayashi o Cinzento tinha lançado a semente da dúvida nos
corações dos homens. Era preciso intervir e derrotar, duma vez por
todas, as Forças do Mal. E qual a táctica melhor? Utilizar as palavras
do mesmo Mal para que o Bem possa prevalecer.

Assim,
o xamã Tom Jefferson foi a pé até a floresta no meio da qual surgia a
mágica oficina da Roche e pediu para visionar os 8 estudos em falta.

Mas
enquanto o grande Tom Jefferson enfrentava a viagem, Hayashi o Cinzento
espalhava outras dúvidas e outra dor entre os humanos: do topo dum
monte, gritava, ameaçava, acusava com a espuma que saia da boca.
Afirmava que 4 dos estudos tinham sido escritos pelos homens da Roche, um
por um consultor da mesma e que apenas um dos autores parecia não ter
ligações com a mágica oficina.

Acusações infames, mesmo
na altura em que Tom nem podia ouvir pois arriscava a vida para alcançar a oficina Roche. Até que, por fim, o xamã chegou ao grande portão de
carvalho e foi acolhido por um anão.

Mas o anão desconfiava de Tom: grandes segredos eram guardados entre as paredes da oficina!
Por
isso, antes de mais, fez assinar ao Tom um acordo de confidencialidade,
com o qual proibia a completa publicação dos estudos e até o simples
facto de mencionar o acordo.

A seguir, o anão disse que
lamentava, mas os estudos já tinham sido entregues a um outro grupo de
mágicos. Perante as queixas de Tom, o anão mostrou-lhe alguns dados, mas
insuficientes para determinar a eficácia do Tamiflu.

A mágica oficina da Roche

Cansado,
Tom decidiu voltar para casa com a simples promessa do anão: a Roche enviaria os dados completos muito em breve, com um mensageiro que
voava nas asas dum dragão.

Mas no caminho do regresso, enquanto descansava à sombra duma árvore, teve uma visão: afinal a OMS (a Organização dos Médicos Sábios) tinha dado parecer positivo para o Tamiflu. Eles deviam ter visto os estudos!

Acordou depressa e decidiu: não para casa mas até o castelo da OMS, custe o que custar.

Então o xamã foi a pé até o castelo, enfrentado novos perigos, onde viviam os elfos (os médicos são todos elfos) e, juntos, começaram a procurar os estudos no imenso arquivo. Milhões de livros, documentos, mapas, todos devidamente ordenados, rotulados e guardados com amor.

Mas, mais uma vez, dos 10 estudos nem um rasto: um verdadeiro mistério.

De volta para o seu grupo de mágicos, Tom tomou uma decisão: esperar, pacientemente. E enquanto assim falava aos mágicos, naquela altura de desespero, um dos fieis servidores entrou no grande laboratório: “Mestre…” quase disse sem respirar “o mensageiro…o dragão!”.
Correram para as janelas e sim, era verdade: dos altos das brancas nuvens, um dragão planava com graça na direcção deles. Era o mensageiro da Roche!

“Finalmente” pensou o xamã, “o mundo está salvo”. E começaram assim dias e noites de estudos, investigações, pesquisas. Os meses passaram, as estações seguiram-se, e no ano 2010 o grupo de Tom Jefferson declarou ao mundo todo: 

Quanto obtido pela Roche, apesar de amplo e pormenorizado, é apenas uma pequena parte dos dados ainda na posse deles. Estamos impossibilitados de determinar a eficácia do Tamiflu na prevenção da transmissão e nas complicações da gripe. Para esclarecer definitivamente estas questões, seriam necessários os relatos completos de todos os estudos clínicos, com o protocolo do estudo e os dados dos pacientes.

A verdade é que, ainda hoje, passados quatro anos, 60% dos dados permanecem desaparecidos. E Hayashi o Cinzento? Continua a rir e ladrar do topo do monte, com a espuma na boca?
Não. Porque na verdade, o demónio foi derrotado.
O castelo da OMS

O que o xamã Tom percebeu, só após noites sem sono entre lágrimas e escuridão, foi que o erro era dele.Dele e do seu grupo de mágicos.
Hayashi o Cinzento, extraviado pelo Mal, tinha explorado uma falha no espírito deles todos: a falta de Fé.

Embebedados com os princípios científicos, com as fórmulas, com os testes, acharam possível “medir” a doença, controla-la com a força da Razão. O que não perceberam é que a doença nunca tinha existido: tinha sido uma prova decidida por Deus e espalhada pelo anjo com o rosto de Donald Rumsfield. Ele, o mesmo anjo que entregou mais tarde o mágico Tamiflu, tinha sido o braço de Deus.
Um teste para a Humanidade toda. Fé contra arrogância científica.
O Tamiflu era isso: Fé, nada mais do que pura Fé. Assim como a Fé fazia funcionar o Tamiflu. Por isso a Roche nunca divulgou os seus segredos: só a Força do Espírito pode controlar algo que não existe.
Esta é a grande moral da Crónica do Tamiflu: inútil questionar, procurar, investigar, pois perante determinadas forças, só a Fé pode ajudar. A Fé e uma boa máquina de propaganda.
Passarão os anos, passarão os séculos e até as eras: mas os anões da Roche nunca divulgarão os estudos em falta, pois não precisam. Até que ninguém mais irá lembrar-se daqueles homens de Ciência que, arrogantemente, quiseram desafiar a Vontade do Criador.
Mas pouco importa: o Tamiflu já conseguiu o seu objectivo entre os homens de boa vontade.
E também nos cofres de Donald Rumsfield.
Não o anjo: o original.
Ipse dixit.
Fontes:
  • Godlee F.: Clinical trial data for all drugs in current use. BMJ 2012;345:e7304.
  • World Health Organization: WHO interim protocol: rapid operations to contain the initial emergence of pandemic influenza. 2007. [PDF: 293 Kb]
  • The White House: National Strategy for Pandemic Influenza – Implementation Plan
  • Jefferson Tom, Demicheli V, Di Pietrantoni C, Jones M, Rivetti D. Neuraminidase: Inhibitors for preventing and treating influenza in healthy adults. Cochrane Database Syst Rev 2006;3:CD001265.
  • Jefferson Tomas, Demicheli V, Rivetti D, Jones M, Di Pietrantoni C, Rivetti A.: Antivirals for influenza in healthy adults: systematic review. Lancet 2006;367:303-13.
  • Doshi P.: Neuraminidase inhibitors – the story behind the Cochrane review. BMJ 2009;339:b5164.
  • Kaiser L, Wat C, Mills T, Mahoney P, Ward P, Hayden F.: Impact of oseltamivir treatment on influenza-related lower respiratory tract complications and hospitalizations. Arch Intern Med 2003;163:1667-72.
  • Jefferson T, Jones M, Doshi P, Del Mar C.: Neuraminidase inhibitors for preventing and treating influenza in healthy adults: systematic review and meta-analysis. BMJ 2009;339:b5106.
  • Smith J: On behalf of Roche – Point-by-point response from Roche to BMJ questions. BMJ 2009;339:b5374.
  • Doshi P, Jefferson T, Del Mar C.: The imperative to share clinical study reports –  recommendations from the Tamiflu experience. PLoS Med 2012;9:e1001201.
  • Jefferson T, Jones MA, Doshi P, Del Mar CB, Heneghan CJ, Hama R, Thompson MJ.: Neuraminidase inhibitors for preventing and treating influenza in healthy adults and children. Cochrane Database of Systematic Reviews 2012, Issue 1.
  • Payne D.: Tamiflu – the battle for secret drug data. BMJ 2012;345:e7303.
  • Goldacre B.: Bad Pharma. Fourth Estate, 2012.

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