Bancos e droga – Parte III

Terceira e última parte de “Bancos e droga”, baseado num artigo do jornalista Michael Smith.
A primeira parte pode ser consultada neste link, a segunda aqui.

Boa leitura

 A família Oropeza

Durante anos, as autoridades federais tinham observado a mulher e a filha de Oscar Oropeza, um traficante de droga que trabalhava para o cartel de Matamoros, depositar pilhas de dinheiro numa agência da Bank of America em Boca Chica Boulevard em Brownsville, Texas, a menos de 3 milhas da fronteira.

O investigador Robinette senta no seu pick up na rua em frente da agência. É uma construção dum andar, de estuque amarelado, ao lado dum Kentucky Fried Chicken. Robinette discute o caso Oropeza com Tom Salazar, um agente que investigou a família.

Todos ali sabiam quem eles eram, todos“, diz Salazar. “Todavia o banco nunca contactou as autoridades

O caso Oropeza dá um novo significado literal ao termo lavagem de dinheiro. A esposa de Oropeza, Tina Marie, e a filha Paulina Marie depositavam pilhas de notas de 20 Dólares várias vezes por dia nas contas da Bank of America, diz Salazar. Os funcionários do Banco conheciam Oropezas pelo cheiro do dinheiro dele.

Eu perguntei aos funcionários do que estavam a falar e eles disseram que o dinheiro tinha este cheiro tão doce como o Bounce [um produto amaciante para roupa, NDT] “, diz Salazar. “Disseram-me que, quando abriam o cofre, saia o cheiro de Bounce“.

Oropeza, 48 anos, foi preso a 820 milhas de Brownsville. No dia 31 de Maio de 2007, a polícia de Saraland, Alabama, parou o homem por causa duma infracção de trânsito. Verificado a ficha dele, aperceberam-se da investigação no Texas.

Vasculharam a van e descobriram 84 kg (185 libras) de cocaína escondidos sob um piso falso. Isso permitiu aos agentes federais congelar as contas bancárias e efectuar buscas na casa de Oropeza, casa com piso de mármore em Brownsville, conta Robinette. No interior, os investigadores encontraram uma reserva de Bounce ao lado da máquina de secar roupa.

Todos os três Oropezas declararam-se culpados, no Tribunal Distrital de Brownsville, das acusações de tráfico de droga e branqueamento de capitais, em Abril de 2008. Oscar Oropeza foi condenado a 15 anos de prisão, a sua esposa foi condenada a 10 meses e a filha a 6 meses.

A Bank of America afirma: “Nós não só cumprimos a nossa obrigação regulamentar, mas temos trabalhado de forma pro-activa com a aplicação da lei sobre estas questões.”

Os procuradores distratais tentaram parar a lavagem de dinheiro na American Express Bank Internacional duas vezes. Em 1994, o banco, então uma filial da American Express Co. de New York, comprometeram-se a não permitir a lavagem de dinheiro após dois empregados terem sido condenados num caso criminal que envolvia o traficante Juan Garcia Abrego.

Em 1994, o banco pagou 14 milhões de Dólares para concluir o caso. Cinco anos depois, o dinheiro da droga novamente fluía através da American Express Bank. Entre 1999 e 2004, o banco não conseguiu impedir aos clientes a lavagem de 55 milhões de “narco-Dólares”, tal como o banco teve de admitir perante uma nova acusação em Agosto de 2007.

Pagaram 65 milhões de Dólares e prometeram não violar a lei outra vez. O governo abdicou da acusação criminal um ano depois. A American Express vendeu o banco para a Standard Chartered PLC, de Londres, em Fevereiro de 2008 por 823 milhões de Dólares.

Os bancos não são as únicas instituições financeiras que fecham os olhos perante os cartéis da droga na passagem de fundos ilícitos. A Western Union Co., a maior empresa do mundo na transferência de dinheiro, concordou em pagar 94 milhões de Dólares em Fevereiro de 2010 para resolver os inquéritos civil e criminal do escritório do procurador-geral do Arizona.

 Multinacionais

Polícias disfarçados como traficantes de drogas subornaram funcionários da Western Union para obter transferências ilegais de dinheiro, diz Cameron Holmes, um procurador-geral adjunto.

A lealdade deles foi para os traficantes“, diz Holmes. “O que pensaram foi ‘Como posso agradar os meus clientes que mais gastam?

Trabalhadores em mais de 20 escritórios da Western Union permitiram que os clientes usassem vários nomes, passaram identificações fictícias e sujaram as próprias impressões digitais nos documentos, dizem os investigadores registos do tribunal.

Durante toda a investigação com operações de disfarce, nunca foram recusados os subornos“, disse Holmes, citando declarações do tribunal.

A Western Union fez melhorias significativas, em conformidade com as leis anti-branqueamento de capitais e trabalha em estreita colaboração com as autoridades e a polícia, afirma o porta-voz Tom Fitzgerald.

Por quatro anos, as autoridades mexicanas lutaram uma batalha perdida contra os cartéis. A polícia muitas vezes estava dois passos atrás dos criminosos. Perto do canto sudeste do Texas, em Matamoros, mais de 50 tropas de combate cercaram um posto da polícia.

Os agentes prenderam dois suspeitos traficantes para o interrogatório. Perto dali, dois jovens com camisetas brancas e calças largas observavam a falavam nas rádios portáteis. Estes são los halcones (os falcões), cuja função é permitir que os chefes de cartéis saibam o que a polícia está a fazer.

Enquanto a polícia fica presa, os Mexicanos vivem no medo. Rojas, o homem que vive na favela de Tijuana perto da fronteira, lembra-se encolhido em sua casa como os contrabandistas abrem o fogo contra a polícia.

A única maneira de sobreviver é ficar fora do caminho e esperar que a violência, as balas, não venham na tua direcção“, diz Rojas.

Para as iniciativas criminosas, os cartéis de drogas do México precisam mover biliões de Dólares para além das fronteiras. Esta é a maneira de financiar a compra de droga, aviões, armas e esconderijos, diz o senador Gonzalez.

São empresas multinacionais, afinal de contas“, diz Gonzalez, enquanto lentamente carrega o revólver na mesa do seu escritório na Cidade do México. “E não podem trabalhar sem um banco.”

O mapa dos principais cartéis da droga no México

Acaba aqui a terceira parte do artigo.
Lembramos que a primeira parte está disponível aqui, enquanto a segunda aqui.

2 Replies to “Bancos e droga – Parte III”

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