Bancos e droga – Parte II

Segunda parte do artigo de Michael Smith.
A primeira parte pode ser encontrada aqui.
Boa leitura.

Smurfs

As pessoas que fazem as pequenas trocas de dinheiro são conhecidas como Smurfs.

Eles podem usar um exército de pessoas como Smurfs e passar um milhão de Dólares antes do almoço“, diz Jerry Robinette, que supervisiona as operações Immigration and Customs Enforcement na fronteira leste do Texas.

O Tesouro dos EUA tem advertido os bancos sobre as grandes empresas mexicanas de lavagem de dinheiro desde 1996. Em 2004, muitos bancos dos EUA tinham fechado as contas destas empresas, que são conhecidas como casas de câmbio.

A Wachovia Corp. ignorou os avisos das autoridades, segundo a acusação.

Já em 2004, a Wachovia Corp. tinha entendido o risco“, como o mesmo banco admitiu em tribunal. “Apesar destas advertências, a Wachovia permaneceu no negócio.”

Um cliente que o Wachovia Corp. “ganhou” em 2004 foi o Cambio Casa Puebla SA, companhia de câmbio baseada em Puebla, no México. Pedro Alatorre, que dirigia a filial da Puebla em México City, criou empresas de fachada para os cartéis, de acordo com um caso criminal pendente do México contra ele.

Um júri federal em Miami acusou a Puebla SA, Alatorre e três outros executivos em Fevereiro de 2008 por tráfico de drogas e lavagem de dinheiro. Em Maio de 2008, o Departamento de Justiça pediu a extradição dos suspeitos, alegando que as empresas de cobertura tinham reciclado 720 milhões de Dólares através de bancos dos EUA.

Alatorre foi para uma prisão mexicana com uma pensa de 2 anos e meio. Ele nega qualquer acusação, diz o advogado Mauricio Moreno.

Todavia há provas de que durante o período em que a Wachovia Corp. admitiu transferir o dinheiro para fora do México por conta da Puebla, “correios” carregados com sacos de plástico recheados de dinheiro trabalharam com Alatorre.

Os investigadores mexicanos descobriram que Alatorre abriu contas no HSBC, em nome de empresas de fachada.

Os executivos da Puebla SA usaram as identidades roubadas de 74 pessoas para a lavagem de dinheiro através de contas do banco Wachovia, tal como afirmam os procuradores mexicanos.

A Wachovia Corp. tratou de todas as transferências e nunca indicou uma qualquer como suspeita“, diz José Luis Marmolejo, um ex-chefe da unidade do procurador-geral mexicano, que agora trabalha por conta própria.

Em Novembro de 2005 e Janeiro de 2006, a Wachovia Corp. transferiu um total de 300 mil Dólares da Puebla SA para uma conta da Bank of America em Oklahoma City, segundo informações nos casos Alatorre nos EUA e no México.

Os traficantes de drogas usaram os fundos para comprar o avião DC-9 graças a empresa de Oklahoma City U.S. Aircraft Titles Inc., de acordo com os registos financeiros citados pelo tribunal mexicano. A presidente da U.S. Aircraft Titles Inc., Sue White, recusou comentar a notícia.

Em 05 de Abril de 2006, um piloto conduziu o avião desde de St. Petersburg, Florida, até Caracas, Venezuela, com o objectivo de pegar a cocaína, de acordo com a DEA. Cinco dias depois, as tropas apreenderam o avião em Ciudad del Carmen, México, e queimaram as drogas numa base militar nas proximidades.

Tenho a certeza de que a Wachovia Corp. sabia o que se estava a passar“, diz Marmolejo, que supervisionou a investigação criminal dos clientes da Wachovia. “Foi por muito tempo e fizeram demasiado dinheiro para não terem percebido.”

  Contra a lei

Na unidade anti-branqueamento de capitais do banco Wachovia Corp., em Londres, Woods e o seu colega Jim DeFazio dizem suspeitar de que os traficantes estavam a usar o banco para movimentar fundos.

Woods, um ex-investigador de Scotland Yard, encontrou assinaturas ilegíveis e outras marcas suspeitas em cheques de viagem de agências câmbio do México, como afirmou numa carta de Setembro de 2008 enviada ao Financial Services Authority de Inglaterra. Enviou cópias da carta também para a DEA e o Departamento do Tesouro dos EUA.

Woods, de 45 anos, diz que o seu chefe disse-lhe para manter a calma e tentou demitido-lo, de acordo com quanto declarado na sua carta ao FSA. Numa reunião, um funcionário do banco insistiu que Woods não deveria ter apresentado um relatório das actividades suspeitas ao governos, contrariando o que exigem as leis dos EUA e do Reino Unido.

Fiquei chocado com o conteúdo e os resultados da reunião, profundamente traumatizado” escreveu Woods.

Nos Estado Unidos,  DeFazio, que tinha sido uma agente do Federal Bureau of Investigation (FBI) durante 21 anos, diz que em 2005 tinha avisado os executivos do banco que a DEA proibia utilizar as transferências através da Wachovia para comprar os aviões.

Os executivos do banco rejeitaram as recomendações de fechar as contas suspeitas, afirma DeFazio.

Eu acho que eles olharam para o dinheiro e disseram:” que se lixem, olha para todo o dinheiro que vamos fazer” diz DeFazio.

DeFazio reformou-se em 2008.

Eu não quero nada com eles“, diz ele. “Eu só queria sair.”

Woods, que demitiu-se da Wachovia  Corp.em Maio 2009, agora aconselha os bancos sobre como combater a lavagem de dinheiro. Recusou discutir os detalhes das acções da Wachovia.

O Comptroller of the Currency John Dugan disse a Woods com uma carta do 19 de Março que os seus esforços tinham ajudado os EUA a construir o caso contra a Wachovia.

Você demonstrou grande coragem e integridade ao falar logo após ter detectado os problemas“, escreveu Dugan.

Foi a investigação da Puebla  SA que levou as autoridades dos Estados Unidos a uma investigação mais ampla acerca da Wachovia. Em 16 de Maio de 2007, agentes da DEA conduziram uma operação nos escritórios internacionais da Wachovia em Miami, Florida. Tinham uma ordem judicial para apreender as contas da Puebla SA.

Os procuradores e os investigadores então analisaram os negócios entre o banco e as agências de câmbio do México. Isso levou à acusação em Março.

Com as contas Puebla penhoradas na Wachovia, Alatorre e os seus sócios mudaram o esquema de lavagem para o banco HSBC, de acordo com os documentos financeiros citados no caso penal do México contra Alatorre.

Nas três semanas depois do raid da DEA nos escritórios da Wachovia, duas empresas de fachada de Alatorre, o Grupo ETPB SA e o Grupo Rahero SC, fizeram 12 depósitos em dinheiro, totalizando 1 milhão de Dólares na filial HSBC do México, como os pesquisadores mexicanos descobriram.

Os recursos financiaram foram utilizados para adquirir um avião Beechcraft King Air 200 que a polícia apreendeu em 29 de Dezembro de 2007, em Cuernavaca, a 50 quilómetros a sul da Cidade do México, de acordo com os dados do processo contra Alatorre.

A primeira parte pode ser lida aqui.
A terceira e última em breve.

Obrigado por participar na discussão!

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