GEAB nº 46 – Parte II: O declínio dos EUA

Segunda e última parte do Geab nº 46.
A primeira parte está disponível aqui.

O declínio dos EUA: Da austeridade escondida até a austeridade federal obrigatória

As eleições intermédias (“mid-term election”) em Novembro de 2010 são o primeiro teste eleitoral dos Estados Unidos em crise. Na verdade, a eleição presidencial de 2008 teve lugar num contexto marcado pelo colapso de Wall Street (que dinamizou o voto para Barack Obama), mas sem que o conjunto da população americana ainda tinha uma visão clara da dimensão do prejuízo económico e social a caminho do qual se encontrava.

Mas no meio do interminável derramamento de petróleo no Golfo do México e duma grande decepção sobre a atitude da administração Obama para inverter as tendências negativas em acto no País (de-industrialização, queda da classe média para classe pobre, apreensões de bens, desemprego, endividamento das famílias, das comunidades locais e dos Estados, aflição da subida do deficit federal, guerras intermináveis no Iraque e Afeganistão, etc. …), a situação eleitoral é particularmente explosiva, como já foi analisado no GEAB n º 45, com o potencial crescimento dos novos secessionistas e do movimento separatista “Tea Party”. Não voltaremos aqui nesta análise. No entanto, parece necessário realçar o estado de ruína crescente do ambiente sócio-económico da grande maioria dos americanos, e por duas razões:

– em primeiro lugar porque é um factor decisivo que parece determinante para prever o movimento dos votos de um grande número de Americanos em Novembro de 2010.
– a seguir porque é uma realidade relatada apenas de forma anedótica pela maioria dos grandes meios de comunicação norte-americanos e quase completamente ignorado pelos principais meios de comunicação estrangeiros, especialmente ocidentais.

A crise nas comunidades locais e tem sido ofuscada pelos problemas do deficit federal. No entanto, é o outro lado da mesma moeda, e uma cara que vai mostrar, no segundo semestre de 2010, que tem um duplo carácter explosivo: eleitoral, como irão mostrar as eleições; e financeira, como provará a consequência da próxima crise dos mercados “dos Muni” (“Municipal Bonds”, Títulos Municipais, NDT), os títulos das comunidades locais dos Estados Unidos (ver “Recomendações” desta edição do GEAB).

Para o LEAP/E2020, a situação é clara: o contexto social de uma grande maioria dos Americanos continua a deteriorar-se desde 2008, apesar do que dizem os especialistas e as estatísticas federais. O desemprego real está, pelo menos, entre 15% e 20%, variando de 30% a 40% nas cidades e nas regiões mais afectadas pela crise. Muitos tantos Norte-Americanos nunca foram dependentes da concessão dos subsídios do governo federal que agora contribuem para níveis sem precedentes no rendimento das famílias americanas. Em paralelo, os Estados são obrigados a aumentar os cortes de orçamento e a eliminação dos serviços sociais de todos os tipos, que ao mesmo tempo agravam o desemprego.

E estes fenómenos ocorrem quando o impacto do plano de estímulo económico de Obama parece estar no seu nível máximo! Portanto, não é o caso para surpreender-se ao saber que o consumo das famílias não descola ou regride, como mostram as vendas ao retalho em Maio; e que o mercado imobiliário continua a sua descida aos infernos. Os indicadores avançados mais confiáveis mostram ainda que a economia americana começará em baixa no segundo semestre. Bem longe do 3,5% de crescimento anunciado em 2010 por Ben Bernanke, o País vai ser feliz de acordo com o nosso grupo se atingir um valor acima do zero para este ano. Porque, ao contrário do discurso em Washington e Wall Street, a austeridade já está presente para a grande maioria dos Americanos que ficaram sem trabalho, e/ou casa, e / ou com dívidas superiores a seus bens, e que não podem pagar mais a universidade e/ou as férias para os próprios filhos, para não mencionar o consumo diário.

Além disso, em muitas localidades não há mais recolha de lixo frequente (ou devem pagar mais impostos), perderam um dia de entrega de correio, são menos protegidos na ausência de polícia, devem fazer filas infinitas aos balcões das administrações após o despedimento de funcionários, e os seus filhos têm menos professores nas escolas que oferecem menos serviços (refeições, transporte escolar, …). Em termos colectivos, então, são as comunidades locais e os Estados que praticam de facto uma política de austeridade escondida já há muitos meses, e em aceleração.

O LEAP/E2020 chama isso “austeridade geral rastejante”.
É o principal componente da economia e da sociedade real americana há dois anos. É a que  personifica o fim do “consumidor dos Estados Unidos” por causa da  insolvibilidade que tínhamos antecipado desde o final de 2006. Uma insolvibilidade que evoluiu gradualmente para cima, para os actores do mercado imobiliário, para os bancos, os fabricantes de automóveis. E agora, com o fim dos estímulos económicos, afecta os Estados, novamente os bancos e, finalmente, o Governo Federal porque, com causa na representação mediática conseguida da “crise grega”, o medo do default soberano levou a Zona Euro e o resto do G20 a concentrar-se na restauração dos equilíbrios de orçamento estruturais e, assim, banir a continuação da dívida ocidental.

Mas, sem aumento da dívida pública, a economia americana está condenada a uma crise maior porque desde as últimas duas ou três décadas não produz nada mais do que a dívida, que já não consegue exportar. O Dólar americano nada mais é do que crédito sobre uma economia totalmente endividada. Assim, ao decidir de não seguir o pedido do secretário do Tesouro, Timothy Geithner, de iniciar uma nova rodada de estímulos económicos para a dívida, o G20 condenou Washington a ter que enfrentar o impensável para os mercados do mundo: anunciar uma era de austeridade orçamental federal. Ironicamente, essa abordagem negativa do G20 (deixar que cada um opere segundo as suas capacidades, os outros membros do G20 não tiveram a coragem de anunciar a austeridade necessária nos EUA), liga-se directamente às prováveis consequências das eleições de Novembro de 2010, que verá a os eleitores norte-americanos atirar com golpes violentos contra o sistema de Washington e os seus principais partidos (ver GEAB anterior), o que torna não só possível mas necessário para os democratas e os republicanos esta “revolução mental” se querem ter uma chance de ganhar as eleições presidenciais de 2012.

Segundo o nosso grupo, as restrições sócio-políticas americanas internas convergem com o as pressões económico-financeiras externas durante o segundo semestre de 2010, que tornam inevitável a execução do primeiro grande plano de austeridade orçamental dos EUA em mais de sessenta anos e o maior aumento da pressão em matéria de tributação nos últimos cinquenta anos.
As consequências dessa “(r)evolution” sobre a economia americana, o comércio, os mercados financeiros globais, o valor dos activos expressos em Dólares (nos primeiros lugares dos quais os Títulos do Tesouro) e do mesmo Dólar são imensas. Voltaremos ao assunto na parte do GEAB n º 46 dedicada às recomendações. No entanto é preciso considerar o espírito segundo o qual em 1945 (e talvez também em 1930), a economia e as finanças mundiais foram baseadas no mito do motor americano de crescimento irresistível que, embora pudesse conhecer pequenos atrasos, mantinha porém a confiança comprovada.

Se a fragilidade da rede social tem sempre exigido aos Estados Unidos um forte crescimento para evitar que milhões de Americanos fossem esmagados pela pobreza, não há dúvida de que isso é ainda mais verdadeiro para o sistema monetário e financeiro mundial que não pode gozar de nenhuma rede de socorro. Se a austeridade grega ou espanhola cria tais turbulências, pode-se imaginar o que vai acontecer com a austeridade dos EUA, que exigirá cortes no orçamento de pelo menos 1 trilião de Dólares ao longo de 3 ou 5 anos. Esta notícia vai causar um debate radical acerca do principal mito sobre o qual foram baseados os mercados internacionais e o sistema económico e financeiro nas últimas décadas, tornando este facto o principal entre os quatro diferentes pontos de fraqueza do sistema global ao longo dos próximos seis meses .

Como dissemos em ocasião do Geab nº 45: mah…

O grupo Europe2020/Leap está a concentrar-se nos problemas dos Estados Unidos. Até aqui tudo bem, também Informação Incorrecta dedica muito espaço à um Pais que está à beira duma catastrófica evolução.

A dúvida surge perante afirmações inerentes à situação europeia. Pegamos nesta frase:

[…]o medo do default soberano levou a Zona Euro e o resto do G20 a concentrar-se na restauração dos equilíbrios de orçamento estruturais e, assim, banir a continuação da dívida ocidental.

Não é bem assim. O que está a tentar fazer a Zona Euro não é banir a dívida mas conter a dívida. O que é muito diferente.
Nenhum político europeu disse até agora: mas que raio é está dívida, chegou a altura de dizer basta.
Nada disso. Simplesmente os Países europeus tentam controlar uma situação que já estava fora do controle.

E seria preciso também gastar algumas palavras acerca desta alegada vontade de contenção: os Países europeus não são os Estados Unidos, não têm as mesmas capacidades. Por isso não foi uma escolha a de avançar com o controle da dívida, era a única coisa que ainda fazia sentido. A alternativa? A dissolução da União e o desaparecimento da moeda única, o Euro.
Não podemos esquecer que tal “escolha” aconteceu depois dum dos Países Membros, a Grécia, já ter entrado num default técnico; e com outros dois Países à beira do colapso (Portugal e Espanha). Qual outra “escolha” poderia ter sido tomada pelas mentes pensantes de Bruxelas?

O mecanismo da dívida permanece intacto, exactamente como nos EUA. E os bancos agradecem.

Mas, sem aumento da dívida pública, a economia americana está condenada a uma crise maior porque desde as últimas duas ou três décadas não produz nada mais do que a dívida, que já não consegue exportar.

Não é só a economia americana que está condenada a um fraco crescimento. A Europa segue o mesmo caminho. Espremer as carteiras dos cidadãos europeus terá como inevitável consequência uma queda nos consumos. E sem consumos o mercado entra em sofrimento.

A Zona Euro tem também um outro problema, que os Estados Unidos não têm: o Euro, embora em perda constante, ainda está mais forte do Dólar; o que não facilita as exportações das empresas europeias.

Não é nosso desejo defender aqui as escolhas de Washington, longe disso. Mas é a segunda vez (pelo menos) que o Geab consegue ver a gripe do vizinho enquanto cala um piedoso véu sobre a nossa pneumonia.

Lembramos que a primeira parte deste Geab nº 46 é disponível aqui.

Ipse dixit.

Obrigado por participar na discussão!

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