Pouca água, muita gente

Nada melhor do que começar a semana com uma boa notícia.
Por isso Informação Incorrecta oferece não uma mas duas notícias. Más, obviamente.

Começamos com o pico da água.

O pico da água

Não chega o pico do petróleo? Agora o da água também?
Sim, mas isso não é propriamente uma novidade: já há alguns anos o problema dos recursos hídricos está em cima de qualquer mesa onde seja discutido o problema do desenvolvimento sustentável.

Segundo os últimos dados, quase dois bilhões de pessoas já sofrem pela escassez da água no mundo. E a situação pode piorar: poluição, desertificação, guerras, simples desperdício são os factores que. se não controlados ou até eliminados,

Em 1956,  o geólogo Marion King Hubbert da Shell Oil apresentou um estudo no American Petroleum Institute em que afirmava que a taxa da produção petrolífera dos Estados Unidos atingiria o seu máximo histórico entre 1965 e 1970.

Embora amplamente ridicularizado no momento, a previsão de Hubbert mostrou-se correta: a produção de petróleo dos EUA atingiu o seu pico em 1970, com cerca de 9,6 milhões de barris de petróleo por dia. Hoje os EUA produzem apenas cerca de 5,3 milhões de barris por dia, com uma queda de cerca de 40%, embora o consumo tem continuado a crescer. Para atender à demanda, os Estados Unidos têm sido cada vez mais obrigados a importar grandes quantidades de petróleo do exterior, com profundas consequências para a política externa, de segurança internacional e de sustentabilidade.

Hoje, um número crescente de cientistas afirma que o pico do petróleo global já foi alcançado, uma discussão que parece estar cada vez mais apoiadas pelas medidas “heróicas” tomadas pelas companhias petrolíferas (como a super perfuração offshore no Golfo do México) para satisfazer o pedido internacional. Dada a dependência mundial do petróleo, um declínio na produção global tem enormes implicações.

Até recentemente, as técnicas do modelo de Hubbert eram aplicadas apenas ao petróleo e outros recursos não-renováveis. Mas nos últimos anos, pesquisadores de outros recursos começaram a estudar a possibilidade de que o consumo de alguns recursos renováveis possa seguir o modelo de Hubbert.

Então, quanto é funcional o conceito de “pico de água”?

Um conhecido perito da água do Pacific Institute, o Dr. Peter Gleick, discutiu o problema da água no Columbia Center em Fevereiro passado.

Como o Dr. Gleick explica, existem diferenças substanciais entre a água doce e o petróleo. Quase todos os usos que são feitos do petróleo, afirma, são “definitivos”, isto é, uma vez que a energia é extraída e utilizada, a sua qualidade degrada-se e de facto perdida para sempre. A água, por outro lado, nunca está realmente perdida por causa do ciclo hidrológico. Portanto, não é literalmente possível chegar ao “pico de água” mundial.

Mas a medida em que a água é extraída duma reserva especial mais rapidamente do reabastecimento natural, um potencial pico hídrico regional é real. Muitos reservatórios de água naturais subterrâneos e também alguns superficiais, como lagos e geleiras, podem ser considerados como não-renováveis e, portanto, sujeitos ao pico e declínio porque podem ser esvaziados mais rapidamente do que a taxa de “recarga” natural.

Gleick também introduz o conceito de pico água “ecológico”, o ponto além do qual o abastecimento de água de chuva está esgotado ao ponto de causar danos irreversíveis aos ecossistemas locais, que dependem dele. A história da desertificação causada pelo homem demonstra o perigo real do uso irresponsável da água a nível regional.

Finalmente, nos círculos do pico do petróleo, os pesquisadores não falam apenas do “fim do petróleo”, mas do “fim do petróleo barato e de fácil acessibilidade“. Visto desta perspectiva, a situação global da água é muito semelhante a do petróleo.

O fim do petróleo barato e fácil já chegou. Da água também. Agora, o que vamos fazer sobre isso?
Nada? Pouco mal: afinal vamos desaparecer em breve.

100 anos e…Puff! Já fomos.

Desta vez é um conhecido e conceituado investigador científico australiano que adverte: vamos desaparecer no prazo de 100 anos.

Frank Fenner, o homem cujo trabalho foi fundamental para debelar a variola, acha que já entrámos nos minutos de compensação, para utilizar uma expressão futebolística. Não há tempo para substituições, não vai haver play off.

A raça humana estará extinta nos próximos cem anos e muitas espécies animais também. Quem diz isso é Frank Fenner, 95enne professor de microbiologia na Australian National University. Segundo o eminente professor, a precipitar os acontecimentos será o crescimento demográfico explosivo e os consumos fora de controle, dois factores aos quais os homens não irá sobreviver, mas a começar o declínio foram as mudanças climáticas.

O Homo sapiens estará provavelmente extinto nos próximos 100 anos e o mesmo irá acontecer a muitos animais. A situação é irreversível e acho que é tarde demais para remediar. Não costumo falar disso porque as pessoas ainda estão a tentar fazer alguma coisa, embora continuem a adiar. Naturalmente, desde que a raça humana entrou na era conhecido como o Anthropocene (um termo cunhado em 2000 pelo cientista Paul Crutzen para definir a actual era geológica em que as actividades humanas são as principais causas da mudança climática, NDT) o efeito sobre o planeta foi tal que é possível compara-lo a uma das eras do gelo ou ao impacto de um cometa. É por isso que estou convencido de que o nosso é o mesmo destino dos habitantes da Ilha de Páscoa. Actualmente, a mudança climática é ainda numa fase muito precoce, mas já observamos mudanças significativas no clima.

Os Aborígenes têm mostrado que é possível viver por 40 ou 50 mil anos sem a ciência, a produção de dióxido de carbono e aquecimento global, mas o mundo não pode e assim a raça humana arrisca ter o mesmo destino de muitas outras espécies que extinguiram-se ao longo dos anos.

“Como a população continua a crescer até sete, oito ou nove bilhões de pessoas, haverá muitas guerras para os alimentos“, continua Fenner, que conclui:

Os netos das gerações de hoje vão enfrentar um mundo muito mais difícil.

 Um mapa do mundo feito a partir da concentração demográfica ao invés das massas de terra. A população do planeta alcançará os 7 bilhões no próximo ano (clicar para aumentar)

A visão catastrófica e pessimista de Fenner não aparece, entretanto, encontrar grande apoio entre os seus próprios colegas. Como disse o professor Stephen Boyden numa entrevista ao Daily Mail 

Frank pode estar certo mas alguns de nós ainda têm a esperança do que seja possível ter consciência da situação e, portanto, implementar as mudanças necessárias para alcançar um desenvolvimento verdadeiramente sustentável para o ambiente.

 A evolução demográfica dos últimos 2.000 anos e as projecções até o ano 2050.
(clicar para aumentar)

“A raça humana – afirma Simon Ross, vice-presidente da Optimum Population Trust – está a enfrentar os verdadeiros desafios como as alterações climáticas, perda de biodiversidade e crescimento sem precedentes da população“. Mas algum partilham as preocupações do professor Fenner. Outro cientista, o professor Nicholas Boyle da Cambridge University, foi ainda mais longe, assumindo o 2014 como a data do “Juízo Final”, e explica  que o mundo está a deslizar para uma crise global sem precedentes que terá influencias bem maiores da actual crise económica internacional.

Já em 2006 tinha sido o esimio professor James Lovelock a lançar o alarme sobre o declínio, no próximo século, da população mundial, declínio estimado em 500 milhões de unidades e devido aos efeitos do aquecimento global, argumentando que nenhuma tentativa de mudança do clima realmente poderia resolver o problema, mas apenas permitirá ganhar tempo.

Boa semana.

Obrigado por participar na discussão!

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