Alice Barnier no mercado das maravilhas

Um dia esquisito.

A queda de Wall Street

A bolsa de Wall Street passa de -2 a -9, chegando a perder 1.000 pontos. tudo bem, isso pode acontecer.

Mas não em 10 minutos!

E, a seguir, desde -9 recuperou até -3,5. Sempre no prazo de alguns minutos.

Aqui está o gráfico de um dia de ordinária loucura em Wall Street:

Algo não bate certo…
Justificação: 

“Houve inúmeras transacções erróneas” durante a queda de quase 1.000 pontos do Dow Jones, alertou a NYSE Euronext, justificando assim a queda momentânea de mais de 9% nas bolsas de Wall Street.

Estas transacções erróneas provocaram também pânico entre os investidores, que sem saberem o que se tinha passado acabaram por ser contagiados.

Os receios dos investidores em relação a uma contaminação da crise de dívida que se vive actualmente na Europa têm contribuído para a queda das bolsas, que já mais do que anularam totalmente os ganhos acumulados nos primeiros quatro meses deste ano. (Fonte: Jornal de Negócios)

“Inúmeras transacções erróneas.” Interessante. Tão interessante que já foi aberta uma investigação, pois as autoridades querem perceber o que realmente se passou.
 
Mesmas transacções no outro lado do Atlântico? Nada disso.
Aqui podemos falar abertamente de ataques. Portugal, Espanha e Italia foram alvo de “rush” muito rápidos, com quedas abruptas no prazo de pouco tempo.

Vejam o que aconteceu na Bolsa de Milão:

Um dia calmo, com perdas contidas até as 16:10. A partir dai é só descer na vertical. O índice Mib fechou com um pesado -6%.

Melhor, mas não muito, a situação em Lisboa: -2,37% e os juros da dívida que pela primeira vez nos últimos 13 anos ultrapassam a barreira do 6%.

Surpresa das surpresas!

Mas a notícia mais simpática é do Corriere della Sera. De repente alguém descobriu que o mundo não é um lugar só cor de rosa como pensava.

Michel Barnier, Comissario das Finanças, disse que as grandes agências são poucas, pouco diversificadas e todas americanas.

Bom dia Sr. “Alice no mercado das maravilhas” Barnier! Bem-vindo ao planeta Terra.

Na opinião dele, e segundo outros leader europeus, as catastróficas anaáises das agências de rating […] favorecem as especulações bancárias e dos hedge funds americanos com os CDS (Credit Defaults Swap), derivados contra a bancarrota dos Países mais expostos e a queda do Euro.

Sério? Epá, isso é grave, não é?

A América responde que a crise da Grécia e as próximas são responsabilidade dos governos europeus e da UE.

O que não é a verdade toda mas mesmo assim já consegue identificar alguns dos responsáveis.

Duas considerações.

A primeira: já analisámos as agências de rating neste post, com dados que não guardamos num cofre mas que estão disponíveis para todos (e há muito). Para saber quem são e como operam as agências é só dar uma voltinha na internet.

“Alice” Barnier, esta criatura inocente, e os outros leader descobriram as maravilhas da informática só agora? Pessoas como estas, que vivem no meio financeiro e económico, não sabiam quem eram as várias Standard & Poor’s, Moody’s & C.?
Michel Barnier vive na política desde 1972: foi ministro, Conselheiro de Estado, e desde 1999 está na UE. Nunca ouviu falar de rating? Ora essa…

A segunda: onde estavam “Alice” Barnier e os amigos quando as mesmas agências atribuíam rating absurdamente excessivos, deixando pensar que USA e UE fossem uma espécie de paraíso? Ninguém se queixa do paradoxal rating da Inglaterra? Não, claro que não. Dava e ainda dá jeito.

É inacreditável a atitude destas pessoas. Pessoas que, é bom lembrar, têm nas mãos os destinos do Velho Continente, o nosso destino. E que, não entanto, não sabem distinguir entre o Gato Risonho e o escárnio duma Standard & Poor’s.

Ipse dixit.

Fonte: Il Grande Bluff, Jornal de Negócios

Obrigado por participar na discussão!

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