Os sortudos de Dívidaland

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Bem-vindos em Dívidaland, a terra das dívidas que ninguém pode pagar, da dívida eterna que podemos só refinanciar mas nunca reembolsar.

Bem-vindos no nosso sistema económico.

Num mundo assim é possível ouvir tudo, até que a crise passou, que os indicadores apontam para um futuro feliz, que os maus da fita (bancos desonestos, dizem) já foram individuados e em breve serão punidos.
Ou que o mercado precisa só de algumas correcções para funcionar à maravilha.

Dívidaland tem um centro, chamado EUA (Endividados Unidos Alegres), donde chegam as melhores notícias.
Ali a retoma é já uma realidade.

Dúvidas? Impossível. Nada de dúvidas, só dívidas em Dívidaland. Existem dados, não se pode duvidar, nos EUA os cidadãos querem comprar, comprar e ainda comprar. O quê? Tudo, não importa o quê. E onde encontram o dinheiro? Não se sabe, mas que interessa? Estamos em Dívidaland, tudo pode acontecer!
E, além disso, o dinheiro custa nada.
Pode um país assim estar em apuros? Pode um país cujos cidadãos outra coisa não fazem a não ser comprar ter receios acerca do futuro?
Claro que não.

Em Dívidaland há um só problema: a verdade.
Quem detém o poder está a tal ponto preocupado com a felicidade do povo que não divulga a realidade para evitar até o mínimo sinal de tristeza. Que sortudos em Dívidaland!

Mas um dia, um terrível dia, em Dívidaland chega internet e com esta as notícias actualizadas.
Assim os até então felizes cidadãos de Dívidaland descobrem com horror que há estranhos gráficos. E que estes contam umas histórias diferentes….

Por exemplo:

“Este”, diz tal Gallup, “é o autêntico gráfico dos consumos nos EUA!A linha vermelha é o que foi contado até agora, a linha azul é a verdade!”

Os cidadãos de Dívidaland ficam pasmados. Mas como? Não estávamos a comprar tudo e mais alguma coisa?

Ainda discutem quando eis que aparece um tal Willem Butler que afirma ser um economista do Grupo Citi. E que faz este Butler? Espalha um dos seus panfletos, cheio de gráficos e outras coisas más!

“Qual retoma e retoma”, grita Butler, “olhem só para os EUA: precisam de ajustes estruturais num valor superior ao 10% do PIB para evitar o default! E o mesmo se passa com o Reino Unido e com o Japão!”.

“Ohhhh!” dizem os cidadãos de Dívidaland.

São ajustamentos superiores aos da Grécia!”

“Oooohhhhhhhh!!!” dizem os cidadão de Dívidaland, cada vez mais estupefactos.

“A única solução é o pânico fiscal! Mais impostos, menos despesas, cortes nos investimentos: nada de crescimento para os próximos 5 anos! E chamam esta retoma?”

Já as crianças começam a chorar quando aparece FDIC:
“Ahe? Então se assim for eu actualizo a minha lista de bancos falidos nos EUA: 64 só este ano. Mais, obviamente, os 140 de 2009. E mais os 25 de 2008. Total 229 bancos nos últimos 27 meses. Isso é que é!”

Os cidadãos de Dívidaland não podem crer ao que ouvem. “Mas como?” perguntam um ao outro, “a televisão dizia…e o jornal dizia que…então, qual a verdade?”.

E já a felicidade é só uma lembrança: ao pânico sucedem-se os primeiros sinais de tristeza quando, distraidamente, alguém liga a rádio.

“...e agora os títulos das principais notícias do dia: EUA lutam contra a mancha de petróleo que ameaça as costas da Florida, explosão numa mesquita em Somália provoca 39 mortos, Lula é eleito uma das pessoas mais influentes pela revista Times, amanhã o Benfica pode sagrar-se Campeão...”

E os sorrisos voltam como sempre em Dívidaland.

Fontes: Il Grande Bluff, Chicago-Blog, FDCI, Gallup, Citi Global Economics View (PDF)

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